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Isso não é uma obra de arte

quarta-feira 9 de setembro de 2020, por Antonio Herci,

Dedicado ao Sargento Manoel Raimundo Soares (in memoriam)

Essa declaração do título poderia soar como uma crítica conservadora à arte, desde que a contemporaneidade juntou em um mesmo rol o urinol de Duchamp, as caixas de sabão de Andy Warhol, os trapos tecidos à espera de uma consagração mística de Artur Bispo e objetos triviais do cotidiano, os ready-made, que se tornaram uma febre de final de século XX.

Mas... e quando é o próprio artista que afirma isso, pichando o chão à frente de sua própria criação com a frase: “isso não é uma obra de arte”?

A Situação Trouxas Ensanguentadas foi realizada por Arthur Barrio (1945) em três ocasiões, entre 1969 e 1970, quando vigorava o Ato Institucional número 5 (AI-5), literalmente fazendo sangrar a arte tanto quanto sangravam nos porões os presos e torturados políticos. Alguns deles reapareciam boiando em rios ou esgotos, dispensados como... trouxas ensanguentadas.

Trouxas Ensanguentadas inicia sua trajetória no Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro, em 1969. Após encerrado o período da exposição, Barrio colocou as TEs em um saco e transportou para o jardim, espalhando seu conteúdo e a abandonando sobre um pedestal de concreto, reservado a uma escultura. O MAM foi interpelado pelo poder público para esclarecer do que se tratava aquilo e se era mesmo objeto pertencente ao museu. Finalmente o trabalho acabou retirado, como lixo, após ter permanecido ali por quase dois dias.

As Trouxas foram também espalhadas pelas ruas do Rio de Janeiro em 500 sacos plásticos contendo, segundo o artista, “sangue, pedaços de unhas, saliva (escarro), cabelos urina (mijo), merda, meleca, ossos, papel higiênico, utilizado e não utilizado, Modess, pedaços de algodão, papel úmido, serragem, restos de comida, tinta, pedaços de filmes”... Os sacos causavam diversos tipos de reação, inclusive a de um homem que, ao ser informado por Barrio, depois de perguntar o que era aquilo tudo, que se tratava de “obra de arte”, decidiu pegar um dos sacos com lixos e levar para casa.

Fez parte, finalmente, da exposição Do Corpo à Terra (fig. 1), no Palácio das Artes e no Parque Municipal, em Belo Horizonte, 1970. Na primeira parte (fig. 2), ou preparação das T.E., o artista vestiu uma luva de borracha amarela e, pôs-se a manipular o conteúdo da trouxa – todo aquele citado acima – experimentando, ele próprio, o contato com os materiais e anotando: “SUORCHEIROSENSAÇÃO” e “PELSOBREPEL”.

A segunda parte deu-se na manhã seguinte, quando Barrio colocou as 14 T.E. em um “rio-esgoto”, o ribeirão Arrudas, que que na época corria abertamente atrás do Parque Municipal (fig. 3). A utilização do parque pelos artistas havia sido autorizada pela companhia de turismo do governo, Hidrominas.

As Trouxas Ensanguentadas criaram, segundo Frederico Morais, curador da mostra, uma grande tensão e logo sofreu intervenção do Corpo de Bombeiros e, a seguir, da Polícia, que apreendeu as T.E. para averiguação e perícia criminal, pois pareciam cadáveres despejados: literalmente escorriam sangue, propiciado pelos pedaços de carne colocados em seu interior.

Os registros dessa parte foram feitos anonimamente, em meio à multidão e, naquele mesmo ano, o vídeo integraria a Information, mostra de arte conceitual em Nova York.
Na terceira parte (fig. 4) ele esticou 60 rolos de papel higiênico pelo rio, posicionados quase como uma correnteza que se sobrepunha às águas poluídas com sua brancura.

Durante a ditadura militar ocorreram inúmeros desaparecimentos de pessoas. Mais chocantes do que os desaparecimentos — pois estes eram engavetados pela burocracia da ditadura e pela grande imprensa conivente — eram os reaparecimentos: algumas das pessoas reapareciam boiando nos rios, com sinais de tortura e marcas de violência. Um dos casos que foi investigado pela Comissão da Verdade gaúcha foi o do Sargento Manoel Raimundo Soares (1936-1966), do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), preso e torturado durante meses no Dops e encontrado com mãos e pés amarrados boiando no Rio Jacuí (fig. 5).

No dia 2 de novembro de 1974, Carlos Drummond de Andrade publicou uma crônica, a “Elegia do Guandu”. Naquele dia de finados não faria uma tradicional reverência aos familiares falecidos, visitados em cemitérios e adornados com flores. Mas aqueles corpos que surgiam boiando no rio Guandu. Dizia o cronista “não há quem os reclame, de medo, ou seja lá pelo que for”.

O Rio Guandu já fora cenário da “Operação Mata-Mendigos”, política higienista do governador Carlos Lacerda e tornou-se também um lugar habitual de desova de cadáveres durante a ditadura militar.

As Trouxas Ensanguentadas aparecem como um verdadeiro paradoxo para os críticos e historiadores da arte: tão figurativas quando podem ser as imagens explícitas do sofrimento e da tortura, quando mostra seus resíduos e teimam em aparecer como matéria brutal; mas tão abstratas quando toda aquela geometria de concretismos que revelava uma questão nova que a arte enfrentava: a recepção do público.

