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Salvador cimentada, árida, quente e excludente.

terça-feira 17 de novembro de 2020, por Adroaldo Quintela (Adrô de Xangô) ,

É fundamental vergar a ideologia dominante para transformar a Salvador elitista e careta num imenso quilombo urbano democrático, nutrido de árvores, diversidade e coesão econômica, social, cultural, religiosa e ambiental.

Não fosse a imensa orla marítima que banha um pedaço da cidade, Salvador seria uma caldeira gerando temperaturas elevadíssimas e insuportáveis.

Tanto a prefeitura quanto o governo do estado apresentam a cidade como canteiros de obras. Não se percebe nas propagandas oficiais, a existência de projetos direcionados para a sustentabilidade, assim como a construção de um ambiente propício para melhor qualidade do ar e temperaturas mais amenas e para convivência social, cultural e humana.

Brasília e Salvador constituem e expressam muitos contrastes e semelhanças. Possuem praticamente o mesmo tamanho de população. Ambas cidade são campeãs em desigualdade econômica, social, pobreza extrema e elevados índices de desemprego, subemprego e desalento da população economicamente ativa. Mais de 80% dos trabalhadores recebem até 3 SM, segundo a PNAD de janeiro de 2020. Este cenário piorou durante a pandemia.

Existe um contraste favorável à Brasília, especialmente no Plano Piloto. A capital do país é uma das cidades mais arborizadas do mundo. O centro expandido de Salvador possui poucas árvores, parques e reservas ambientais. O planejamento urbano da metrópole baiana copia e cola os padrões urbanísticos e culturais de Miami. Exemplo de mau gosto e pobreza cultural das elites dirigentes e classes médias tradicionais.

Rasgam-se avenidas, alamedas e morros para implantar soluções de mobilidade urbana e transporte de massa, derrubando-se árvores centenárias, que são substituídas por viadutos de concreto e vias expressas de asfalto. A construção da estação da Embasa, na Lagoa do Abaeté, será um crime ambiental, afroreligioso e cultural.

A maioria do povo soteropolitano aplaude a orla marítima cimentada e as trilhas de palmeiras que substituem as vegetações típicas de restinga. Não há consciência do estrago provocado pela cobertura do solo, a qual aumenta a temperatura da cidade e deixa espaços urbanos à mercê de inundações e alagamento na temporada das chuvas. Praticamente não há praças e alamedas arborizadas.

Infelizmente os resultados das eleições municipais pobres de debates apontam para uma Salvador cada vez mais cimentada com paisagem árida e estéril, submetida aos interesses do grande capital mercantil e financeiro.

Os caciques da política baiana fecharam as portas para candidaturas negras vinculadas à sociabilidade cultural e à religiosidade da maioria da população. Salvador ainda está longe de se constituir na verdadeira Roma Negra. Por ora, é apenas um belo slogan criado pelo ex-liberal Caetano Veloso, sem enraizamento nos quatro cantos da cidade.

Mas não devemos perder a esperança. A fé não costuma falhar. É fundamental vergar a ideologia dominante para transformar a Salvador elitista e careta num imenso terreiro ou quilombo urbano democrático, nutrido de árvores, diversidade e coesão econômica, social, cultural, religiosa e ambiental.

As instituições da sociedade civil de Salvador, organizações profissionais artísticas, culturais e blocos afro precisam debater o presente e o futuro democrático desta pobre metrópole regional do Nordeste.

Que os arquitetos, jornalistas, economistas, médicos, juristas, engenheiros ambientais e artistas se rebelem e se posicionem!

Adroaldo Quintela
Coordenador Nacional da
Associação Brasileira de Economistas pela Democracia (ABED).

Imagem: montagem ciranda.net ( casa encosta Salvador - Eric Pereira, rua bairro Uruguai, visão Salvador Alto - Instagram Prefeitura Municipal de Salvador)

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