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‘‘Sente o drama, o preço, a cobrança’’ Mano Brown

quinta-feira 12 de novembro de 2020, por Franklim Peixinho,

Um poeta de uma realidade que a elite ignora e pretende eliminar. Uma referência da arte preta no Brasil.

Entre o sucesso e a lama se vive o drama de ser uma pessoa preta em cada quebrada de uma periferia brasileira. Uma constante roleta russa entre tiros, abordagens policiais, incriminações ilegais, seduções de um mercado lucrativo, mas de curta trajetória. É o local onde fervilha a esperança em meio às estruturas do racismo que constrói um apartheid latente, não visível, mas existente. Vivendo ‘‘[...]Entre o gatilho e a tempestade, sempre a provar que sou homem e não um covarde[...]’’, trechos de ‘‘Negro Drama’’.

Na favela de Capão Redondo, São Paulo, cresceu Pedro Paulo Soares Pereira, o Mano Brown, artista, rapper preto, periférico, avesso a grande mídia, cujas letras versadas no grupo Racionais Mc’s tem visceral alcance em cada preto e preta periférico, na medida em que dialoga com o dramas e glórias de uma comunidade esquecida pelo estado, sobretudo, quando falamos do direitos sociais básicos, porém, insistentemente atacada pela face do estado punitivo penal.

‘‘Aqui estou, mais um dia sob o olhar sanguinário do vigia’’, é a sentença de ‘‘Diário de um detento’’, quando em verdade toda a periferia em certa medida esta na mira deste grande vigia, o Leviatã. Este estado de vigilância sobre as camadas pretas e periféricas da população é o que tenta manter a estabilidade e a utópica pacificação dos bairros nobres. Os conflitos sociais não desaparecem com mais punição, eles só são alimentados. E quem faz este papel é ‘‘[...] mais um cidadão José, servindo o Estado, um PM bom, passa fome, metido a Charles Bronson [...]’’, ou seja, na maioria, mais um preto que faz o papel de capitão do mato para elite e a classe média que se acha elite.

As letras de Mano Brown são diretas e profundas, pois atacam a hipocrisia de uma política de segurança social, retrata um pluralismo jurídico, isto é, outro conjunto de normas jurídica da própria favela, com mais legitimidade e que dialoga com seus atores legais e ilegais.

O questionável ‘‘dar as costas’’por Mano Brown e o grupo Racionais, à mídia branca é também um ato político a uma instituição que privilegia pessoas brancas nos postos de trabalho e de poder, e se volta às expressões da arte preta quando estas se traduzem em produtos lucrativos. É talvez, penso eu, esta maturidade e percepção que o ‘‘Racionais Mc’s’’ tiveram nas raras aparições na grande mídia.

Um poeta de uma realidade que a elite ignora e pretende eliminar. Uma referência da arte preta no Brasil.

Salve Mano Brown!

Imagem: Montagem Ciranda.net (Mano Brown, imagem Facebook Mano Brown)

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