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"Estamos trazendo esperança", diz Chomsky

domingo 2 de fevereiro de 2003, por Gustavo Barreto,

Com uma dose de otimismo e outra de realismo, Chomsky elogia MST e fala da política de Estado dos EUA. Gustavo Barreto, de Porto Alegre, janeiro de 2003

O escritor Noam Chomsky marcou presença no terceiro Fórum Social Mundial e participou da conferência ‘Como enfrentar o Império’, no ginásio Gigantinho, em Porto Alegre. Com a tranqüilidade e bom humor que lhe é peculiar, o neurolingüista do MIT falou para um público atento. Iniciou a palestra dizendo que a pergunta que era proposta para a conferência todos sabiam “tão bem ou bem melhor” do que ele. Segundo Chomsky, é exatamente isto o que está se fazendo no Fórum. “Estamos trazendo esperança”, argumenta.

Referiu-se ao MST - ontem ele esteve em um acampamento da Via Campesina em Charqueadas (RS) - como o maior e mais importante movimento social do mundo e “uma das principais razões pela qual o Fórum Social Mundial está sendo realizado no Brasil, e não nos EUA ou na Europa”. Ele lembrou da importância dos movimentos sociais, pois é exatamente eles que os norte-americanos tentam minar em outros países. “Foi assim no Brasil, em 1964, com a perseguição à igreja e à teologia da libertação”. Segundo ele, na maior parte dos lugares a ditadura não é mais possível como meio de controle de povos estrangeiros e agora se manifesta por meio do neoliberalismo, limitando o poder do Estado e contendo a democracia.

Iraque
Um dos tópicos principais da conversa foi o iminente ataque bélico ao Iraque e a política de Estado dos Estados Unidos. Denunciou a situação dos curdos no sul da Turquia, onde esteve recentemente. “Só em 1997, o governo Clinton enviou mais armas à Turquia do que todo o período anterior somado, desde a Guerra Fria”, alertou. Segundo Chomsky, isto resultou em 50 mil mortos e 3 milhões de refugiados nesta região. “80% dos armamentos vêm dos EUA”, lembra o ativista. Ele lembrou, no entanto, que não se deve misturar ‘política de Estado’ e ‘população’ de qualquer país que seja.

Falou também da Colômbia, argumentando que o terrorismo de Estado dos EUA se deslocou para a Colômbia apenas quando este se esgotou na Turquia. Além deste, o escritor visitou Calca, na Colômbia. Ele havia dito mais cedo, na coletiva de imprensa, que “enquanto forem baratas, os Estados Unidos ficarão pulando de guerra em guerra”. Para perceber isso, diz, basta analisar a História. “Com Hitler foi assim, e não é algo exclusivo dele”.

Solução
Como solução para a investida bélica do atual governo norte-americano, Chomsky disse que há modelos já existentes, como a Via Campesina, o MST e o próprio Fórum Social Mundial. “Contudo eles precisam ser desenvolvidos”, alertou. Disse ainda que o Fórum Social Mundial não deve ser feito para os excluídos da sociedade, e sim para a sociedade como um todo.

O norte-americano destacou a “interessante comparação” entre o clima de Davos e o de Porto Alegre. “Lá o clima é mais escuro. Quanto mais cresce o ânimo aqui, pior o clima lá”, disse. Lembrou por mais de uma vez que o tema em Davos é a construção da confiança, e que eles estão certos em fazê-lo.

“Descobriram que a liderança dos líderes de Estado está em baixa”. Segundo ele, recente pesquisa realizada no Canadá indicou que um terço da população mundial vê os EUA como maior ameaça à paz mundial.

Quanto a esta oposição, Chosmky demonstra uma agradável surpresa. “A oposição a uma guerra antes que esta acontece não tem precedentes históricos”, analisa. Diz ainda que, assim como no resto do mundo, a magnitude dos protestos dentro dos Estados Unidos também não tem precedente histórico.

“A Câmara de Chicago aprovou uma resolução contra a guerra por 46 votos a um”, disse. A própria Universidade do Texas - localizada ao lado do rancho do presidente Bush - aprovou resolução contrária à guerra.

Inimigo inventado
Chomsky falou também sobre uma estratégia muito lembrada por diversos conferencistas durante o Fórum. “Eles pintam e criam o inimigo para depois combatê-lo”. Alertou sobre a propaganda do governo norte-americano dentro do país. “Se não pararmos o Saddam hoje, ele nos destruirá amanhã, dizem eles”.

O escritor afirmou que, apesar dos gastos do Iraque com a indústria bélica serem mínimos, uma importante secretária de Estado norte-americana fez um alerta em setembro do ano passado sobre a ‘nuvem em forma de cogumelo’, uma possível referência a um ataque nuclear a Nova Iorque.

Até as elites conservadoras estão se colocando contra a guerra. “Os Estados Unidos está virando uma ameaça a si e à humanidade”, explica. O que os articulistas estão percebendo é que a guerra fomentaria muito mais as atividades terroristas em todas as partes do mundo, principalmente no Oriente Médio, com possível proliferação de armas de destruição em massa.

’Intelectuais’
Mais cedo, na coletiva, brincou com um repórter que havia pedido a opinião dele como especialista: “Há uma categoria chamada ‘intelectuais’ que fazem coisas simples parecerem difíceis. Há áreas em que especialistas são necessários, como na física quântica, mas em questões mundiais qualquer um aqui pode saber tanto quanto os especialistas”.

Com um discurso bem dosado de otimismo e realismo, Chomsky termina sua conferência no ginásio Gigantinho dizendo: “Há muitas razões para termos esperança, mas há um caminho longo e duro pela frente”.

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