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Rasgue a camisa, enxugue o meu pranto

terça-feira 22 de setembro de 2020, por Antonio Herci,

Sabe-se que os objetos não vivem eternamente e que parte da tradição da arte está pautada na preservação — tanto do objeto em si mesmo, o meio (quadro, disco, fita, retrato etc.), quanto na suposta preservação da memória de humanidade que carregam.

Isso pauta também o objetivo dos espaços de preservação, sejam museus, templos, galerias ou mostras que desde a mais remota história guardam e protegem tais obras, com espaços preparados, segurança contra depredação ou furto.
Quem visita espaços de exposições sabe que mesmo tocar tais objetos parece ser uma grande heresia, quando não crime.

No entanto, o século XX — particularmente o movimento em torno das chamadas “vanguardas” e as dezenas de correntes que surgem daí — foi um período profícuo em propostas de rupturas, de insurgências contra as tradições, de elegia do novo e da cobrança de que a arte representasse um movimento de confrontação das tradições.

Marcel Duchamp (1887-1968) parece ser uma referência sempre presente disso, ao ter exposto um mictório em uma exposição de arte e marcar definitivamente a arte dos séculos XX e XXI como uma sucessão de coisas que, tradicionalmente, não seriam chamadas de arte, mas que conquistam cada vez mais seu espaço nas galerias e têm seu ápice em movimentos de “desconstrução”. (ver matéria)
Talvez os agentes e teóricos da “desconstrução” estivessem desatentos, mas toda a estrutura que envolve a circulação, valoração, comércio, preservação, espaços habituais, educacionais e regulatórios da arte não foi de fato alterada ou “desconstruída”, mas, antes, reconstituída de forma renovada como um dos espaços contemporâneos que mais envolvem dinheiro, recursos e que continuam, infelizmente, sendo ainda lugares onde se encontra a segregação do acesso.
Surge sob várias roupagens e que caracteriza um período de “DESTRUTIVISMO” apresentando-se a si mesmo, como “ato de rebeldia”.

Citamos aqui três exemplos icônicos: o destrutivismo como performance que se manifesta nas décadas de 1960-1970, nos trabalhos de Annea Lockwood (1939, fig. 1) e Raphael Ortiz (1934, fig. 3). A primeira ficou muito conhecida por queimar pianos (fig. 1) e utilizava o barulho do fogo para manipulações sonoras, além, evidentemente, do cenário propiciado por tão inusitada metodologia. Ortiz, por outro lado, tornou-se célebre pela destruição de pianos à martelada (fig. 3), também produzindo música a partir do som da destruição e valendo-se, novamente, da cenografia envolvida para chocar seu público.

Note-se que, de forma sintomática, ambos atacam pianos, que desde o século XIX era considerado um objeto imprescindível em famílias cultas e ricas e eram símbolos de ascensão social e de “elevado” nível cultural.

Outro exemplo que podemos citar é do “rock and roll”, como Jimi Hendrix (1942-1970) queimando sua guitarra no festival de Monterrey (fig. 2) e Pete Townshend (1945), do grupo The Who, destruindo os instrumentos e equipamentos depois do seu show (fig. 4), ambos nas décadas de 1960.

Notem a semelhança com os primeiros, no uso do fogo e da violência não contida como sinônimos de contestação e liberação.

O terceiro exemplo vem da já tradicional arte contemporânea, a que se tornou tradicionalmente contestatória. Trata-se de Ai Weiwei (1957), um dos maiores expoentes das artes visuais na contemporaneidade, que esteve no Brasil recentemente e havia se tornado famoso ao quebrar vasos da dinastia Han, de milhares de anos, para “protestar” contra a destruição da cultura de milhares de anos, promovida pelo comunismo em seu país, a China (fig. 6).

Em comum os exemplos acabam, entretanto, tendo diante de si uma questões bem contraditória e incômoda: todos valeram-se de sua própria preservação e memória — através de fotos, imagens e, PRINCIPALMENTE, do que mobilizaram de mídia acadêmica e mídia de massa — para, sob a pretensão do DESTRUTIVISMO, se tornarem perenes o suficiente para entrar para o rol dos livros de história das artes ou nos circuitos de circulação e consumo que almejavam.

Os pianos continuam sendo queimados do mesmo jeito, até hoje, em espetáculos em que a performer se especializou em fazer. O que não deixa de ser contraditório, já que nada mais tem de contestatório e surpreendente, pois agora existem dezenas de regras para suas apresentações, por segurança pública e dos espaços onde se apresenta: tudo muito meticulosamente esperado, preparado e repetido.
Assim como os instrumentos quebrados ou queimados eram irremediavelmente substituídos, de acordo com os orçamentos e companhias de seguro.

Até mesmo tornaram-se, adequadamente, atrativos, quando o público, ao procurar seu ingresso, queria ver, ali, diante dele o que se convencionou chamar de “quebra tudo”, um espetáculo também bastante convencional de “transgressão e contestação”, hoje repetido exaustivamente por “covers” ou clones que tentam manter o frescor de tais contestações.

