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Imprensa megalonanica trata golpista como “presidente interino”

terça-feira 13 de outubro de 2009, por Maria Eugênia Sá , Vinicius Souza,

Por enquanto podemos contabilizar pelo menos dois efeitos “positivos” do golpe em Honduras: o alinhamento mundial de condenação aos golpistas com apoio à ação brasileira, e a queda das máscaras “democráticas” da Grande Mídia e da oposição. Nunca foi tão fácil ver de que lado cada um se posiciona.

Antes de mais nada, é preciso restabelecer a verdade: o presidente legítimo de Honduras, Manuel Zelaya, NÃO tentava sua reeleição. Ele propunha uma consulta popular para um plebiscito sobre a possibilidade de convocar uma Assembléia Constituinte. SE aprovado, o plebiscito ocorreria no NO MESMO DIA, das eleições presidências já marcadas para novembro. Portanto, Zelaya NÃO queria nem poderia se reeleger!! Assim, o governo golpista (ou “de facto”, como contraposição à expressão “de direito”) NUNCA poderia ser chamado de “interino”, muito menos “constitucional” ou “democrático”. Mas parece que a imprensa hegemônica no Brasil e em Honduras está mais interessada em torcer os fatos em favor de seus fins políticos locais, do que em apresentar e analisar o que efetivamente ocorre nesse pequeno país da América Central.

Este preâmbulo se torna necessário porque a “justificativa oficial” do golpe segue sendo repetida pela chamada Grande Mídia com tanta insistência, que tem confundido muita gente até bem informada. Afinal, se logo depois do golpe poucos veículos se atreviam a apoiar dos golpistas abertamente, com a volta do presidente legítimo e o abrigo que recebeu na embaixada brasileira, as posições da ultra-direita se escancararam. A revista Veja, sempre ela, lançou uma edição com capa sobre o assunto na última semana de setembro usando como título a expressão “imperialismo megalonanico”, cunhada por seu blogueiro oficial, Reinaldo Azevedo, o primeiro a afirmar com todas as letras, há alguns meses, a mentira de que Zelaya foi retirado do posto “constitucionalmente” porque “queria dar um golpe para se perpetuar no poder”. A revista acusa o presidente de louco, diz que diplomacia brasileira é teleguiada por Hugo Chávez e que o abrigo dado ao presidente deposto vai contra “os interesses do Brasil”. A IstoÉ pergunta na capa: Por que o Brasil comprou essa briga? E apesar de afirmar em editorial que “na prática, o Brasil fez o que tinha que ser feito”, no mesmo parágrafo reforça a mentira de que Zelaya “foi apeado do poder após a sua investida contra uma cláusula pétrea da Constituição do país. Queria o terceiro mandato”. Já a Época, chamou Zelaya de “hóspede inconveniente”, mas nas outras empresas do grupo o tratamento ao caso foi ainda mais escandaloso. No Jornal Nacional de 24 de setembro, o âncora William Bonner abre a “matéria” principal da noite com: “desde o dia da deposição de Zelaya, o governo que assumiu o poder em Honduras tem dito que a ação foi baseada na Constituição do país, que proíbe qualquer tentativa de reeleição pelo presidente”. Mais adiante, “o analista político Rosedo Fraga, que mora em Buenos Aires, afirma que, pela Constituição Hondurenha, se o presidente tenta a reeleição, ele já está cometendo um delito. E que a prisão de Zelaya foi uma decisão da Suprema Corte, que tem o papel de interpretar o que diz a Constituição. Mas o analista declara que a imagem de um presidente civil sendo preso de pijamas por militares se assemelha à de um golpe de estado, e que às vezes uma imagem pode ter mais peso do que diz a lei”. Entenderam? A Globo diz que não foi um golpe, só “pareceu” um golpe. E que, segundo o “cronista” da rede, Arnaldo Jabor, foi “democrático”...

Nos dias seguintes, em entrevista à rádio CBN (também da Globo), o assessor para assuntos internacionais da presidência, Marco Aurélio Garcia deixou o Carlos Alberto Sardenberg gaguejando quando afirmou que Zelaya não poderia tentar a reeleição porque a consulta que ele propunha seria no mesmo dia das eleições para as quais ele NÃO era candidato. À noite, ele foi obrigado a repetir a mesma coisa para a Mônica Waldvogel no programa “Entre Aspas” da GloboNews e usou a mesmíssima comparação entre Chávez e o inexistente “ouro de Moscou”, que a direita alegava nos anos 60 e 70 ser a fonte de financiamento de todas as ações da esquerda no continente. Atualmente, a direita vê o “dedo satânico” do presidente da Venezuela em tudo. Tanto é que o senador pelo PSDB, Tasso Jereissati, apresentou à Comissão de Relações Exteriores do Senado no dia 1º de outubro, um parecer contrário à entrada da Venezuela no Mercosul, apesar do país ter tido nos últimos anos o maior crescimento no comércio bilateral entre todos os parceiros do Brasil no continente. Antes disso a Comissão já tinha convocado o Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim para tentar arrancar dele qualquer indício de apoio ou conivência do Brasil no retorno de Zelaya a Honduras para poder acusar o governo de ingerência em um país estrangeiro, exatamente o mesmo discurso dos golpistas.

