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Fetichismo: incluir como excluído

terça-feira 13 de outubro de 2020, por Antonio Herci,

Acusar alguém de fetichista geralmente tem a intenção de prescrever AJUDA ou atribuir PUNIÇÃO: a pessoa imputada fetichista ou precisa adquirir algo que a qualifique — por exemplo, falta-lhe educação, consciência ou entendimento; ou deve se livrar de algo ou algum comportamento que a desqualifica — por exemplo, gostar de pés e não vaginas ou pênis como deveria.

O termo “FETICHE” foi proposto em 1757, na Académie des Inscriptions et Βelles-Lettres, França, por Charles De Brosses (1709-1777), um antropólogo e pensador que assumiu diversos cargos públicos e manteve colaboração com os principais filósofos do período: Diderot (1713-1784), Voltaire (1694-1778), Rousseau (1712-1778) e Hume (1711-1776).

O fetichismo tornou-se um verdadeiro termo fundamento da modernidade: foi adotado pelo discurso iluminista, pelo pensamento alemão, psicanálise, antropologia, política, economia, literatura, teatro, cinema, estética, crítica de arte...

Acabou se tornando uma marca recorrente e significativa nas ciências e nas artes até a contemporaneidade.

Mas até que ponto aponta uma coisa que se quer identificar — o fetichismo — ou aponta para um grupo de humanos — os fetichistas — que se quer censurar, catequizar ou eliminar?

Para Charles de Brosses, a origem da razão humana vem da pura animalidade e selvageria, mas os filósofos, principalmente os platônicos e neoplatônicos, tentam obscurecer isso para vender sua filosofia metafísica de que a razão tem origem divina ou transcendente.

Por isso propõe o termo FETICHISMO como definidor de uma era ou etapa histórica da humanidade que figura como ancestralidade da razão: o fetiche é anterior a qualquer operação da razão ou das religiões, pois é uma relação entre corpos, onde um corpo dá poderes a outro corpo, como uma missanga, amuleto ou objetos relacionando-se diretamente.

O fetichismo mede uma temporalidade evolutiva: existem povos fetichistas no passado e existem povos fetichistas no presente, na África e nas Américas, que tem em comum justamente o fato de serem fetichistas, vale dizer, incluídos como pura selvageria.

Argumento que tornava o colonialismo não apenas defensável, mas extremamente desejável para o progresso humano: tratava-se, antes de tudo, de levar a própria evolução aos lugares mais remotos e que ainda não haviam se desenvolvido.
Desde que pronunciado o termo se referiu a pessoas que:

1. Não tem conhecimento adequado ou científico e guiam-se por pensamento mágico e, ao se deparar com fenômenos naturais, dão a eles interpretações sobrenaturais;

2. Portanto não podem ser agentes ou sujeitos e devem obedecer a ordens e serem educados, regulados ou presos: de fato até no direito ao próprio corpo não é reconhecido seu direito e decisão;

3. São, entretanto altamente funcionais e o seu trabalho, fruto de inconsciência, desumanidade e brutalidade, pode produzir muita riqueza, que pode ser valorizada, trocada ou acumulada, inclusive na coação ou contratação de mais trabalho.

O termo FETICHISMO de Brosses justificava que parte da humanidade era humana, mas humana incluída como excluída ou sequestrada de certos valores, como por exemplo, o mais básico de todos, o direito aos seus corpos e sua integridade.

INCLUIR COMO EXCLUÍDO: os fetichistas eram sim incluídos no processo civilizatório do colonialismo, mas como excluídos, por pressuposto, de suas razões ou de sua gerência, embora mantidos como força de trabalho altamente especializada, a humana, tornada objeto pela perversão da relação imposta.

Normalmente quem acusa alguém de fetichista também desqualifica sua visão de mundo e a possibilidade de uma ação consciente: segundo Charles de Brosses, ao deparar-se com poderes (sobre)naturais, o fetichista não sabe o que vê. Para Marx; ao produzir a mercadoria pela alienação da força de trabalho, não sabe o que faz.

Coroando o raciocínio, Theodor Adorno recupera o termo para a estética no século XX, ao afirmar que o consumidor, fetichizado, da indústria cultural da música não sabe o que ouve [ver LIVROS abaixo].

