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Quem está rindo?

quarta-feira 20 de janeiro de 2021, por Antonio Herci,

A MELANCOLIA é um tema estudado desde a antiguidade por filósofos, médicos, ciências PSI e fisiologistas e tem gerado muita reflexão sobre seu significado, ora sendo tomada como um mal a ser tratado, ora como a característica de artistas, poetas, pensadores e estadistas.

O termo vem da palavra grega μελαγχολία, formada de μέλας — mélas, "negro" e χολή — cholé, "bílis", conhecida como a doença da BILE-NEGRA.

Hipócrates (460a.C.-377a.C.) procurou explicar o estado melancólico como resultado de um desequilíbrio entre os quatro humores básicos do corpo: o sangue, a linfa, a bile amarela e a bile negra, e que correspondiam aos quatro temperamentos: sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico. A BILE-NEGRA é originada no baço onde pode ser produzida em excesso e acumular-se por todo o corpo, particularmente no cérebro.

No entanto, para Aristóteles, que aborda essa discussão no “PROBLEMA XXX” (1), a bile negra também confere qualidades artísticas e intelectuais e é característica dos grandes guerreiros, filósofos, estadistas e poetas.

Sua característica principal, para o filósofo, não é o estado de tristeza, mesmo marcante, mas a possibilidade de mudança instantânea de temperatura ou humor, ou seja, a sua volatilidade entre o quente e o frio e explosividade para a ação que pode mudar a circunstância por completo.

Entre os diversos exemplos que Aristóteles enumera estão Hércules, Platão, Sócrates, Empédocles e “a maioria dos que se consagraram à poesia”.

Na Idade Média, a melancolia era mais do que uma patologia: era um pecado.
Chamada de ACEDIA era considerada não apenas uma doença do corpo: era uma doença da alma, um pecado que assolava os mosteiros e provocava bulimia, inação, apatia e um acentuado afastamento do próprio corpo, um alheamento. Era combatida por privações corporais e um remédio aparentemente eficaz, que muito se fortaleceria com a Modernidade: atividade e trabalho, não deixando espaço na mente para o diabo ocupar.

A MELANCOLIA torna-se um dos assuntos em voga no renascimento e no início da Modernidade. Diversos autores publicaram tratados e livros de ficção sobre o tema, culminando no sucesso editorial de 1621, publicado na Inglaterra, que se tornou um grande best-seller, enriquecendo seu autor que comprou uma propriedade com os lucros. Sucesso que se repetiu em três edições e reimpressões da obra, um verdadeiro fenômeno de tiragem. “The Anatomy of Melancholy” era o título desse livro de Robert Burton.

MELANCOLIA I (Figura 1, 1514) é uma das três mais importantes gravuras de Albrecht Dürer (1471-1528), feita em cobre. Além de seu valor e requinte como obra de arte, tornou-se referência na composição de uma certa iconografia da melancolia, sendo um modelo que até hoje persiste e pode ser reconhecido por alguns elementos muito simples, como a posição MÃO-QUEIXO-COTOVELO, os três pontos corporais que parecem triangular uma base de apoio, primeiramente para a própria cabeça, que teimaria em desfalecer, mas estabelecendo também o ponto de apoio do PLANO DO OLHAR que, sempre penetrante e vago, traça uma reta, como um ponto de fuga brotando do vértice da mão superior.

Na falta de ação desta última, a mão, ocupada em manter a cabeça ainda sustentada, mantém intacta a ação de um olhar que, ao mesmo tempo, mistura tristeza com uma sensação de profundo conhecimento do que é, ali, inevitável.
Também pode parecer um movimento em preparação para a ação (figuras 1-4).

O RETRATO DO DOUTOR GACHET (Figura 2, 1890) — Paul-Ferdinand Gachet (1828-1909) — que conviveu com os últimos dias do pintor Van Gogh (1853-1890), parece que, a qualquer momento, pode explodir em palavras ou atrevimentos intelectuais. Os olhos não são apenas marejados e tristes, são perspicazes, parecem ver aquém do retratista e de quem olha a obra revelando não o que lhes está à frente, mas o que nos cobre como grande manta da circunstância, algo muito importante e inevitável.

O jovem Jappe Nilssen (1870-1931), historiador e escritor, à beira do mar, pintado por seu amigo Edvard Munch (1863-1944) também parece ter em si tamanha expressão da tristeza pela desilusão do amor, que explode em um discurso que não custamos compreender, mesmo tanto tempo depois, ao observar sua postura: a cabeça apoiadas na mão, com o cotovelo apoiado e o olhar de quem entende que existe algo além dessa desilusão, uma espécie de paz inevitável (Figura 3, Melancolia, 1894).

Já O PENSADOR (Figura 4, 1902-1904), de Rodin (1840-1917), mantém o modelo original, mas com uma estranha sutileza: sua mão está apoiando o queixo, mas também sobre sua boca, o lado de seu triângulo não é a mão, mas o punho dobrado sobre si mesmo como se tentasse retornar a um movimento ancestral e acolhedor e apenas faltasse dobrar-se mais um pouco para estar em posição fetal. Olha para baixo, está cabisbaixo, nu, parece arrependido...

