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Afeto e cidadania

quinta-feira 23 de março de 2006, por Aline de Andrade,

Neste artigo (*), especificarei a experiência, com um alfabetizando, que durante seu processo de alfabetização sentiu-se estimulado para escrever um livro, sobre sua vida antes da escola e depois da escola e sua relação com a alfabetizadora.

Desenvolvimento

Quando foi iniciado trabalho de Alfabetização de Jovens e Adultos, na Comunidade, coloquei em mente que a minha função como alfabetizadora era a de trocar experiências com os alfabetizandos. E que através desta postura seria muito mais fácil conseguir o resultado esperado, ou seja, torná-los alfabetizados e incentivá-los a dar continuidade em seus estudos.

Muitos dos alfabetizandos chegam a uma sala de aula com muitos receios, sem nenhuma auto-estima, sentem-se incapazes de aprender algo, mesmo que desejem muito.
O papel do alfabetizador é de sempre reforçar a importância da vivência do alfabetizando, por que será através dela que o mundo das letras e dos números será apresentado.

Então diante desta troca, começaram os trabalhos efetivos. A cada aula debatíamos assuntos da vida de cada um e aos poucos íamos fortalecendo essa troca.

Através de trabalhos de estímulo à leitura, desenvolvidos a partir do conhecimento da turma, José Alcides, alfabetizando, começou a sentir-se estimulado com seu avanço.

Seu primeiro desafio era aprender a ler o jornal da Comunidade, que a alfabetizadora apresentava nas aulas.
Seu interesse junto à turma aumentava e até que um dia, ele apresentou a alfabetizadora uma história sobre um senhor de 119 anos, 68 filhos e 150 netos, retirada do jornal que não pertencia a Comunidade.

Imediatamente a alfabetizadora, valorizando a grande conquista deste alfabetizando e da turma, utilizou o texto para continuar a estimular este alfabetizando e a todos os outros.

Desde então vários alfabetizandos se interessam por lerem os jornais e pesquisarem assuntos pertinentes às aulas e aos acontecimentos na Cidade e com isso sempre trazem assuntos novos para serem debatidos em aula.

Esse tipo de trabalho faz com que o alfabetizando potencialize suas opiniões e suas experiências, além de desenvolver suas habilidades em Língua Portuguesa e Matemática.

Através da transparente e sensível relação entre alfabetizador e os alfabetizandos, construímos aos poucos uma relação sólida de confiança entre as partes.
E está sendo durante este processo de conquista e conhecimento do mundo da leitura, que José Alcides começou escrever um livro com sua alfabetizadora, onde ele relata toda sua experiência de vida antes da escola, o que mudou em sua vida ao entrar na escola, sua experiência com a alfabetizadora e seus amigos de turma e seus desejos futuros.

Conclusão

Cada alfabetizando é uma pessoa diferente, com diversas experiências vividas, com interesses peculiares que conduzem a um processo de formação e de conhecimentos de base também peculiares, tudo isso, em interação a resposta educativa que recebe e conforme é ajustada a sua necessidade.

A organização de uma resposta educativa deve ser bem estruturada, visando o público que deverá ser atingido para que este seja, de fato, atingido e a construção da aprendizagem não se torne restrita e limitada.
Não se pode referir-se a um alfabetizando, como sendo uma pessoa com incapacidades.

A psicologia sociocultural considera os alfabetizandos, como pessoas que tiveram um desenvolvimento diferente e que conduzem um tipo específico de conhecimento, caracterizado pela predominância dos aspectos perceptivos diante dos abstratos, pela experiência prática nos processos de dedução e raciocínio.

As dificuldades atribuídas aos alfabetizandos adultos, são associadas a situações muito específicas. Essas pessoas que na grande maioria vivem em condições menos favoráveis que os demais, são capazes de atuar com competência em outros contextos vinculados às necessidades cotidianas.

As peculiaridades do pensamento, da forma de enfrentar os problemas não podem ser analisados como necessariamente sendo uma desvantagem intelectual, são necessários que se interpretem essas peculiaridades no contexto de um desenvolvimento diferente, com características e qualidades próprias. Essa análise tem de ser feita junto ao contexto que o alfabetizando vive.

Através da inter-relação entre o mundo do alfabetizando, o processo educacional e a relação alfabetizador - alfabetizando, é possível constituir um processo formativo, onde todas as capacidades do alfabetizando são trabalhadas. Com isso o alfabetizando que freqüenta um curso de alfabetização consegue desenvolver-se e potencializar suas capacidades cognitivas ao mesmo tempo em que aumenta sua auto-estima e as possibilidades de inserir-se socialmente e de manter relações inter-pessoais equilibradas.

(*) Esse trabalho tem o objetivo de transparecer a importante posição do alfabetizador, na construção da auto-estima do alfabetizando e o desenvolvimento deste.
Pois nós, alfabetizadores somos aqueles que conduzem o alfabetizando no caminho para a conquista do mundo da leitura.