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Do não feito para o fazer

quinta-feira 26 de novembro de 2020, por Antonio Herci,

Os anos 1980 viviam uma turbulência característica de um período híbrido de transição do velho para o novo século que trazia um arsenal de questões para a sociedade brasileira, conjunturais ou estruturais.

O Brasil, como grande parte dos países latino-americanos, vivia uma turbulência de otimismo com a possibilidade da restauração da vida civil, sindical e do fim das restrições sobre as artes.

A Ditadura Militar estava chegando aos estertores, assim como toda uma estrutura política, partidária e sindical que era chamada de “pelega” e era marcada pela burocracia e clientelismo.

Era generalizado o clima de luta por espaço das novas gerações, seja na militância política, seja nas artes.

Também nessa década teria início uma verdadeira avalanche tecnológica, com profundas e irreversíveis mudanças nas formas de vida, através do surgimento do PC (“personal computer” ou computador pessoal), da proliferação das redes de comunicações em uma velocidade impressionante, trocas de dados e sistemas de interação à distância em tempo real e configuração do ciberespaço, um espaço virtual composto de virtualidades e potencialidades mas com consequências efetivas sobre o corpo vital.

Um dos principais produtos da ditadura militar fora a rápida urbanização do país, na promoção de um êxodo rural sem precedentes na história brasileira.

Em 1980 o país já era majoritariamente urbano e o um dos resultados importantes foi o encontro de diversos tipos de manifestações culturais e artísticas. E também a emergência de muito atores sociais e cada vez mais a explosão expressiva das desigualdades, das exclusões e da necessidade de reparações individuais ou coletivas.

Os movimentos sociais e a produção artística apresentam uma tendência de afirmação do sentido de IDENTIDADE e PARTICIPAÇÃO no modo de vida, uma luta em parte ofuscada pela resistência aos sistemas opressores, luta sindical e estrutura de classes nas décadas anteriores, mas que se torna cada vez mais central, trazendo para o primeiro plano da luta social a denúncia e a reparação pelos séculos de opressão e discriminação sobre determinados grupos sociais, como as mulheres e os negros.

Nos anos de resistência à ditadura, a arte militava através do seu engajamento ou expressão de ideias ou projetos de sociedade e pautava-se pela utopia e pelo sonho transformador.

Nas décadas de 1980 e seguintes, as questões seriam referenciadas no tempo presente e o discurso do “não lugar” seria substituído pelo discurso das comunidades que passam a operar em rede, numa disputa por espaços que, mesmo sendo virtuais, têm interferência direta na vida concreta: a UTOPIA é transcendida para a VIRTUALIDADE.

A luta por espaço, nessa arena semântica, é uma luta proporcional à IDENTIDADE e à afirmação de um conjunto de valores que possam constituir-se como discursos sociais afirmativos: uma paramentação simbólica capaz de mobilizar e de convocar indivíduos a significarem coletivamente uma mesma identidade como contemporâneos de si.
Nessa perspectiva, um dos traços marcantes dos anos 1980 foi a explosão do crescimento exponencial da afirmação da autoria feminina na produção artística, na historiografia, nos movimentos de camponeses e ocupações urbanas, movimentos onde a mulher passa a protagonizar diversas frentes, proporcional a uma nova maneira de olhar para a história brasileira e debruçar-se sobre algo cada vez mais claro e ser combatido: o apagamento da autoria feminina.

A IDENTIDADE E O CORPO COMO CENTRALIDADE

A reflexão sobre o corpo, particularmente sobre o corpo da mulher, torna-se uma reflexão universal sobre o lugar próprio do CONTEMPORÂNEO como uma disputa ou um contraponto territorial, um direito de estar e expressar-se.
O trabalho da artista vai além da obra, pois o processo de criação e concepção faz dele também responsável pela difusão e pela pedagogia e defesa dos seus valores, isto é, a criação da obra é também sua militância cotidiana e sua expressividade faz parte da opressão cotidiana que a obra denuncia.

Nas artes, se afirma uma prática performativa, que é militante e que convoca, ideologicamente, o interlocutor a engajar-se na mensagem como parte de uma disputa do sentido: contrapontos territoriais materializados através da disputa simbólica e luta de espaço e visibilidade na afirmação das IDENTIDADES. Identidades essas que se pautam como “IDENTIDADES COLETIVAS” ou de grupos de militância de vida e que extrapolam o sentido identitário egóico.