Nos jornais impressos não foi diferente. A Falha de S.Paulo internacionalizou o termo “ditabranda” afirmando em editorial de 28/09 que “o regime chefiado por Roberto Micheletti em Honduras ocupa categoria bem mais tênue de ilegitimidade democrática. Violou a Constituição ao expulsar do país um presidente eleito, quando a ordem da Corte Suprema era de prender Zelaya, por afronta a essa mesma Carta. O governo interino, contudo, respeitou a linha sucessória constitucional, assegurou o poder em mãos civis e manteve o calendário das eleições presidenciais, marcadas para 29 de novembro”. Mas não fala nada sobre o fechamento de TVs e rádios, perseguição de opositores, prisões arbitrárias, suspensão das liberdades e garantias civis... O Estadão, por sua vez, publicou em 30 de setembro que Lula “fez exatamente aquilo que o ex-chanceler do México Jorge Castañeda recomendava em entrevista no Estado de domingo que o governo brasileiro não fizesse: um país que tem aspirações a ser um líder mundial ‘não pode aparentar cumplicidade com radicais’. O conselho chegou tarde. O presidente Lula [...] caiu na armadilha armada por Hugo Chávez em Honduras [...] e mereceu crítica do representante dos Estados Unidos no Conselho Permanente da OEA, pelo apoio de seu governo ao comportamento "irresponsável e tolo" do presidente deposto Manuel Zelaya”.

A declaração do representante interino dos EUA junto à Organização, Lewis Amselem, apesar de representar na verdade a divisão de posições e interesses comerciais na chancelaria estadunidense (com atores ainda bastante ligados à administração Bush, especialmente o embaixador em Honduras, Hugo Llorens, um dos principais assessores do ex-presidente sobre a Venezuela quando houve o golpe contra Chávez em 2002), foi praticamente “comemorada” pela Grande Mídia nacional. Claro, afinal enquanto as TVs, revistas e jornais locais escalam ex-embaixadores do governo Fernando Henrique Cardoso para opinarem sobre o “desastre” das ações do Itamaraty e insinuarem que “não houve assiiiiimmm um golpe”, nenhum país no mundo, nem mesmo os EUA, sempre prontos a apoiar ditaduras “aliadas”, reconheceu o governo Micheletti como legítimo. E para revistas como a estadunidense Time, “ o poder da potência da América do Sul tem sido reconhecido como o primeiro real contrapeso aos Estados Unidos no hemisfério ocidental”. E completa: “se um acordo eventualmente acontecer em Honduras, a imagem do Brasil como um poder regional vai decolar. Se não, Lula ainda assim vai marcar ponto com sua base esquerdista do Partido dos Trabalhadores”. Onde no Brasil se lê análises assim?

A questão, obviamente, não é o fato do golpe de estado em Honduras e nem os interesses comerciais ou geoestratégicos do Brasil. A oposição sem bandeiras para as eleições em 2010 precisa quebrar a alta popularidade do presidente Lula de qualquer maneira e inventa uma crise nova, sempre insuflada pela mídia, a cada semana. Foi assim com o “mensalão”, com a CPI da “tapioca”, com a “marolinha”, com o Sarney, com a Lina/Receita... Não é por outro motivo que o pré-candidato do PSDB, o governador de São Paulo José Serra, classificou a atitude do Brasil abrir a embaixada para Zelaya de “trapalhada”. Imagine o que a oposição diria se, como pedem os jornais agora, os funcionários não permitissem sua entrada e o presidente legítimo de um país fosse preso ou morto às portas da representação brasileira!!! Mas depois que a Folha publicou a “ficha da Dilma”, chamou a ditadura brasileira de ditabranda e estampou na primeira página que “ao menos” 35 milhões de brasileiros teriam alguma complicação séria por causa da gripe suína em setembro, Serra precisava mesmo de qualquer distração para a população não ver que foram criados mais de 242 mil empregos formais em agosto, que o IBGE constatou 51 mil estudantes analfabetos no estado (confirmando o resultado pífio da Prova Brasil), que o metrô já não suporta o crescimento da população (o PSDB entregou só 11 Km em 14 anos de administração) e que a Fifa disse que a cidade não tem estádio nem infra-estrutura para abrir a Copa do Mundo de 2014. Pior que isso, só se o Rio faturar as Olimpíadas. Ops, faturou...