Weiwei, entretanto, revela algo mais interessante: a sua contestação através dos caríssimos e preciosíssimos vasos quebrados, evidentemente não pode circular pelo mundo como performance: ou porque não existam tantos vasos assim para quebrar, ou porque de fato sejam muito caros. Também parece que os cacos da performance original não sejam um atrativo suficiente para atrair visitantes... Então pelo mundo, museus e galerias, circula a foto do que fez (fig. 6), foto esta que se tornou, ela própria, objeto de museu, conservadíssima e protegida de manipulações...

Mas o mais interessante foi a REPERFORMANCE que ocorreu com um de seus vasos. Weiwei, optou por comprar vasos — os mesmos antiquíssimos e valiosíssimos citados acima — e repintá-los com comoventes símbolos do capitalismo, agora para protestar contra o consumismo, seja pelos motivos alegados quanto ao preço e interesse em cacos, ou talvez porque goste de pigmentar como frescor de originalidade algo de milhares de anos, como uma espécie de perfume de novidade.

Foi numa dessas mostras que um inusitado artista plástico — Máximo Caminer — entrou na exposição e... quebrou um dos vasos, estilhaçando pelo chão o valioso objeto estimado em um milhão de dólares, sendo processado e preso, cumprindo trabalho social como pena... mas inegavelmente mostrando que a vida se pode ser mais criativa que a própria arte.

Note-se que o DESTRUTIVISMO se tornou, ele mesmo e em um sentido ONTOLÓGICO, autônomo e soltou-se pelo mundo, galopando no racismo, na xenofobia, no preconceito, no totalitarismo, eugenia e fascismo aberto.

Queima florestas inteiras, destrói comunidades e suas casas, passa tratores por sobre plantações, assassina índios na mesma medida em que abre clarões na floresta, tudo numa espécie de arte de vanguarda, de ápice do progresso e abertura para uma “nova era”, como gostam de dizer hoje os fascistas contemporâneos, onde a “liberdade individual” e a “auto satisfação” tornam-se ferramentas de destruição em massa. E assim também destrói a arte, a cultura e precariza a educação.

Extrapolou-se os vasos quebrados, ou instrumentos dilacerados, como atos de “vanguarda” e de “voluntarismo”: hoje quebram-se vidas, dilaceram-se corpos e cada ser humano transexual que sai para trabalhar, amar ou se divertir, torna-se perene nas imagens que se tornarão eternas de uma destruição de seus corpos e uma, agora sim, “desconstrução” da vida.

São corpos mutilados e vidas ameaçadas que hoje compõe as galerias de noticiários, quando não as exposições de “obras chocantes” que se propõe a “denunciar”. Talvez tornando o “destrutivismo” a arte contemporânea cujo obscurantismo é a principal tinta, e o ódio seu principal suporte.

Que importariam corpos quebrados e destruídos diante de tão potente e eterno noticiário do ódio? Que importam vidas pretas para tão brancos fenômenos da publicidade, poder e constrangimento? Que importam vidas de índios para tantos celulares — e tão inteligentes — piscando luzes que nos fascinam pelo design moderno, para a eternidade da Bauhaus e dos designs de produtos?

O que seria de fato protestar contra isso tudo? Teria sobrado algo dos pianos queimados e das imagens de rebeldia, a não ser retratos em roupas de grife e rótulos de produtos, ou cartazes de refrigerantes? Teria sobrado algo disso tudo que não dependesse de museus e toda uma parafernália de segurança, para preservar essas “grandes novidades”?

“O que fazer?”, já se perguntou um dia..
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Alguns artistas seguem dolorosamente questionando, pensando e fazendo arte, cada vez mais convictos de que é uma forma real e efetiva de resistência e resiliência humana.

Repetindo numa espécie de lamento e cantochão, as palavras do poeta Luiz Melodia (1951-2017): “rasgue a camisa, enxugue meu pranto”!

IMAGENS
Fig. 1 - Queima de Pianos por Anne Lockwood, década de 1970. Imagem de coleção particular.

Fig. 2 - Jimmy Hendrix colocando fogo na guitarra. Ilustração no DVD – Módulo 1 – Imagens – I7 Hendrix. Festival Monterrey Pop (1967).

Fig. 3 - Performance de Raphael Ortiz (esquerda) e Paul Pierrot em Londres, 1966. LUCENTINI, Vanderlei. Electropera: trajetórias sonoras na performance digital. Tese de Doutorado. PGEHA/USP, 2014.

Fig. 4 - Quebradeira de instrumentos por Pete Townsand em show do The Who (1964), Londres.

Fig. 5 - Quebra dos vasos de Ai Weiwei por Máximo Caminer (1962), artista plástico e visitante no museu de arte de Miami, 2014.

Fig. 6 - “Dropping a Han Dynasty Urn” (1995) por Ai Weiwei. Foto exposta no Royal Academy of Arts, London e outras mostras e museus pelo mundo.

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