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O gato que foi guardar estrelas

quarta-feira 13 de janeiro de 2021, por Antonio Herci,

Dedicado à memória de Nemo (c.2004-2021)

Estavam indo no carro, apressados...

Mas o menino, de um sobressalto, anunciou que acabara de ver um gato esmagado por um carro e que deveria estar morto. O carro parou, o menino, a irmã e o pai foram até o gatinho. Mal se identificavam as formas, apenas pelos e cores, tingidas por um vermelho muito escuro, já combinado com tons de perversidade e asfalto.

— Virou écat... disse o menino.

“ÉCAT”era a palavra usada para determinar coisas decompostas ou deformadas, melecas e coisas que não se pode comer ou enfiar na boca, deve ser dita com deformações do próprio rosto, que denote asco. Diante da confirmação de que sim, o gatinho tinha virado écat, o menino logo completou

— Tudo mundo vira écat um dia, não vira?

— Sim, respondeu o pai...

— Acho que tem que morrer, retrucou o menino, para que outras pessoas possam nascer... senão como ia ter comida pra todo mundo!

Gatas e gatos aparecem na história das artes visuais desde a mais remota antiguidade.

Talvez uma das civilizações que melhor tratou, representou e deu dignidade aos felinos foi a civilização egípcia. Eram retratados em sarcófagos e túmulos (figura 1) e chegavam a ser considerados deuses: a associação com eles ajudaria na jornada para outra existência. Além dos gatos, foi talvez a civilização que também mais deu pompas e luxo à memória e representação pós-morte de seus nobres e Faraós.

No Japão, os gatos também contam com uma antiga história de representação. Na xilogravura da figura 2 destaca-se a expressão da mulher olhando o gato: é a mesma que encontramos em dezenas de imagens captadas por celulares e câmeras, e postadas na rede em tempo real, agora mesmo... Essa gravura, de 1796, expressa com maestria esse tipo tão particular de comunicação e interação que, olhando apenas para essa expressão da mulher, logo concluímos: está brincando com um gatinho.

Na figura 5, uma pintura chinesa feita no século XV (c. 1427-1509), destaca-se a qualidade da diagramação da página, disposição do texto, uso do espaço do papel, exploração dos limites do enquadramento e ponto de vista do gato, que nos induz a uma ordem no olhar... isso poderia muito bem ser uma proposta de design de arte gráfica na mais contemporânea das revistas de vanguarda...

Mas nem sempre o gato foi associado a coisas boas, ou mesmo apreciado como companhia. Existe uma associação da figura do gato com Lúcifer.

Na renascença vemos algumas representações disso, com o gato aparecendo, em diversas retratações da última ceia de Jesus, ao lado ou aos pés de Judas, o discípulo traidor, geralmente representado com uma sacolinha com as 30 moedas.

Na figura 3, um afresco do século XV, pintado por Cosimo Rosselli e Biaggio d’Antonio Tucci, o gato aparece, em primeiro plano, brigando com o cachorro. O cachorro era considerado o símbolo da lealdade e guarda de princípios, o que sugere novamente essa filiação do gato como representante das forças do mal.

Mais discriminado ainda se o gato for preto, associado a azar, morbidez e coisas e criaturas “das sombras”.

Mas existem muitas e muitas obras que contradizem frontalmente isso. Diversas e diversos artistas resgataram o gato preto como símbolo do companheirismo, agilidade, esperteza e revelação da verdade.

Um dos exemplos interessantes é o GATO PRETO, de Edgar Allan Poe, que [sem querer dar spoiler] acaba sendo o herói que ajuda a desvendar a o caso e, se for sinônimo de azar, é para o assassino, não para a vítima enterrada ali junto (abaixo link do conto completo).

O GATO PRETO também foi um símbolo muito forte, associado a dançarinas e artistas da virada do final do Século XIX, o movimento cultural conhecido com FIN DE SIÈCLE, que teve um papel importante no nascimento das vanguardas e da arte moderna.

LE CHAT NOIR (o gato preto), era o cabaré francês símbolo dessa época, do qual Rodolphe Salis (1851-1897) era o dono, anfitrião e criador. Ele será lembrado como o criador do cabaré moderno: onde os clientes podiam se sentar e beber seus aperitivos, enquanto assistiam a uma variedade de espetáculos. Na figura 4 vemos um cartaz chamando ao GATO PRETO, feito pelo artista e gravador Théophile-Alexandre Steinlen (1859-1923).

