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Direitos humanos

Chegamos à barbárie

segunda-feira 12 de julho de 2010, por Terezinha Vicente ,

Dizem que os últimos anos melhoraram a vida do brasileiro, principalmente a auto-estima do brasileiro dos andares de baixo, a maioria, e é verdade. Não poder se alimentar é algo que leva o ser humano à animalidade mais bruta. Para matar a fome de seus filhos, uma mulher é capaz de fazer coisas que duvidava antes.

Mas se nossa economia está melhor – sim, porque também ganharam mais os ricos e principalmente os banqueiros – os nossos valores estão cada vez mais decadentes e desumanos. O capitalismo, nesta fase neoliberal - ou selvagem, a como sempre fomos acostumados -, naturalizou bestialidades, que destroem a natureza, e nós agimos como se não fôssemos parte dela. Aliás, o único ser que destrói sua própria raça, que destrói a si próprio.

Essas bestialidades produzem os Brunos, Dayannes, e as Elizas Samudios da vida, mas produzem também os Bolas, Macarrão, os incêndios nas favelas, a espetacularização da notícia e da violência, as demissões políticas na TV Cultura. Todas essas notícias destacam-se nos jornais de hoje. As demissões dos jornalistas circulam na mídia não comercial e na solidariedade das redes.

Nada de democratizar a democracia

Com a conjuntura policial, divulgam-se dados que, para os mais atentos, de há muito estão presentes. Estudo feito pelo Instituto Sangari, demonstra que em 10 anos (de 1997 a 2007) foram assassinadas 41.532 mulheres no Brasil, o que dá uma média de 10 ao dia!!!! E sabemos bem que os dados do SUS, nos quais se baseou a pesquisa, não abrangem todas as mulheres! Além disso, os índices de alguns lugares e regiões (ES, RJ, RR) estão entre os piores do mundo!

E os assassinos são sempre, atuais ou ex, maridos, namorados e quetais. Homens que se acham donos de suas mulheres, assim como de suas propriedades, ou no lugar delas. Os mais humilhados, desempregados, excluídos, acabam tendo na mulher ( e nos filhos) o único foco de descarrego de suas frustrações e de sua aprendida e valorizada violência.

Isto nós mulheres sabemos há muito tempo, e nós feministas, há muito lutamos pela emancipação das mulheres e pela autonomia em relação ao nosso corpo. Conquistamos a Lei Maria da Penha, mas ela é questionada pelo patriarcado, na forma de juízes, delegados, chefes de vários tipos, aliados a uma mídia classista e, todos juntos, controlam o lento e burocrático aparelho de Estado.

O oligopólio da mídia tupiniquim e seu candidato não execraram a primeira versão do programa de governo federal, apresentado pelo PT para discussão com os demais partidos da coligação, questionando as teses como radicais? As propostas, acusam, abrem brechas para a legalização do aborto, para a reforma agrária, e incluem idéias para a taxação de grandes fortunas e, sobretudo, para o controle social da mídia. As mesmas pressões exercidas contra o PNDH3, pelas mesmas propostas, que apenas refletem as demandas colocadas nas conferências nacionais sobre diversos temas promovidas pelo atual Governo. Apenas um cheiro de democracia participativa, mas as nossas elites não admitem.

Fama, poder e dinheiro

Então fica a maioria do pobre povo brasileiro assim, sem educação, emprego, terra, oportunidades, auto-estima, sonhos e esperança. Somos o país em que as crianças mais assistem TV no mundo, pois ela funciona como babá, educadora, entretenimento, etc... E o que elas aprendem desde cedo na TV comercial, a única a que tem acesso?

É preciso tornar-se celebridade para ser alguém neste mundo de anônimos desejos e vozes. É preciso ter muito dinheiro para atender a tantas necessidades criadas para tornar-se celebridade; e isto também com a ajuda da mídia – qualquer uma serve atualmente. Mesmo que por 50 reais. Estão aí as Elizas Samudios da vida, os Brunos, Dayannes e toda a turma frequentadora do sítio do amante-jogador.

O outro sítio, onde está se supondo ter sido morta a “modelo”, é conhecido em toda a vizinhança de Esmeraldas (próxima a Belo Horizonte-MG) como “Casa de Matar”, pois outras pessoas teriam sido executadas ali. Segundo a vizinhança, divulgado em toda a mídia (incluindo a comercial), este sítio do dito Bola, foi utilizado em 2008 e 2009 pela Polícia Civil – aquela mantida pelo Estado. E dizem até que serviu para treinamento para policiais federais, militares, rodoviários e até a agentes penitenciários.

