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Educação Pública Brasileira: finalizando o Campeonato 2020!

terça-feira 22 de dezembro de 2020, por Paula Arcoverde Cavalcanti ,

Resenha do jogo da política educacional brasileira em 2020

Tratar de política usando a dialética dos jogos coletivos foi algo muito legal! Acredito que a Ciranda.net tem um papel fundamental em promover as diversas linguagens e temas.

Nesta última Coluna de 2020 farei uma ‘resenha’ do ‘jogo da Política Educacional Brasileira’ explorando os temas abordados nos textos anteriormente. Afinal, todo Campeonato tem um fim! Os técnicos, jogadores, comissão etc., poderão sofrer uma ‘baixa’! No próximo ano os times poderão estar diferentes e começarão um novo Campeonato!

Neste ano tivemos um Campeonato muito intenso agravado pela Pandemia do COVID 19! O ato de pensar e agir para desarticular os times adversários da Educação Pública Brasileira foi um treinamento cansativo com partidas intrincadas que não nos deixaram descansar! Ataques e mais ataques foram desferidos até o último minuto!
Muitas perdas! Alguns ganhos! Muitas emoções!

Durante um campeonato, a comissão técnica, os jogadores, os ‘patrocinadores’ e as ‘torcidas organizadas’ ficam ansiosos em cada partida! E a próxima partida sempre é a possibilidade de mudar a posição do time no score do campeonato para que possa sair vitorioso no final!

No jogo da política não é diferente! Cada reunião, comissão, discussão, plenária, votação etc., representa a possibilidade de melhorar a Educação Pública Brasileira. Mas, neste ano, o ‘jogo’ democrático, trouxe um desafio ainda maior, pois tivemos que suportar: ‘guru ideológico’ sem ideologia; ‘torcida organizada’ da intolerância, da ditadura etc.; Ministra que vota contra os seus direitos; negro que diz não ter racismo no Brasil; obscurantistas; etc., etc., etc...

Enfim, em meio a uma Pandemia vivemos um verdadeiro pandemônio!

O técnico – o “inominável” – com seu comportamento e linguajar característicos revelou que possui patrocinadores e torcidas organizadas suficientes para implementar o projeto do governo de reduzir o Estado e liberar geral, mesmo que isso custe vidas, preço dos alimentos etc. As estratégias e táticas utilizadas muitas vezes foram consideradas sem sentido, despropositais etc. Mas, como analista de políticas, reconheço o quão coerentes sempre foram! Nenhuma jogada foi feita por acaso e, muito menos, sem objetivo ou fora da linha do ‘campo’ ou da ‘quadra’! Com um ‘pacto de mediocridade’ nunca observado, todos os lances, faltas, interrupções, pedidos de tempo etc., foram articulados com forças conservadoras e “detratoras”.

Jogadores do Ministério da Educação (MEC) foram substituídos! Um nem chegou a jogar porque os seus não atributos foram revelados! Finalmente, o último jogador indicado – Ministro da Educação –, encarou o desafio e, até o presente momento continua no time, mesmo que não explicite quais ataques serão desferidos contra a Educação Pública Brasileira! Acho que ele não é um “jogador estrela”! Sabe quele que sempre chama atenção; que está sempre na mídia; que se envolve em escândalos; que nem joga bem, mas tem sempre apoio etc.? Pois é, Ele Não! Porém, é tão perigoso quanto!

O Ministro da Educação tem a mesma base ideológica do governo e isso parece ser suficiente por enquanto! No meio do ano, no minuto final da partida, juntamente com “inominável” tentou propor mudanças no texto sobre Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e Valorização do Magistério (FUNDEB) que iria para a Plenária! Arriscou uma ‘falta grave’ no principal jogador da Educação Pública, para deixá-lo incapacitado! O famoso “jogo sujo”! Mas, nessa partida, ganhamos com folga no placar!

