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André Pescador da Memória

terça-feira 10 de novembro de 2020, por Adroaldo Quintela (Adrô de Xangô) ,

Meu amigo pesca eternamente nas minhas memórias de um Morro que pertence ao passado bucólico e aprazível, habitado somente pelos nativos.

Ontem, conversando com Iansã sobre rádios de pilha, lembrei-me do amigo André Pescador que o vento levou.

Dezembro de 1980. Fui ao Morro de São Paulo tentar alugar uma casa de veraneio, para a segunda quinzena de janeiro. Hospedei-me em um dos quartinhos de Vavá, vereador de Cayru, representando a Ilha de Tinharé.

Situava-se na base do Morro da Mangaba, perto da Fonte do Imperador. Naquela fonte ainda tinha água corrente potável. Também havia uma bica de água na segunda praia, onde os acampados tomavam banho de água doce.

Na sexta à tardinha saí andando no rumo da quarta praia, ouvindo música no meu indefectível rádio de pilha. Quando voltei havia um moço pescando polvo e lagosta nos corais da segunda praia. Sentei-me na areia e fiquei olhando a faina, até a pescaria terminar.

O pescador me cumprimentou e perguntou as horas. Respondi e puxei conversa. Sou fácil de diálogo. Saímos andando. Ele me disse que morava na Gamboa. A conversa fluiu para o futebol. Ambos torcedores fanáticos do Bahia. André perguntou se eu não gostaria de comer um ensopado de lagosta. Em troca, eu pagaria a cerveja.

Não vacilei e fui até o quarto pegar dinheiro. Seguimos pela praia até à Gamboa aproveitando a janela da maré baixa. Na Gamboa comprei 6 cervejas e fomos para a casa de André. Na verdade o meu amigo era cabo da PM, em Valença. Nos dias de folga pescava para não perder a prática e comer o fruto do trabalho. Zezinha, esposa de André, também filha da Gamboa, gostava de cozinhar e participar da farra.

Entre uma cerveja e uma pinga o cheiro dos ingredientes invadiam as minhas narinas. Salivava de fome e desejo de experimentar o ensopado de lagosta. Umas 8 horas da noite começou a aparecer gente com violão, pandeiro, thimbau, bebida e comida quente. Juntamos dinheiro e compramos duas caixas de cerveja para acompanhar a cantoria e o samba de roda.

Lá pra meia noite e tantas o povo foi embora. Alguns bem melados, felizes e brincantes. Dormi na rede e sonhei nadando com polvos gigantes. No dia seguinte tomei café da manhã com banana da terra e fruta pão. Depois do banho de mar peguei a lancha Brisa Biônica no rumo do Morro.

Nas férias de janeiro convidei André, Zezinha e filhos para comer a caranguejada da Neusinha, escoltada por pirão de leite de coco e salada de cebola, tomate, coentro e pimenta malagueta. Não faltou cerveja com véu e grinalda. Ficamos amigos. Sempre que ia ao Morro, assinava o ponto na Gamboa. Convidava André e família para retribuir a visita na casa alugada.

Em 1984 fui estudar no Cedeplar/UFMG em Belo Horizonte. Migrei para Brasília, em dezembro de 1985. Somente em 1997 retornei ao Morro de São Paulo. Fomos passar um dia na Gamboa. Procurei André Pescador. Morreu de pneumonia. Zezinha e os três filhos mudaram para Valença.

Na visgueira pedi uma cerveja e uma porção de camarão ao alho e óleo. Enchi um copo para o espírito de André. Chorei mentalmente. Meu amigo não está morto. Pesca eternamente nas minhas memórias de um Morro que pertence ao passado bucólico e aprazível, habitado somente pelos nativos.

Adrô de Xangô

11/2020.

Imagem: montagem ciranda.net

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