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Mestre King: a alma da dança afro

terça-feira 10 de novembro de 2020, por Franklim Peixinho,

Contribuiu para difusão da cultura afro e numa revolução na dança na chamada baianidade nagô dos corpos negros

Em África há uma constelação de expressões culturais, que se traduz em uma unidade que se chama africanidade. Isto é, na multiplicidade étnica, sócio-política, religiosa, artística e cultural há um elemento comum que em qualquer lugar do mundo traduz imediatamente a identidade deste continente, que não é homogêneo, como o pensamento colonizador epistemicida simplifica, ao contrário, é diverso, rico e múltiplo.

O Candomblé e suas nações, por exemplo, tem seus ritos. toque, cânticos, divindades, obrigações sagradas que são distintas, de acordo com cada identidade, mas que permite pontos de acenos e contatos, próprio das coisas que provém de uma fonte e ganham sua singularidade.

Esta explosão semiótica foi bem traduzida na dança pela arte de Raimundo Bispo dos Santos, Mestre King, referência no Brasil e no Mundo no que toca a dança afro.

O professor e coreógrafo Mestre King, natural da cidade baiana de Santa Inês, foi o primeiro homem a ingressar no curso de licenciatura em dança da Universidade Federal da Bahia, na década de 1970. Em sua longa carreira foi responsável pela formação de muitos coreógrafos a partir das referência africanas na danças, extraídas das casas de axé e do jeito de andar de cada preto e preta baiana, pelas ruas e ladeiras, quebra-bundas dos caminhos soteropolitanos e afins.

A dança dos Orixás, seja o brilho da guerra de Ogum ao som do do Aderejá, a caça de Oxosse no Aderé, a tempestade de Oyá no Ilú ou a doçura de Oxum no toque do Ijexá, encontra nos passos mágicos de mestre King, a genial tradução dos diálogos com as formas sagradas que cruzaram ao Atlântico e sobreviveram a tentativa de apagamento. Destaque-se que as pesquisa de Mestre King nos terreiros foi alvo de racismo, sobretudo, em um período em que as coisas de axé eram alvo de intensa perseguição e não era tolerado nos espaços brancos, embora estes se socorressem dos saberes ancestrais dos Babalorixás e Ialorixás da Bahia.

O menino interiorano de nome Raimundo, na roda de capoeira, ganhou outro nome de batismo, ’’King", e assim nesta dança que mescla com a luta, há uma das construções corporais que se expressará na arte do grande professor.

Embora criticado por utilizar danças do Orixás nas suas aulas, mestre King contribuiu para difusão da cultura afro e uma revolução na dança que se encontra não somente nos espaços de culto do Candomblé, mas também na chamada baianidade nagô dos corpos negros. Não há como limitar ou conter a força que a cultura afro-baiana possui, porque o fazer artístico é fortemente influenciado pelo fluxo enérgico que cruza o Atlântico.

Salve mestre King!

Imagem: montagem ciranda.net (Mestre King, Mestre King close)

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