Des Brosses não se conformava com a indolência do estado do fetichista, que nada sabe e nada quer saber; Marx, da mesma forma, para além de criticar o enfeitiçamento da mercadoria, critica ainda mais o fato de as pessoas consentirem nele, se aferrarem a ele.

Na mesma tradição, a crítica musical que Adorno mostra indignação com o fato de que a vida continue, sem que as pessoas se deem conta de que estão sendo enganadas, hipnotizadas, conformadas e com a audição sendo sitiada e regredida. Que possam reunir-se, em seus rituais, sem sofrimento algum, ou culpa.

Adorno, nesse seu ensaio famoso, dá um passo a mais na acusação de fetichista, que é de ver nesse processo algo que possa dar um sentido negativo ao processo evolutivo da humanidade, produzindo uma “regressão da audição”.

Essa posição, por muito tempo, foi considerada uma resistência da “verdadeira arte” frente à cultura de massa, decadente e pura mercadoria. Mas na prática serviu também — e muito — para fortalecer o preconceito de uma arte que tem uma visão euro-centrada e que exclui ou discrimina como valores os batuques, os ritmos e mantras, canções ou cancioneiros, cantochões, músicas do trabalho ou cerimoniais.

Sob epíteto de selvagem, infantil ou sem sentido, os estilos são relacionados à degeneração e regressão de costumes ou valores estéticos. A música é acusada de ser muito selvagem, sensual, corporal, pobre harmônica ou melodicamente, repetitiva ou redundante, inadequadas para uma razão musical mais apurada.

Assim o maxixe foi violentamente reprimido no século XIX e o funk é violentamente reprimido no século XXI, sob a acusação de não haver ali nada de arte, mas sim de selvageria... Mas o saldo humano é mais trágico: corpos de pessoas pretas mortas pela repressão, jovens mulheres e homens, ontem e hoje.

O termo FETICHISTA nasceu do choque entre colonizadores e colonizados e tornou-se um operador necessário à afirmação e justificação da ciência e da estética modernas diante da perversidade das relações de escravidão e dominação: a delimitação do campo da exclusão da razão.

Sua função é a criminalização da expressão de certas práticas culturais, sociais ou artísticas e fortalecimento ou exclusividade da expressão do sujeito da colonização sob a contrição do colonizado.

Na presença da acusação de fetichismo na estética, é importante, valioso e proveitoso olhar para o discurso que acusa — onde, como e porque ocorre? — para ver o que tenta apagar ou suprimir, histórica ou artisticamente.

AS OBRAS
Figura 1 - FETICHE (1959). De CÂNDIDO PORTINARI (1903-1962), obra encomendada por Cacilda Becker (1921-1969) para marcar o primeiro convite feito à Companhia de Teatro Brasileiro para excursionar na Europa. Óleo sobre tela, 26,5X17,5cm. O quadro teve uma cinematográfica história de furto e continua desaparecido até hoje.

Figura 2 - LES FETICHES (1938). De LOUIS MAILOU JONES (1905-1998). Óleo sobre Linho. Combinação de técnicas africanas e ocidentais, feita com superposição de máscaras de danças rituais de diferentes tribos.

Figura 3 - ALTAR COM ENTIDADES. “Exu e Exua brasileiros com um Echú Allé cubano e um Legba da República do Benim, em 2011 (Durham, NC, Estados Unidos). Arquivo do autor”. In: MATORY, J. Lorand. MARX, FREUD, E OS DEUSES QUE OS NEGROS FAZEM: A TEORIA SOCIAL EUROPEIA E O FETICHE DA VIDA REAL. Rev. bras. Ci. Soc. [online]. 2018, vol.33, n.97

LIVROS
BROSSES, Charles de. Du Culte des Dieux Fétiches ou parallèle de l’ancienne Religion de l’Egypte avec la religion actuelle de Nigritie 1760. (Ouvrage publié avec le concours du Centre National des Lettres du Ministère de la Recherche et du Ministère de la Culture. Corpus des Oeuvres de Philosophie en Langue Française). Paris: Fayard, 1988, página 134.

MARX, Karl (1818-1883). O capital: Crítica da Economia Política. Tradução: Reginaldo Sant’Anna. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006, Livro I, sec I, cap I, § 4.

ADORNO, Theodor W (1903-1969). O fetichismo na música e a regressão da audição. Tradução: Luiz João Baraúna. São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores), 1980, página 100.

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