Talvez essa mão seja para nós, 100 anos depois de sua estreia ao público, uma metáfora de uma história de usurpação da autoria feminina, de relações abusivas, que cala a própria boca, além de apoiar-se nela. Mas pode ser impressão de quem observa com um olhar melancólico uma história que, malgrado seja contada como cultura humana, é apenas de uma parte branca e masculina dela.

A expressão “psicose maníaco-depressiva” foi introduzida no século XIX, por Emil Kraepelin. Desde então o termo “depressão” tem, cada vez mais, substituído a palavra melancolia, e não apenas por uma questão de nomenclatura, mas de modo de vida: a depressão é uma MELANCOLIA muito mais perigosa, desprovida do componente intelectual, filosófico, reflexivo ou sonhador, que Aristóteles, durante a Renascença e o Romantismo havia sido enaltecido.

Sendo a depressão um fenômeno totalmente desprovido de produtividade, fonte de sérios problemas sociais, sem atrativos ou glamour, o Prozac parece ser o ícone da reafirmação de modernidade: a necessidade de estar feliz como pressuposto da vida moderna.

Parece que, para a modernidade, a melancolia ou as pessoas estranhamente reflexivas ou sorumbáticas não são muito apreciadas. Não tanto quanto pessoas felizes e agradecidas, alegres diante do genocídio, misoginia e racismo. Por que, afinal, não estariam todas e todos sorrindo e rindo aos borbotões?

Ainda assim, pergunta-nos Aristóteles:

— Por que razão todos os que foram homens de exceção, no que concerne à filosofia, à ciência do Estado, à poesia ou às artes, são manifestamente melancólicos, e alguns a ponto de serem tomados por males dos quais a bile negra é a origem?

Essa afirmação, vinda de um filósofo como Aristóteles, surpreende pela força do “TODOS”, que parece naturalizar a melancolia (é por natureza).

Mas quando a ouvimos de novo, uma questão mais forte nos toma o espírito: e as MULHERES?!? Onde estão nessa história da melancolia? Essa história toda parece escrita e ilustrada por homens...

Eles estão nos textos filosóficos e estrelam os tais grandes feitos, eles nos arrancam as reflexões sobre a melancolia...

As mulheres estão descabeladas, são internadas, banidas, deserdadas, confinadas em conventos, spas ou clínicas de reabilitação, tendo pouca oportunidade de exercer a melancolia criativa de Montaigne que durante anos dedicou-se, trancafiado em seu castelo, a seus Ensaios.

Mas talvez possamos voltar à gravura de Dürer e sua modelo original, procedendo a um pequeno exercício não autorizado de sua obra, que parece estranhamente revelar algo da condição moderna: no início da modernidade — que culmina em uma estátua de um HOMEM NU E CABISBAIXO, aparentemente com culpa mas calando-se sobre algo — está essa gravura com uma MULHER ALADA, diante dos objetos mais importantes da história da ciência dos homens de então (sólidos platônicos, esfera, compasso e instrumentos de cálculo, quadrado mágico, balança de medidas, ampulheta, sineta...) mas como que constrangida a observar o crepúsculo obscuro onde um morcego abre em suas asas a palavra “MELANCOLIA”.

Mas, notem, a MULHER ALADA não tem o olhar triste, muito menos resignado. Tem um olhar astuto, impertinente, iluminando a gravura e fazendo o crepúsculo parecer apenas um enfeite padronizado de gravação.

Olha para além de todo aquele produto da sabedoria, como se estivesse farta em operar o que está a seus pés e displicente, secularmente encarcerada em sua reflexão, mantém-se alada e tudo observa atentamente a planejar seu voo, onde toda aquela saberia poderia ser abandonada pela liberdade de voar. Ou não poderia largar tudo pra trás?

Nessa versão não autorizada, ela observa, através da limitação, o ilimitado, planejando o momento de voar, enquanto o homem do bronze continuará calado pela própria mão.

IMAGENS

Figura 1 – MELANCOLIA I (1514). Albrecht Dürer (1471-1528). Gravura.

Figura 2 – RETRATO DO DR. GACHET (1890). Vincent Willem van Gogh (1853-1890), OST, 67x56cm, em duas versões: figura a 1ª versão e figura b 2ª versão.

Figura 3 – MELANCHOLY (1894). Munch, Edvard (1863-1944). Pintura, OST, 81x100,5cm. KODE Art Museums and Composer Homes, Noruega.

Figura 4 – O PENSADOR (1902-1904). François-Auguste-René Rodin (1840-1917). O pensador. Escultura em Bronze, altura 186 cm.

REFERÊNCIA

(1) ARISTÓTELES (384a.C-322a.C). O homem de gênio e a melancolia: o problema XXX, 1. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1998. Hoje sabe-se que o texto não foi escrito por Aristóteles, mas provavelmente por um ou mais discípulos ou admiradores, mesmo séculos depois — Pseudo-Aristóteles — o que não diminui a importância e profundidade das abordagens e autores.

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