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Carla Akotirene: a flor de Oxum

sábado 21 de novembro de 2020, por Franklim Peixinho,

Uma mulher preta que inspira sua gente!

‘‘Insubmissa’’, ‘‘Ousada’’, ‘‘Padilhane’’, ‘‘Teórica’’, assistente social, mulher preta, feminista, intelectual, filha da mais doce Yabá, mãe Oxum, aquela que vence uma guerra, protege seu povo e dizima um exército sem levantar uma espada. Dona de toda beleza e das perigosas estratégias, que o diga o rei Agbaraiê, no conto ‘‘Água de Rio’’ de Muniz Sodré.

Falo de Carla Adriana da Silva Santos, Carla Akotirene, e/ou também de sua matriz espiritual, a dona de seu Ori. Não enxergo distinção entre mãe e filha.

A construção do pensamento de Carla Akotirene, em ‘‘Interseccionalidade’’ da coleção “Feminismos Plurais”, refuta a tal neutralidade científica, falso dogma da epistemologia branca européia, até por que nenhuma produção do conhecimento é isenta de valores, e estes – quando oriundo da ‘‘braquitude velhomundista’’ -, fruto da violência colonizadora, se impôs como paradigma, desprezando outras formas de conhecimento, sua legitimidade e também a axiologia afrocentrada.

A interseccionalidade constitui uma leitura analítica das camadas de opressão sobre a mulher preta ou “sistema de opressão interligado”. Nas pegadas desta Yabá intelectual, o feminismo negro tem sua singularidade, nas avenidas identitárias pela qual transita – classe, raça e gênero - e não pode ser reduzido as outras leituras feministas brancas, que não tenciona ou abarca a questão racial, tampouco a perspectivas neoliberais.

‘‘Estou certa do neoliberalismo usufruir do conceito de interseccionalidade, em virtude de ele ter sido cunhado no campo do Direito e este campo ser manuseado pelo brancocentrismo, punitivismo e criminalização de pessoas negras [...]O despautério metodológico é tanto que usa até interseccionalidade no campo punitivo particular reportando ao pensamento feminista negro de Angela Davis, uma abolicionista penal’’ (AKOTIRENE, 2019, p. 52).

Em ‘‘Ó pa í, prezada: racismo e sexismo institucionais tomando bonde nas penitenciárias femininas’’, Carla Akotirene ingressa no universo carcerário discutindo a questão do racismo e sexismo no Conjunto Penal Feminino de Salvador, fundada na ‘‘interseccionalidade como ferramenta teórico-metodológica’’, em que traz a tona as condições de submissão e privações institucionais sobre a mulher pobre e preta, na sua maioria, apenada, como também o racismo religioso no tocante ao Candomblé e Umbanda; e a existência da lesofobia na unidade prisional pesquisada.

Carla Akotirene é este furacão intelectual que temos que ler atentamente para seguir a arquitetura plurisemântica de seu pensamento, nas mais pura e genuína expressão de africanidade, isto é, suas ideias são canais que nos leva a outros e diversos caminhos reflexivos, mas que estão vinculados a um iter que cruza o Atlântico, como ponto inicial de toda experiência cultural da humanidade.

Uma mulher preta que inspira sua gente!

Imagem: montagem Ciranda.net (Carla Akotirene, Carla Akotirene na cachoeira))

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