O tal Bola, dono do sítio e principal suspeito da execução da moça, agora treina cães da raça pit bull, que parecem ter como função na “Casa” desaparecer com vestígios dos corpos dos executados!!!!! Ou seja, o tal sítio de um ex policial está mais parecido com a sede de um Esquadrão da Morte, ou algo que o valha. Quem viveu na ditadura... Onde vamos parar???? E sempre o maldito dinheiro por trás de tudo! Junto com a luta pela sobrevivÊncia, a busca pelo dinheiro e o poder que dá ganha expressões absurdas.

Como nos conta Laerte Braga, “os camelôs de Contagem, município mineiro que forma a Grande Belo Horizonte, estão tendo lucros elevados com um filme estrelado por Eliza Samudio. Na capa o retrato do goleiro Bruno, cópia pirata, batendo recordes de encomendas em bancas de jornais. Não há diferença alguma entre o FANTÁSTICO, que chamam de ‘show da vida’ e os jornaleiros que vendem os exercícios sexuais de Eliza Samudio”.

Armas, mídia e plebiscitos

Circula na internet também hoje, outra notícia que tem tudo a ver. O Exército brasileiro nos informa, baseado na fiscalização de produtos controlados, que a venda de armas no Brasil subiu 70% (!!!!!) desde 2005. Este foi o ano em que se aprovou – por plebiscito – a comercialização de armas, embora 33 milhões de brasileiros tenham se manifestado contra. Foram 55 milhões os que votaram a favor. Dentre eles, com certeza, os Brunos e Bolas da vida.

Discussão anterior ao plebiscito??? Anódina e controlada pelos grandes meios de comunicação. Tal qual agora na questão do Plano Nacional de Direitos Humanos; ou na questão da reforma agrária, da reforma política, da miséria na terra dos Sarney, das negociatas de Serra com os donos da mídia comercial. Meios de comunicação que propagam há séculos os mesmos valores militares, bélicos, competitivos, patriarcais, misóginos, preconceituosos, hipócritas!!!

Mas há importantes candidatas (imagine então os candidatos??) que acham avançado defender um plebiscito quando se trata da legalização do aborto ou de relações homoafetivas??!!

Como discutir essa retrógrada posição, se há tantos canais de televisão propagando os mesmos valores! As famílias dos jovens envolvidos vem sendo questionadas, pois ambas abandonaram os filhos, Bruno e Eliza! Os fundamentalistas religiosos, que vem destacando esse lado da história em seus fartos espaços na televisão, aproveitam-se para pregar a volta da familia patriarcal, tipo lugar de mulher é na cozinha. Mesmo apanhando e morrendo.

E as emissoras públicas??? Exemplo triste é dado pela TV Cultura. Chefiada atualmente por aliados dos “donos da liberdade de expressão”, demite jornalistas consagrados na Cultura e que garantiam ainda um lado decente na emissora pública paulista. Demitidos por levar ao noticiário o questionamento do valor dos pedágios, corrente na população. Talvez fosse melhor para Serra ter permitido o debate e ter orientado direitinho o Alckmin para as explicações.

Mas para isso mesmo Serra mudou a gestão da TV Cultura. Dirigida agora por João Sayad, vindo diretamente da Secretaria da Cultura do candidato a Presidencia da República, a emissora paulista tem ainda no lugar antes ocupado pelo demitido Gabriel Priolli, o jornalista Fernando Vieira de Mello. Vindo do Grupo Bandeirantes, Vieira de Mello foi premiado com essa assessoria direta ao candidato Serra.

Não basta mudar de classe, ou permitir que alguns mudem de classe. Como não basta ser mulher, ou ambientalista, ou qualquer tipo de herói. “Infeliz o povo que precisa de heróis”, já disse há muito tempo Berthold Brecht.

Se para “subir na vida”, “vencer a concorrência”, tornar-se celebridade é preciso corromper, matar, ou fingir que nada se vê, urge mudar nossos paradigmas. Se para ser feliz é necessário vender o próprio corpo, aparecer na mídia em qualquer “big brother” da vida, urge humanizar a humanidade. Está tudo na mídia, só hoje.