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Salvemos a CINEMATECA

domingo 9 de agosto de 2020, por Terezinha Vicente ,

Imagens Cinemateca Acesa

Apavorada com a destruição diária de nossa cultura, ancestralidades, história e arte, por esse governo das trevas, vejo nas redes a Cinemateca ser invadida pela Polícia Federal nesta sexta-feira de manhã. Tantas tardes de sexta (e sábado, e domingo...) passei naquela linda construção, desde que transformada radicalmente para o cinema e destituída de qualquer vestígio de sua função original. Quantas mostras próprias, internacionais, nacionais, temáticas. Quantos cafés e boas conversas ali e até passeios pelos seus jardins.

Sabia que os funcionários estão há meses sem receber e que a luta seguia um tanto invisível; sabia que infelizmente neste país a arte mobiliza pouco e a Cinemateca tem vivido sob ameaça de ser administrada por bolsonaristas convictos como Regina Duarte. E não adianta saber depois que o que ocorreu foi apenas o alto funcionário do governo na Cultura, responsável pelo áudio visual, que foi lá pegar a chave da mão da fundação que administrava, desde o governo golpista anterior, a Cinemateca. Eu vi soldados armados, carros da PF no portão, dando guarida ao tal representante governamental na tomada daquele espaço, será que foi prá ficar mais cinematográfico?

Penso naqueles trabalhadores especializados e amantes do cinema, nas restaurações fundamentais que fizeram, na arte da preservação, na tristeza e desespero que devem estar sentindo. Penso naquele acervo e para quantxs de nós foi fonte de revelações históricas, formação, ou simples fruir a sétima arte, nacional e internacional. Penso nos tantos encontros, reuniões e debates que fizemos ali quando tivemos o melhor Ministro da Cultura da história do Brasil, Gilberto Gil. Época em que o espaço da Cinemateca foi linda e permanentemente ocupado por arte, reflexão e política cultural.

Ali, a maioria das mostras era gratuita, algumas sessões ao ar livre. Ali era ponto de encontro intergeracional de cinéfilos, sobretudo naqueles eventos estimuladores da criatividade cinematográfica de estudantes e jovens artistas das periferias. Quando existia mínimo (e sempre foi mínimo) investimento federal na cultura deste país. Também naqueles festivais de clássicos que fizeram história desde o século passado, formação para todxs. E na já saudosa Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, quando superlotam as salas da Cinemateca, ao contrário de outras mostras, menos acessíveis para não cinéfilos. Mas também necessárias. Como as infantis.
Penso, e lamento, o quanto a arte, que é salvação, está sendo destruída em nosso país. O quanto artistas estão sendo empurrados para a miséria. É uma guerra contra pessoas que, por serem mais sensíveis ao ser humano, às delicadezas de manter a mente sã em meio a este mercado selvagem, ao amor e à poesia, à empatia, são artistas. Ou vice-versa.

O fundamental é que a arte existe em todxs nós, é uma necessidade quase fisiológica do ser humano em suas linguagens. Mas ao invés de desenvolvê-la, a arte é quase sempre reprimida. Ou porque é libertária ou porque não há tempo para isso na luta por sobreviver. Pobre não tem direito à arte, nem de usufruir, o que dizer de experimentar, aprender, produzir. Exceções às famílias musicais, circenses, ou as que já perceberam a importância de desenvolver esse lado realizador e feliz da existência.

Com a velocidade impressa no mundo hoje, com a rapidez com que as coisas são substituídas, com a sequência de vírus que nos assombram globalmente, com o acostumar-nos (a gente se acostuma com tudo!!) de falar pelas telas que também nos servem de cinema, de mesas de bar, de local de manifestação política... fico apavorada. Com o exército de evangélicos judaico cristãos fundamentalistas somado ao exército armado, polícias civil e militar, mais as milícias, que o capitão genocida vem tomando para si, fico mais apavorada ainda.

Apavorada faz tempo com o Brasil, mas que se agrava gravemente, que se torna genocídio explícito a cada dia, ameaça armada contra poderes da República, manipulação da informação, da religião, submissão cultural e econômica total ao Império. Apavorada com o nosso acostumar-se com tudo, covardia e resignação. Ainda mais com a nossa incapacidade de resistir, enquanto os ataques acontecem em todos os lados da nossa vida, dos individuais aos globais. Apavora-me o enfrentamento pesado que as gerações que estão entrando na luta e na vida terão pela frente, em defesa de outro mundo possível.

A nossa resistência tem que aumentar, não deixemos escapar nossa história, nossa arte, nosso cinema. Não deixemos a nossa cultura ser dominada por valores eugenistas, racistas, opressores, limitadores do ser e da nossa existência. O cinema, fonte de emoções e autorreconhecimentos, de admiração do belo e das artes todas, encontro social e assunto de tantas conversas, a história do nosso cinema tem que ser salva. Por isso formou-se uma frente – SOS Cinemateca – que vem lutando para a preservação da instituição e do cinema brasileiro. Trabalhadores uniram-se a movimentos de moradores e de cineastas e lutam por todos nós. A Cinemateca é brasileira e é responsabilidade do Governo Federal. A Prefeitura Municipal de São Paulo propõe assumi-la. Veremos o que vai dar. Enquanto isso, aumentemos a resistência. A arte salva.

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Imagens: Cinemateca Acesa

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