O espectador passa de observador passivo, encarregado de digerir uma mensagem, à posição de participante, encarregado de completar a mensagem, decifrar o que lhe aparece e, neste caso emblemático, revelar o que não podia ser falado, mas era ali mostrado: a situação de milhares de pessoas que sofriam sob uma sangrenta ditadura.

Tão concreta quanto o cheiro e a podridão e tão abstrata como imaginar e decifrar, sem ver, o que continha aquele saco opaco que revelava sua história.

Guardavam ainda a contradição de serem efêmeras, como a própria vida, em seu cotidiano de fragilidade e fugacidade, mas eterna e resistente como a marca que resiste como história atualizada e, enquanto lembrada, de resistência.

O artista trilharia, como marca de seus trabalhos, a efemeridade em diversos casos em que estava intrínseca sua decomposição e apodrecimento para sua realização: como no Livro de Carne (fig. 6, 1978-79) ou na exposição da 29º Bienal de São Paulo (2010, fig. 7), composta de bacalhaus que exauriam-se, conquistando alguns enjoos relatados pelo público, pelo forte cheiro que exalavam.

Artur Barrio, já nos anos 2000, escreveu essa frase diante de sua própria criação: “ISSO NÃO É UMA OBRA DE ARTE”!

Tratava-se de uma retrospectiva de sua obra de quase 40 anos, na reexposição da Situação Trouxas Ensanguentadas. Nessa reexposição na casa França-Brasil, Rio de Janeiro, o autor escreveria: “isso é um protótipo que jamais integrou a Situação Trouxas Ensanguentadas, situações essas das quais só os registros ficaram. P.S: essa trouxa jamais poderá ser restaurada”.

O autor dá àquele objeto uma situação no mínimo curiosa: ao ser uma réplica, que NÃO É O ORIGINAL da Trouxa, que não pode ser restaurada, e, por ser réplica não teria como reivindicar qualquer “aura”, é de fato a obra exposta. Mas principalmente cria um NÃO OBJETO de arte, algo que apenas como simulacro e falsificação de si pode ser exposto e, mesmo assim, que dificilmente alguém levaria para ficar em sua sala de estar como obra de arte.

Perguntado em 2019 sobre o que o incomodaria mais no mundo atual, e que as artes ainda não puderam captar, o artista comentou: “A imutabilidade, a estagnação, a desigualdade social, a crença de que à Terra é plana ou voltará a ser, o pé de goiabeira com uma senhora de uma certa idade e posição ensinando ao descalço como se elevar em seus galhos sem se ferir e o uso da palavra deus para tudo e nada.”(*)

O que permanece não é, evidentemente, a sua obra, feita para apodrecer como a carne que, esfaqueada, ensanguentava o saco ou tornava malcheirosa e insalubre qualquer aproximação tátil...

Mas permanece a perenidade do próprio ser humano em sua paradoxal fragilidade e força que sua própria condição humana lhe concede, em sua ação vital.
Podem não ser, de fato, “obras de arte”...

Mas sem dúvida poderíamos chamá-los de “atos de arte”!

FIGURA 1 – Trouxas Ensaguentadas (1970), Praça das Artes. Detalhe, detalhe de uma trouxa. Do Corpo à Terra, Palácio das Artes e Parque Municipal de Belo Horizonte. https://www.publico.pt/2017/02/12/culturaipsilon/noticia/artur-barrio-incomodame-profundamente-a-objectualidade-da-arte-1761148

FIGURA 2 - T.E, primeira fase (1970). Revirando os pacotes. http://sub.contemporanea.pt/MARCOABRIL2017/10/

FIGURA 3 – T.E. segunda fase (1970). Catorze misteriosas Trouxas Ensanguentadas (1970) surgiram nas margens do rio esgoto, o Ribeirão Arrudas, um rio em Belo Horizonte @COLECÇÃO INSTITUTO INHOTIM. https://www.publico.pt/2017/02/12/culturaipsilon/noticia/artur-barrio-incomodame-profundamente-a-objectualidade-da-arte-1761148

FIGURA 4 – T.E., terceira fase (1970). Espalhando 60 rolos de papel higiênico ao longo do rio. https://www.publico.pt/2017/02/12/culturaipsilon/noticia/artur-barrio-incomodame-profundamente-a-objectualidade-da-arte-1761148

FIGURA 5 – Manuel Raimundo Soares: morto no Dops foi encontrado com os pés e as mãos amarradas, boiando no rio Jacuí (1966). https://www.sul21.com.br/50-anos-do-golpe-civil-militar/2014/04/a-repressao-e-a-resistencia-durante-o-regime-militar/

FIGURA 6 – Livro de Carne (1978-1979). Carne Fatiada. @LOUIS D. HANEUSE. Cairn, depois mostrei na Vitrine pour l’Art Actuel, na rue Quincampoix, perto do Centro Pompidou. https://www.publico.pt/2017/02/12/culturaipsilon/noticia/artur-barrio-incomodame-profundamente-a-objectualidade-da-arte-1761148

FIGURA 7 – 29ª Bienal Internacional de São Paulo. Vista parcial. @Duas Águas/Fundação Bienal. Bacalhau in natura. http://www.bienal.org.br/exposicoes/fotos/4066

(*) ENTREVISTA A ARTHUR BARRIO: “No campo das artes não existem fronteiras”. Panorama Mercantil. Entrevista por Eder Fonseca em 22 de abril de 2019. https://www.panoramamercantil.com.br/no-campo-das-artes-nao-existem-fronteiras-artur-barrio-artista-plastico/

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