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Dou-lhe três...

segunda-feira 21 de dezembro de 2020, por José Augusto de Castro Tosato,

(a trilha sonora é o álbum completo dos Doces Bárbaros)

Nenhum sinal do fim de ano como o conhecemos e sentimos. Nada. Expectativa ausente. Algo como um pássaro proibido de sonhar.

Desculpe, adoraria um texto bem-humorado em que fosse possível deixar a luz brilhar e ser muito tranquilo.

Ronda o espectro do fascismo personificado no “você-sabe-quem”. Cresce em mim a melhor tradução para nojo, para não dizer algo muito pior. Ele representa o oposto de tudo que prezo. Peço desculpas à Ciranda por esta breve catarse. É como se, vomitando em público, diminuísse o mal-estar. Parece não haver sinal de que a ressaca vá passar. As pesquisas de opinião recentes sinalizam isso.Provisoriamente, espero. O que explica esse resultado? Não sei dizer, assim, de um modo explícito, mas posso arriscar leigamente.

À parte da podridão das elites satisfeitas com o andar da carruagem:

1. Nos fechamos em bolhas; nossas opiniões, nossa indignação, nossa dor, simples ou complexamente, não chegam àqueles que estão se sentindo razoavelmente bem ou que se acomodaram, sem qualquer esperança, como se falássemos uma língua morta?

2. Os aflitos estão cansados, imobilizados pela angústia, com dificuldade de compreender a fundo os novos tempos estranhos? Novas gerações ainda parecem pouco dispostas a nos substituir com ânimo e a criatividade que estamos perdendo?

3. A sociedade brasileira, em especial o sistema educacional, não conseguiu forjar cidadãos capazes de reconhecer genocidas ou capazes de se indignar com a alta dos preços dos alimentos? Capazes de perceber o desprezo do monstro pelo povo, suas manipulações midiáticas, sua ojeriza ao meio ambiente, sua vontade de matar e destruir o País, humilhar o Brasil no exterior? Ocorre que nossa tradição humanista não nos permite culpar as vítimas de nossos (lá ele) erros históricos e até dos acertos insuficientes para mudar a correlação de força.

4. Grande parcela do neopentecostalismo, as milícias e os fascistas que estavam no armário estão sendo capazes de animar “nossos” piores lobos do egoísmo, do desprezo pelo próximo, da indiferença, da desumanidade?

5. As fakenews, para as quais não encontramos a vacina ideal, são decisivas no atual panorama?

Sim, a Covid é o segundo elemento de desânimo. Entretanto, a vacina para coronavírus está mais próxima do que o outro mal.

Mas é preciso respirar fundo, soltar o ar lentamente para recuperar alguma energia nestes dias sombrios e, sem perceber a chegada da paz, sentir que nós estamos alojados dentro dela. Mistério sempre há de pintar por aí... Espero. Vamos manter pé quente, cabeça fria, avançar através dos grossos portões, inventar novos ânimos para o momento em que poderemos sair despreocupados e fazer tudo que queremos e nunca fizemos.

“E aquilo que nesse momento revelará aos povos
Surpreenderá a todos não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio”

Obs.: créditos para Gal, Bethânia, Gil e Caetano – os Doces Bárbaros, dos quais tomei emprestado vários versos do álbum. (para descobrir quais, tem que ouvir atentamente)

José Augusto de Castro Tosato
21/12/2020

Album musical Doces Barbaros

imagem: montagem ciranda.net

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