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Acessibilidade e translinguagem

terça-feira 29 de setembro de 2020, por Antonio Herci,

ÉCFRASE é a descrição minuciosa de alguma coisa — um objeto, uma pintura, uma escultura ou uma música — que traduz uma linguagem original em outras linguagens que tenham meios diferentes de comunicação e sensibilidade, por exemplo, descrevendo uma xilogravura de Dürer (figura 3) para cegos, ou, em Libras (Língua Brasileira de Sinais), uma sinfonia de Beethoven para surdos. Ou simplesmente descrevendo para alguém o quarto onde vai morar, ou algum sonho ainda na memória.

Além de traduzir faz também uma transposição da mídia (meio) da mensagem. Nesses casos citados, da pintura para o som, do som para a visualidade do gesto, da memória visual ou onírica para a sonoridade da palavra.

Esse jeito de utilização da linguagem humana tem uma longa história. Se recolocamos em uso o termo ÉCFRASE, aparentemente tão distante no vocabulário e no tempo, é porque isso nos dá a vantagem de acompanharmos historicamente esse tipo de uso da linguagem para interpretarmos uma necessidade contemporânea de acesso universal à comunicação.

A ÉCFRASE amplia as formas ou condições do acesso a um objeto ou a uma obra — pintura, escultura, arquitetura etc. — ou algo abstrato do pensamento, como um sonho ou uma ideia.

AAcesso territorial, quando a distância torna inacessível a visualização de algo que pode ser, entretanto, descrito por quem esteve lá e tenta transmitir a sensação de ter estado e ter interpretado o que viu, neste caso, utilizando a fala e o som. Acesso sensível, quando transpõe a exposição de sentido original para outro meio, tentando oferecer meios alternativos de percepção. Acesso digital, quando transpõe para a linguagem binária do computador, formas e algoritmos capazes de portar parte dessa sensibilidade e acesso à informações.

A écfrase, além dessa transposição de linguagens, oferece ainda um mapa da organização espacial da decodificação do que descreve, de forma explícita: de cima para baixo, da esquerda para a direita. Isso redireciona determinadas rotas para localização da sensação original — visão, tato, imaginação etc. — para serem decodificadas em outros órgãos da sensação.

Por fim, a ÉCFRASE, além de ser uma descrição, uma tradução ou translação para outro meio — o que é — acaba se afirmando também como um processo de ARGUMENTAÇÃO: toda descrição parte de uma ideia de mundo que se tem, não é uma tradução neutra, tem relação direta com a sociedade e porta nossos projetos, desejos e ideais.

Talvez um dos exemplos mais remotos que se possa apresentar seja a descrição que Homero (928aC-898aC) faz do “Escudo de Aquiles” (figura 1). Uma longa e detalhada descrição do escudo que fora produzido para Aquiles por Vulcano (Hefesto na mitologia grega), onde a écfrase praticamente esculpe o escudo em nossa imaginação: mesmo que possamos duvidar ou questionar se houve mesmo um objeto no mundo que se parecesse com o Escudo de Aquiles, a gravura (figura 1) feita por Angelo Monticelli (1778-1837) é pintada com base nessa descrição.
O recurso também é usado pelo filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), ao descrever minuciosamente pintura As Meninas, do pintor espanhol Diego Velázquez (1599-1660) em seu livro “A Palavra e as Coisas” (figura 2).

José Saramago (1922-2010) inicia o seu romance “Evangelho segundo Jesus Cristo” com uma minuciosa ÉCFRASE da xilogravura de Albrecht Dürer (1471-1528, figura 3). Na detalhada descrição que faz, logo no início de seu livro, dá tal vivacidade à descrição que antes de parecer uma xilogravura descrita, parece mais um drama desenrolando-se ali mesmo, à nossa frente. Ao descrever esse objeto, já lhe dá a carga de sua utilização no sentido e ideia de mundo com que quer construir toda a argumentação do seu romance.