BOX: Direto à fonte e às fontes de fontes

O jornalismo isento não existe. Todo produto informativo (texto, som, foto ou vídeo) é resultado de um processo de resignificação e representação da realidade factual de acordo com as escolhas, parâmetros, conhecimento anterior e objetivo de seus produtores. Ainda assim, existe uma enorme diferença entre a deturpação de um fato objetivo para se manipular a “opinião pública”, e uma tentativa sincera de apresentar as informações da forma mais fidedigna possível. E aí se situa um pequeno e frágil detalhe que vem sendo ignorado para Grande Mídia: a credibilidade.

Para se conseguir dados um pouco mais corretos sobre Honduras, ou pelo menos o “outro lado”, os Blogs de jornalistas, portais de esquerda e sites independentes são uma boa fonte. Além dos usuais Vermelho (http://www.vermelho.org.br/), Brasil de Fato (http://www.brasildefato.com.br), Carta Maior (http://www.cartamaior.com.br), Adital (http://www.adital.com.br), Nassif (http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/), Azenha (http://www.viomundo.com.br), Luis Nassif (http://colunistas.ig.com.br/luisnassif) e Conversa Afiada (http://www2.paulohenriqueamorim.com.br/), vale a pena visitar ainda a Ciranda Internacional de Informação Independente (http://www.ciranda.net) e, direto na fonte, a Rádio Globo de Honduras (http://www.radioglobohonduras.com), não a do império midiático criado na ditadura brasileira, mas a emissora fechada pelos gorilas de Micheletti.

E para se ter uma ideia de com que base se formaram realmente as Organizações Globo no Brasil,vale a pena ler o editorial do Jornal O Globo de 02/04/1964. Se trocar o substantivo Brasil por Honduras e o nome de João Goulart por Manuel Zelaya, poderia ser republicado sem problemas há algumas semanas. Pura coerência.

Ressurge a Democracia!

Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.

Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ser a garantia da subversão, a escora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade, não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada.

Agora, o Congresso dará o remédio constitucional à situação existente, para que o País continue sua marcha em direção a seu grande destino, sem que os direitos individuais sejam afetados, sem que as liberdades públicas desapareçam, sem que o poder do Estado volte a ser usado em favor da desordem, da indisciplina e de tudo aquilo que nos estava a levar à anarquia e ao comunismo.

Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negócios públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.

Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. Devemos felicitar-nos porque as Forças Armadas, fiéis ao dispositivo constitucional que as obriga a defender a Pátria e a garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem, não confundiram a sua relevante missão com a servil obediência ao Chefe de apenas um daqueles poderes, o Executivo.

As Forças Armadas, diz o Art. 176 da Carta Magna, "são instituições permanentes, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade do Presidente da República E DENTRO DOS LIMITES DA LEI."

No momento em que o Sr. João Goulart ignorou a hierarquia e desprezou a disciplina de um dos ramos das Forças Armadas, a Marinha de Guerra, saiu dos limites da lei, perdendo, conseqüentemente, o direito a ser considerado como um símbolo da legalidade, assim como as condições indispensáveis à Chefia da Nação e ao Comando das corporações militares. Sua presença e suas palavras na reunião realizada no Automóvel Clube, vincularam-no, definitivamente, aos adversários da democracia e da lei.

Atendendo aos anseios nacionais, de paz, tranqüilidade e progresso, impossibilitados, nos últimos tempos, pela ação subversiva orientada pelo Palácio do Planalto, as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-os do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal.

Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais. Aliaram-se os mais ilustres líderes políticos, os mais respeitados Governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as Forças Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo.

A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo. Mas, por isto que nacional, na mais ampla acepção da palavra, o movimento vitorioso não pertence a ninguém. É da Pátria, do Povo e do Regime. Não foi contra qualquer reivindicação popular, contra qualquer idéia que, enquadrada dentro dos princípios constitucionais, objetive o bem do povo e o progresso do País.

Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus líderes e com os chefes militares, afirmarem o contrário, estarão mentindo, estarão, como sempre, procurando engodar as massas trabalhadoras, que não lhes devem dar ouvidos. Confiamos em que o Congresso votará, rapidamente, as medidas reclamadas para que se inicie no Brasil uma época de justiça e harmonia social. Mais uma vez, o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina, que lhe permitiu superar a grave crise, sem maiores sofrimentos e luto. Sejamos dignos de tão grande favor.

Para outras manchetes edificantes da democracia tupiniquim no final dos anos 1960 e início de 1970,acesse http://blogdoflavioloureiro.blogspot.com/2009/04/como-midia-noticiou-o-golpe-de-64.html

Textos e Fotos: Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá

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