No meio da Pandemia, os ‘patrocinadores’ e as ‘torcidas organizadas’, tentaram de qualquer maneira pressionar o Ministro para que os estudantes retornassem às aulas presenciais! Teve protocolo de segurança (biossegurança) e tudo mais! Mas, isso foi meio que dissolvido em partidas simultâneas e com jogadas que possibilitasse causar uma falta mais grave no time da Educação Pública Brasileira! Foi autorizado o que chamamos de “ensino remoto” ou “ensino on-line” deixando a responsabilidade para os técnicos regionais e locais decidirem sobre seus próprios sistemas de ensino.

Uma das partidas mais interessantes foi a que revelou a importância da leitura para os nossos adversários! Ler ou não ler, se tornou uma questão tão vital, que até a ideia de taxar livros e propor um possível “programa social para doação de livro” “para os mais pobres”, revelou ainda mais o mundo pervertido da ‘Flor de Lis’ e da ‘Goiabeira’. O poder em imprimir um discurso ‘técnico e de neutralidade’ e estabelecer um tipo de ‘leitura e conteúdo’ através dos livros didáticos mostrou o projeto ambicioso do “inominável” e, as possíveis táticas para tornarem os estudantes das Instituições Públicas em ‘negacionistas’ e ‘terraplanistas’.

No final de agosto, mesmo cansado, o time da Educação Pública continuou a partida do FUNDEB! Nela todos se movimentaram, inclusive jogadores que defendiam com fervor outros times! A ‘Constitucionalização do FUNDEB’ foi uma partida árdua, mas no final vencemos! A Regulamentação dos recursos, ficou para uma outra partida! Era essa que possivelmente mostraria de maneira mais clara as intenções dos times que defendem a “necropolítica”.

Lembremos que todo time possui uma ‘rixa’ ou um ‘inimigo mortal’! Como em um campeonato, as partidas aconteceram quase que ininterruptamente e, os inimigos da Educação Pública voltaram a atacar o funcionalismo público. Essa partida ainda demorará mais um pouco para o final. Entretanto, durante o aquecimento foi possível perceber que alguns ‘jogadores concursados’ foram classificados de vilões e outros não, pois as regras não se aplicam a todos... As forças armadas, o legislativo e o judiciário – “jogadores estrelas” – foram preservados pois representam o ‘time’ da ‘moralidade’ e dos ‘bons costumes’ sob o ‘manto’ do discurso da ‘técnica e neutralidade’ com o ‘mantra’ da ‘eficiência’ da base do time ‘empresa privada’. No mundo dos jogos coletivos alguns jogadores são ‘insubstituíveis’ e outros podem ser trocados porque não agradaram ao técnico! No mundo da administração pública, os concursados públicos são os jogadores indispensáveis para que a continuidade administrativa seja garantida evitando a perda da memória técnica e cultural dos órgãos! A estabilidade funcional, assim como uma vacina, imuniza os jogadores da perseguição política e demissões injustas e minimiza o nepotismo, clientelismo... Ismos ... Ismos...

Sem intervalo e sem descanso, a ‘deszumbificação’ dos estudantes tornou-se o ápice das táticas do jogador principal. Após meses sem mostrar seus atributos, ele relacionou o “atentado contra a própria vida” com o “falta de religião (Deus etc.)” e o “processo de zumbificação” com os conteúdos dos livros didáticos distribuídos pelos governos anteriores. Para ele, os livros didáticos são mais do que uma simples ‘dopagem’! Eles são algum tipo de substância (objeto) que causa a dissociação; que pode, por exemplo, criar confusão mental, desconexão com a realidade e, produzir em alguns casos, delírio induzido, tornando os estudantes das instituições públicas em “zumbis existenciais”. Seria cômico se não fosse trágico!