O GATO PRETO (2019), de Jenny Jinya, talvez seja uma das mais tocantes homenagens (detalhe na figura 6, edição completa no link abaixo).

Através de uma linguagem muito simples a autora nos leva a um mundo nada trivial de pensamentos: a solidariedade e doçura da morte — cuja imagem remonta à Dança da Morte, assunto de matéria anterior da Ciranda; a inevitabilidade do sacrifício dos animais abandonados; a existência de pessoas boas e más e a implacabilidade da finitude da vida, que não é necessariamente a finitude da compaixão e do carinho. A obra é uma emocionante e original viagem que o amor parece ser capaz de realizar: indo além da morte e da finitude da matéria.

O carro havia retomado seu caminho. O menino, sua irmã e o pai estavam em silêncio, pois sentiam que haviam vivido uma profunda experiência mística naquela manhã... tão profundo parece ter sido para as crianças, que puderam crescer fortes, atentos e fortes, como se a poesia entrasse também por aquele momento e aplacasse o temor da morte e com a qual lidariam tantos anos depois: uma tristeza necessária à esperança de vida!

— Então você, minha irmã, minha mãe... todo mundo vai virar ecat? Todo mundo vai morrer?
— Sim, respondeu o pai... Mas não já!

Tanto tempo depois desse episódio do gato, o gatinho Nemo (c.2004-2021) pôde tranquilamente, cercado de amor e carinho do menino, agora já adulto e pai, gastar a última de suas inúmeras vidas: deu um último suspiro e foi guardar as estrelas, para que suas e seus amigos humanos continuassem a ouvi-las!

“Ora, ouvir estrelas, certo perdeste o senso!”

Eu vos digo, no entanto, que nesta noite ouvimos um réquiem: as estrelas cantavam miando, mas parece que ouvi também a voz do Belchior (1946-2017) e do Olavo Bilac (1865-1918) no coro...

Se ainda não teve oportunidade de ouvir as estrelas, “amai para entendê-las, pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas”.

IMAGENS

FIGURA 1 - Sarcófago do gato do príncipe Thutmose (aproximadamente 1400 aC).

FIGURA 2 – MULHER, GATO E KOTATSU, 1796. Utagawa Kunimasa (1773-1810).

FIGURA 3 - A ÚLTIMA CEIA, 1481-1482. Cosimo Rosselli (1439–1507) e Biaggio d’Antonio Tucci (1446-1516). Afresco, 350x570cm. Museus do Vaticano, Roma, Itália.

FIGURA 4 - LE CHAT NOIR. Théophile-Alexandre Steinlen (1859-1923). Tournée du Chat Noir de Rodolphe Salis (1896).

FIGURA 5 - Shen Chou, ‘Esboços da vida” (viveu aproximadamente de 1427-1509).

FIGURA 6 – GATO PRETO, 2020. Jenny Jinya, quadrinho virtual, completo em português. https://catiororeflexivo.com/artista-que-tem-feito-as-pessoas-chorarem-com-a-tirinha-do-gato-preto-lanca-nova-sequencia/
No facebook de Jenny Jinya, BLACK CATS completo no original, em inglês.

OBRAS

O GATO PRETO, 1843. Edgar Allan Poe (1809-1849). O conto completo pode ser lido no link netmundi

星守る犬 [Hoshi mamoru inu] ou CÃO QUE GUARDA ESTRELAS é uma expressão idiomática japonesa que significa “SONHAR ALTO” ou “desejar algo inalcançável”. A imagem vem de um cachorro que olhava para as estrelas como se desejasse alcançá-las. O ‘guardar’ é usado, como em alguns casos do português, no sentido de observar e cuidar. In: MURAKAMI, Takashi. O cão que guarda as estrelas. São Paulo: Editora JBC, 2014.

ORA DIREIS OUVIR ESTRELAS, soneto XIII da coletânea de sonetos Via Láctea. Olavo Bilac (1865-1918). https://cdn.culturagenial.com/arquivos/via-lactea.pdf
A frase “ora direis ouvir estrelas” é citada pelo compositor Belchior (1946-2017) em sua música “Divina Comédia Humana” (1978).

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