A ideia de reconstituir a écfrase como uma forma de acessibilidade para o entendimento não veio, entretanto, de Homero: chegou nele, mas partiu de uma recente experiência de organização do evento ARTISTA NAS OCUPAÇÕES (figura 4) e a importância na programação de sites e encontros virtuais que visem a acessibilidade de pessoas com alguma deficiência. O evento será mediado pela Artista Orientadora Ellen de Paula e Artista Orientador André Rosa, do Programa Vocacional da cidade de São Paulo, com participações de Bailarinos Reggarte, Cacau & Caju e Vinícius Caetano.

Será realizado em 30 de setembro, quarta-feira, e transmitido pelo Youtube VOCACIONAL 2020 SUL3.

Ocorre que, nas postagens das redes ou blogs, cada imagem deve ser seguida de sua descrição, mas que não seja fria ou protocolar. As descrições devem — assim como o bom design torna importante em um cartaz uma cor ou uma fonte de letra — transportar essas sensações do entendimento, de sentido, estéticas ou de compreensão.

Em épocas de isolamento social, de confinamento à meios virtuais de comunicação e tendo o ser humano uma necessidade de comunicação e troca de sentidos, a ÉCFRASE aparece com recorrente presença na contemporaneidade, como uma capacidade de entendimento humanos que nos transporte de um lado a outro de sua capacidade de linguagem: um sentir com a mente.
A parte final deste artigo para quem chegou até aqui, é uma compilação feita a partir de fragmentos das écfrases citadas acima, como descrição das imagens.

ÉCFRASES – Descrição das imagens da matéria

IMAGEM DO POST – A imagem que está na cabeça da matéria, abaixo do título, e é uma imagem de capa ou de topo que aparece quando a página é exposta. Trata-se de uma montagem em um retângulo horizontal de outras quatro imagens, numeradas de 1 a 4, da esquerda para a direita e de cima para baixo, com números escritos com letra branca sobre um fundo marrom. A numeração é posicionada nos cantos superiores direitos. Apenas a imagem 3 é numerada em sua parte inferior esquerda, para não atrapalhar ou concorrer com a imagem de fundo. Cada uma das partes dessa montagem, figuras de 1 a 4, serão descritas pelos fragmentos de ÉCFRASES dos autores citados.

Figura 1. OEscudo de Aquiles (cerca de 1820) . Pintura de Angelo Monticelli (1778-1837) a partir da écfrase de Homero (928aC-898aC).
Fez primeiro um escudo grande e robusto, todo lavrado, e pôs-lhe à volta um rebordo brilhante, triplo e refulgente, e daí fez um talabarte de prata. Cinco eram as camadas do próprio escudo; e nele cinzelou muitas imagens com perícia excepcional. Nele forjou a terra, o céu e o mar; o sol incansável e a lua cheia; e todas as constelações, grinaldas do céu: as Plêiades, as Híades e a Força de Oríon; e a Ursa, a que chamam Carro, cujo curso revolve sempre no mesmo sítio, fitando Oríon. Dos astros só a Ursa não mergulha nas correntes do Oceano. E fez duas cidades de homens mortais, cidades belas. Numa havia bodas e celebrações: as noivas saídas dos tálamos sob tochas lampejantes eram levadas pela cidade; muitos entoavam o canto nupcial. Mancebos rodopiavam a dançar; e no meio deles flautas e liras emitiam o seu som. As mulheres estavam em pé, cada uma à sua porta, maravilhadas. Mas o povo estava reunido na ágora; pois surgira aí um conflito e dois homens discutiam a indemnização por outro, assassinado. Um deles afirmava ter pago tudo, em declarações ao povo; o outro negava-se a aceitar o que fosse. Ambos ansiavam por ganhar a causa junto do juiz. (HOMERO. O Escudo de Aquiles. A Ilíada, XVIII vv. 478-501)

Figura 2. As meninas (1656), pintura de Diego Velázquez (1599-1660), em écfrase de Foucault (1926-1984).
O pintor está ligeiramente afastado do quadro. Lança um olhar em direção ao modelo; talvez se trate de acrescentar um último toque, mas é possível também que o primeiro traço não tenha ainda sido aplicado. O braço que segura o pincel está dobrado para a esquerda, na direção da palheta; permanece imóvel, por um instante, entre a tela e as cores. Essa mão hábil está pendente do olhar; e o olhar, em troca, repousa sobre o gesto suspenso. Entre a fina ponta do pincel e o gume do olhar, o espetáculo vai liberar seu volume. (FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas São Paulo: Martins Fontes, 2002, capítulo I, página 19.

