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Governo defende a cultura do estupro

quinta-feira 27 de agosto de 2020, por Terezinha Vicente ,

Imagem: acervo de Junéia Batista

Passam décadas, séculos, primeira onda do feminismo, segunda, terceira, e a cultura do estupro não acaba. Só que atualmente temos defensores dela no governo federal. Nunca vi tanta maldade junta. A gente sabe que a necropolítica do capital tá no comando globalmente. Mas não dá pra acreditar em certos valores retrógrados, que não se importam que meninas morram ao dar à luz. Menos ainda se importam que meninas fiquem grávidas e não querem perceber que isso só acontece porque elas são estupradas.

A mistura de política e religião, apoiada numa apodrecida “democracia”, cada vez mais corrupta, assassina e racista, alimenta o capital global e a cultura do estupro. Não é só em nosso país, mas aqui quatro meninas de até 13 anos são estupradas a cada hora, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, e a maioria dos crimes é cometido por gente da família. Em 2018, última atualização, foram mais de 66.000 estupros no Brasil, 53,8% de meninas com menos de 13 anos.

Importa muito pouco se a menina não tem os mínimos direitos, nem família que a ame, se a avó tem que sair para ganhar o sustento da casa. Não tem importância se o tio abusa dela “dizendo-lhe” que aquilo é uma forma de amar. A criança aprende o que lhe ensinam, inclusive o que é o amor. A criança vê sua baixa autoestima crescer junto com ela, quando nem o de comer tem. E deve acreditar que existe um paraíso pra ir depois de tanto sofrimento, uma terra prometida se ela for boazinha nesta. E, sobretudo, que é assim mesmo, a desigualdade, a miséria, a falta de amor.

O caso da menina de 10 anos de São Mateus (ES) só ganhou repercussão nacional, e até internacional, porque o governo resolveu se meter. A Ministra, que se diz da Família (qual família?), Mulher e Direitos Humanos, mandou comitiva negociar com a avó da menina a manutenção da gravidez. Mesmo que ela, bem como a responsável, dissesse querer utilizar o seu direito a um aborto legal. A rápida mobilização das feministas e alguns médicos conseguiu transferi-la de estado e garantir à menina um hospital e equipe preparados para livrá-la daquele martírio.


imagem: acervo de Junéia Batista

Sim, ela viveu um martírio, agarrada todo o tempo ao seu bicho de pelúcia. Mas teve uma chance. Coisa que não tiveram as meninas mães dos 21.172 bebês que nasceram, só em 2018, frutos de estupros em crianças de 10 a 14 anos! Imagina a vida dessas meninas, violentadas de tudo que é jeito. Todas deveriam ter tido acesso ao aborto legal e mudado suas vidas. Mas a Ministra Damares, que diz também ter sofrido abuso infantil (coitada, nada aprendeu), é um dos sustentáculos ideológicos desse governo, dirigindo um bando de fanáticos religiosos, manipulados por gente como sua ex-funcionária Sara Giromini.

Ficou explícita no episódio da menina, a oposição ferrenha entre as feministas e os fundamentalistas. Faltam homens pondo o corpo nessa luta. Os estupros não acontecem só com vulneráveis, acontecem até nos casamentos. A cultura do estupro é a mesma que ensina que a mulher é propriedade do homem, que seu corpo lhe pertence, que a ele deve obediência e submissão. Infelizmente, a gente vê muita mulher defendendo sua própria opressão, em nome da família. E vê muito homem engravidando a mulher e saindo fora. No Brasil, mais de 5 milhões de registros de nascimento não tem o nome do pai. E tudo bem.

Não bastam os pastores fundamentalistas e as Fake News que permanentemente fazem campanhas contra as feministas, contra os direitos das mulheres, contra a liberdade de existência de quem não se submete às mais diversas opressões da cultura capitalista, machista, racista e estupradora. Agora, temos diretamente uma Ministra que faz a propaganda da família de bens (armada para se defender), do patriarcado, da maternidade compulsória, da sexualidade reprimida. E que combate as feministas e todos os valores libertadores. Temos que derrotá-la, junto com esse governo. Já a cultura do estupro será mais difícil. Sigamos na luta.

Imagens: acervo de Junéia Batista

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