Por outro lado, a performance, por sempre ter tido o corpo como centralidade expressiva e sempre ter optado pela radicalidade e ação presente, tornou-se um catalisador de todo um movimento artístico do século XX que, independente da filiação a que pertenciam, unificou na PERFORMANCE ART uma ideia de arte de vanguarda ou arte contemporânea, assimilando traços que vão de Duchamp ao minimalismo, passando pelo cubismo, arte conceitual, dadaísmo, construtivismo e diversos outros movimentos ou tendências.

Se o discurso das vanguardas do século XX era de ruptura, configura-se agora uma recuperação de fragmentos, imagens ou valores ofuscados, mas intrinsecamente sob uma perspectiva de continuidade histórica: uma história humana recuperada dos cacos do apagamento, opressão e sofrimento.

Na afirmação do aparato dos corpos, como um componente importante da performance contemporânea, a centralidade do corpo da mulher aponta uma militância que veio como enfrentamento da ordem da cultura dominante, onde sempre figurou como símbolo, seja de produtividade doméstica, seja de fetichismo perigoso de sexualidade.

X: DO NÃO FEITO PARA O FAZER

Em 1985 Márcia Pinheiro (1959-2005) apresentou a performance CELLOFANE MOTEL SUÍTE, na Feira Internacional do Livro do Rio de Janeiro. Vestia o que chamada de “Não-roupas”, uma capa composta com sacos plásticos pretos, por cima de uma camada de roupa de plástico transparente.

A artista lia um poema de sua autoria e seu parceiro, Alex Hamburger (1949), vestido de homem-sanduíche, fatiava a veste de cima revelando a transparência da veste de baixo e a nudez da artista. Isso chocou o público e o casal foi retirado pela polícia, escoltado por armas apontadas para eles.

Uma estilista também chamada Márcia Pinheiro criticou a performance e a performer, argumentando que a artista deveria cuidar mais em propor figurinos do que em rasgá-los: "Enquanto eu visto as pessoas, esta outra [notem o tom de desprezo] tira a roupa", escreveu em sua coluna a socialite.

Em resposta e reação à crítica, a artista e performer adotou o nome artístico com se consagraria: MÁRCIA X.

Sua obra sempre explorou as bordas do sistema de moralidade, os limites da perversão e pautava-se pela denúncia da infantilização do sexo e sexualização da infância. E pela hipocrisia do moralismo, particularmente do moralismo religioso.
Em 1990 utilizou artigos de sex shop para representar objetos litúrgicos e da iconografia Religiosa da Igreja Católica, em FÁBRICA FALLUS.
Sua séria KAMINHAS SUTRINHAS (Figura 1, 1995), apresentava 28 camas com bonecas e bonecos de plástico, sem cabeça e conectados por fios de ação e quando acionados simulavam relações sexuais.

Márcia X morreu em 2005, em decorrência de câncer, mas, mesmo depois de sua morte acabou sendo censurada. No ano de 2006 o prefeito do Rio de Janeiro determinou a retirada de seu trabalho DESENHANDO COM TERÇOS (2001, figuras 2 e 3), da mostra “Erótica – Os sentidos na arte” que estava sediada no Centro Cultural Banco do Brasil.

As mudanças tecnológicas e os computadores da década de 1980 prometiam expandir o acesso e produção do conhecimento, rompendo fronteiras e expressando uma universalidade capaz de conviver com a expressão da diversidade...

Se possibilitaram tais coisas, trouxeram, também, aumento de lucratividade, do controle sobre a vida individual e coletiva e um universo virtual onde nos deparamos com uma peculiar situação de desproporção entre a deslumbrante tecnologia da virtualidade e o sombrio mundo onde não se consegue sequer garantir de forma não discriminada valores básicos, como direito à vida.

Todas as experimentações, ousadias, desbundes e transgressões da década de 1980 parecem, de forma estranha e paradoxal, terem sido engolidas por um mundo que não se esperava tão careta, moralista e tão perverso quanto este, que se debate por preservar sua arte de ser humano.

O “X”, de Márcia, representou o seu elemento de indeterminação e indicativo de movimentação contínua “do não feito para o fazer”.
Um legado para uma contemporaneidade onde cada vez mais, e mais do que nunca, fazer arte se faz de uma trincheira!

OBRAS DE MÁRCIA X

Figura 1 – KAMINHAS SUTRINHAS, 1995. Bonecas e bonecos de plástico, fios de aço, objetos de casinha de bonecas e maquetes.

Figuras 2 e 3 – DESENHANDO COM TERÇOS, 2001. Terços católicos.
Disponíveis em: https://riohilo.wordpress.com/2013/03/13/marcia-x-e-adriana-varejao-em-arquivo-x-e-historia-as-margens-o-que-ainda-ha-e-o-que-ja-passou-no-mam-rio/

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