Figura 3. Crucificação de Cristo, xilogravura de Albrecht Dürer (1471-1528), na écfrase de José Saramago (1922-2010)

O sol mostra-se num dos cantos superiores do rectângulo, o que se encontra à esquerda de quem olha, representando, o astro-rei, uma cabeça de homem donde jorram raios de aguda luz e sinuosas labaredas, tal uma rosa-dos-ventos indecisa sobre a direcção dos lugares para onde quer apontar, e essa cabeça tem um rosto que chora, crispado de uma dor que não remite, lançando pela boca aberta um grito que não poderemos ouvir, pois nenhuma destas coisas é real, o que temos diante de nós é papel e tinta, mais nada. Por baixo do sol vemos um homem nu atado a um tronco de árvore, cingidos os rins por um pano que lhe cobre as partes a que chamamos pudendas ou vergonhosas, e os pés tem-nos assentes no que resta de um ramo lateral cortado, porém, por maior firmeza, para que não resvalem desse suporte natural, dois pregos os mantêm, cravados fundo. Pela expressão da cara, que é de inspirado sofrimento, e pela direcção do olhar, erguido para o alto, deve de ser o Bom Ladrão. (SARAMAGO, José. O Evangelho segundo Jesus Cristo. Companhia de bolso, 2005, abertura do livro)

Figura 4.Artista nas Ocupações. Cartaz do evento. Descrição feita pelas e pelos organizadores.

O cartaz é de fundo amarelo e no topo da imagem, em fonte preta está o título: ARTISTAS NAS OCUPAÇÕES. Logo abaixo, em fonte branca está o subtítulo roda de conversa e intervenções artísticas. Na linha de baixo as fotos das convidadas para as mesas de conversa e em baixo de cada foto, em fonte branca, estão seus nomes. Da esquerda para a direita Nana Roots, Mona Riokumbi, Glauce Teixeira e Eva Martins. A foto de Nana, uma mulher negra de pele clara, mostra seu rosto de perfil, uma mecha de cabelo atravessa seu o rosto, tem um brinco redondo, usa camisa e fala com um microfone em sua mão. A foto de Mona, uma mulher negra de pele retinta, mostra seu rosto de frente, ela usa um turbante de estampa colorida na cabeça, um brinco amarelo e um vestido amarelo de estampa floral com rosas e folhas verdes. Ela está sorrindo. A foto de Glauce, uma mulher branca, mostra seu rosto de semi-perfil, em diagonal, ela tem os cabelos soltos até os ombros, usa franja. A cor de seus olhos e cabelo são escuros, ela está sorrindo. A foto de Eva, é de uma mulher branca, seu rosto está de frente ligeiramente inclinado, seu cabelo está preso e é escuro. Usa grandes óculos escuros ovalados, um colar e uma camiseta laranja com detalhe rendado.

SERVIÇO
ARTISTA NAS OCUPAÇÕES.

CONVIDADAS PARA A MESA DE CONVERSA DO EVENTO.
Nana Roots, compositora, vocalista, selecta, locutora na radio web point do reggae de Salvador, produtora cultural e musical, idealizadora do projeto ReggArte. Mona Rikumbi, ativista das causas raciais, gênero e protagonismo de artistas com deficiência. 1ª mulher negra e cadeirante a atuar no teatro municipal de São Paulo. Glauce Teixeira, atriz e conselheira no conselho municipal das pessoas com deficiência. Eva Martins, atriz há 17 anos, integrante dos grupos de teatro Olhos de Dentro e Luz aos Cegos.

Youtube VOCACIONAL SUL 3.

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