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Apague meu spotlight, acendam os spotlights

terça-feira 1º de dezembro de 2020, por Antonio Herci,

Hoje, dia 01 de dezembro de 2020, 20h, JOCY DE OLIVEIRA (1936), pioneira em música e composição eletroacústica, participa como convidada e palestrante das NOVAS FREQUÊNCIAS ANO X (Figura 5).

APAGUE MEU SPOTLIGHT

Há quase sessenta anos, durante a 1ª SEMANA DE MÚSICA DE VANGUARDA (figura 1, 1961), Jocy apresentou o seu drama-eletrônico “APAGUE MEU SPOTLIGHT”, composto em parceria e por correspondência com Luciano Berio (1925-2003), que veio para a estreia brasileira, e apresentou-se ao lado de outras grandes personalidades da música de vanguarda da época: H. J. Koellreutter (1915-2005), David Tudor (1926-1996), Henri Pousseur (1929-2009).

Também participaram as atrizes e os atores Fernanda Montenegro (1929), Sérgio Britto (1923-2011), Ítalo Rossi (1931-2011) e Gianni Ratto (1916-2005).
O evento foi pioneiro em música eletroacústica.

Mas surpreendeu também por inovar o gênero musical com recursos muito polêmicos: a improvisação entre os músicos; a fusão das linguagens; o trabalho colaborativo de cenografia; a concepção de espetáculo como campo expandido da composição musical; as relações entre linguagem, fala, música e sonoridade gutural.

Também a própria Ópera, gênero musical que a compositora explorou bastante, é renovada em sua estética, que abandona uma filiação à tradição e recoloca como “ópera” a fusão da voz, do elemento cênico e da ação como ferramentas a serviço da contemporaneidade e experimentação, explorando os limites da linguagem tradicional.
No roteiro, por exemplo, trabalha com histórias fragmentadas, que aproximam o drama das MONTAGENS ELETROACÚSTICAS que concebem a composição como um processo também de montagem propriamente dita de fragmentos sonoros, ruídos, ícones e símbolos.

Essa estética eletroacústica mistura elementos convencionais na produção do som, como as vozes e os instrumentos, mas os remonta com elementos ampliados: formas diferentes de cantar e de tocar; utilização de elementos pré-gravados; sintetizadores, equalizadores e filtros de efeitos, operados em tempo real.

É um tipo de música que teve, além dessa primeira geração, um forte impacto e desenvolvimento no panorama musical brasileiro, e que abriga parte considerável e importante da música brasileira de vanguarda — Conrado Silva (1940-2014), Jorge Antunes (1942) e uma vasta e criativa geração, além de vasto material científico e de pesquisa nas universidades.

Segundo suas próprias palavras, a compositora, desde suas primeiras obras, sempre apresentou uma denúncia da mulher discriminada, mas sua afirmação transgressora e heroica, através de mitos de sociedades matriarcais ou de contos tradicionais, como a PROSTITUTA SAGRADA, a DIVA como personagem fadada à morte, o mito da MEDÉIA.

Em FATA MORGANA (figura 2, 1987) duas mulheres trocam sons, em direção a uma percepção libertadora do universo feminino. Em ILLUD TEMPUS (figura 3, 1994) novamente contracenam duas mulheres: uma atriz às voltas com as palavras e uma cantora que, sem métrica ou linearidade, incorpora o inconsciente.

A compositora chega na contemporaneidade com LIQUID VOICES — A HISTÓRIA DE MATHILDA SEGALESCU (figura 4, 2017) abordando um dos temas mais importantes da atualidade política: o refúgio e a imigração, recuperando histórias reais de sobreviventes e fazendo um paralelo “com refugiados sendo deixados à deriva, homens, mulheres e crianças morrendo em mar aberto”.

Acessem, pelo link nos rodapés, a matéria QUEM TEM MEDO DE JOCY DE OLIVEIRA?

Tem uma interpretação detalhada, de João Luiz Sampaio, de cada uma das obras e links de material de acervo on-line.

ACENDAM OS SPOTLIGHTS

Ela própria, Jocy de Oliveira, pioneira em música eletroacústica, é por vezes apagada da “história oficial” da música de vanguarda, essa mesma que ajudou a fundamentar e tornar potente... mas onde parece, para essa historiografia discriminatória, haver apenas homens criando e mulheres servindo de inspiração, intérprete ou no mais usual papel de... objeto!

O NOVAS FREQUÊNCIAS ANO X (figura 5, 2020) oferece um excelente contraexemplo disso e uma rara oportunidade de encontro da tradição de uma grande compositora, Jocy de Oliveira, com a tradição de uma linguagem muito criativa e produtiva, que é a música eletroacústica que acabou transbordando para vídeo e cinema.

Mas não um encontro de tradições falando do passado: um encontro com olho no novo e no inusitado, mas com raízes e perspectiva histórica, a partir de algumas de suas protagonistas. A compositora fala e apresenta fragmentos de duas óperas multimídia: LA LOBA e NAKED DIVA.

Jocy de Oliveira, não pode, entretanto, deixar de apresentar uma ponta melancólica, diante de uma realidade tão difícil de mudar, no tempo e no espaço.
““Não vejo uma mudança relevante no nosso cenário, haja visto que hoje ainda estamos discutindo o papel da mulher compositora e a história da música continua a ser escrita pelo homem. Apenas 2% de mulheres compositoras figuram na programação mundial de música erudita””, declara a compositora em entrevista à Folha de São Paulo, Ilustrada, em 30 de novembro de 2020.

Declaração atualíssima na década de 1960 e atualíssima no século XXI.

SERVIÇO: OBRAS E LINKS

Figura 1 - 1ª SEMANA DE MÚSICA DE VANGUARDA

Figura 2 – Fata Morgana (1987);

Figura 3 -Illud Tempus (1994);

Figura 4 - Liquid Voices — A História de Mathilda Segalescu (2017).
Disponíveis em QUEM TEM MEDO DE JOCY DE OLIVEIRA? Vídeos e material de acervo on-line e excelente matéria histórica de JOÃO LUIZ SAMPAIO.

Figura 5 – Cartaz de NOVAS FREQUÊNCIAS ANO X

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