Um time não precisa declarar ao adversário como irá jogar para poder participar ou ganhar um campeonato! As táticas podem ser utilizadas aos poucos e no decorrer de cada partida. Continuando o jogo da Política de Educação Brasileira, tivemos a publicação da Política Nacional de Educação Especial (PNEE). A partir do discurso de “liberdade individual e de escolha” para o atendimento especializado, o que realmente está por traz das “escolas comuns inclusivas”, “escolas especiais” e “escolas bilingues de surdos”? Se fizermos hipóteses no campo da organização dos sistemas de ensino tudo irá por água abaixo... Como em qualquer jogo coletivo, sempre tem um time mais fraco, com comissão e jogadores que não possuem os atributos necessários para vencer os adversários! Segundo os especialistas a PNEE abre um espaço, ainda maior, para a segregação e, consequente, manutenção de uma sociedade preconceituosa! Isso que condenamos parece ser coerente com o projeto do governo e a ideologia excludente que o fundamenta!

E segue o campeonato! Em outubro, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) anunciou os resultados do Conceito ENADE 2019. As Universidades Públicas obtiveram as maiores notas, e o jogador principal e seu time ficaram surpresos com o resultado! Qualquer um quando vence uma partida, aplaudem o time! Ficam felizes! Mas o jogador, Ministro da Educação, não! Ele Não!

No “púlpito da mediocridade” os jogadores do MEC e INEP quase disseram que as Instituições Públicas foram melhores que as Privadas por causa da configuração e das dimensões institucionais que são consideradas na avaliação. Insinuaram que o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES) não estabelece a qualidade e, que favorece uns e desfavorece outros... Assim como todo time tem um plano, todo governo também tem, mesmo que não o revele! A partir das declarações ficou claro que a “saga e tara pela qualidade” são um fetiche e que uma nova ofensiva se aproximava!

E não deu outra! Sim! Os nossos adversários são descansam nem um só dia... Os ‘guardiões’ da ‘ordem e progresso’ deslocaram os recursos entre os ministérios retirando R$ 1,4 do MEC! E isso foi feito no meio do turbilhão de comprar ou não comprar a vacina; de não aceitarem os resultados de campeonatos internacionais; de falarem de “maricas” e “pólvora” etc.! Sim, eles têm a arte de manobrar... Eles, em uma jogada de mestre, prometeram que irão devolver os recursos. É como se um time acertasse com o outro time quem vencerá cada partida do campeonato! É como se houvesse uma ‘combinação de resultados’! Isso não existe no mundo dos jogos! Isso não existe no mundo da política!

E fechando o campeonato, tivemos a partida sobre a regulamentação do FUNDEB. Os jogadores do legislativo em primeiro turno destinaram os recursos públicos para a rede privada sem fins lucrativos (instituições confessionais (religiosas), comunitárias, filantrópicas), e isso deveria ser no mínimo fim de jogo! Game Over! Tentaram mais uma vez desferir uma falta grave, mas no segundo tempo, conseguimos reverter as jogadas acintosas e, o FUNDEB é da escola pública!

O Campeonato de 2020 revelou o projeto do governo, as estratégias e táticas que serão utilizadas para atacar a Educação Pública Brasileira. Em cada partida houve um vencedor! Em cada partida um houve perdedor!

Estamos terminamos o ano em uma Pandemia! Sem vacina; quase “virando jacaré”; com ‘guru’ sem ideologia; com ‘delírio bélico’; com ‘negacionismo seletivo’; com a ‘saga e tara pela qualidade’; com o ‘mantra da eficiência empresarial’; com a ‘meritocracia’; com a ‘pseud. liberdade individual’; com ‘a mediocridade’ sob o manto da ‘técnica e neutralidade ’e da ‘moralidade’ e dos ‘bons costumes’, da ‘religião’, da ‘goiabeira’! E até agora não apareceram os ‘biberões fálicos’ nem o ‘kit gay’. Mesmo assim, é óbvio, que muitos ainda vão dizer que tudo isso não faz parte de um sistema de ideias! Ou seja, não é ideologia...

O jogo da política nunca acaba!

Os nossos adversários não irão recuar!

No próximo ano teremos mais um Campeonato!

E que venha 2021! Vai ter jogo! Vai ter luta!

imagem: montagem ciranda.net

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Paula Arcoverde Cavalcanti