Página inicial > FSM WSF > FSM 2011 > Moçambique: violência sexista e exploração

Moçambique: violência sexista e exploração

sexta-feira 11 de fevereiro de 2011, por Terezinha Vicente ,

Encontrei Rebeca na assembléia de movimentos sociais, junto com o seu povo da Via Campesina, e pudemos conversar um pouco. Ela mora em Manhiça, a 80 km de Maputo, e é uma trabalhadora rural. Lá o analfabetismo é muito grande, sobretudo entre as mulheres, e também a violência.

Assim como no Brasil, foi há pouco tempo decretada uma “lei de família”, que garante igualdade entre os sexos, os direitos das mulheres e dos filhos. “Na prática isso não se concretiza”, diz ela, “devido à cultura e aos costumes tradicionais”. Aos homens é “permitido” ter outra mulher e, quando isso acontece, colocam a primeira para fora de casa. “A mulher perde inclusive a sua roça”, conta Rebeca, “e os filhos costumam seguir com ela, pois se ficam com o pai costumam ser maltratados pela outra”. Se ela fica renitente em sair, pode até ser assassinada pelo marido.

Esta é uma das principais lutas das mulheres em seu país, mas é muito difícil sensibilizá-las e mobilizá-las, embora haja vários tipos de violência contra a mulher. Na zona rural quase não há eletricidade, então não se tem acesso nem à televisão ou rádio, apenas em algumas cidades há rádios comunitárias.

Monocultura avança

A Via Campesina está organizada na África em vários países, Rebeca destaca a África do Sul, a Guiné e Congo, além de seu país. Outra grande luta é pela soberania alimentar, contra as monoculturas de eucalipto, soja e cana, que avançam. “Só no norte de Moçambique, há quatro grandes empresas de eucalipto”, nos conta. “Uma delas é brasileira, é a Vale do Rio Doce, que lá se chama Vale Moçambique”.

“Estão a procura de água por toda a parte, para o eucalipto”, denuncia, “e daqui a nada vão dar cabo da população toda”. Segundo a ativista, “os que trabalham para eles não tem as mínimas condições humanas de trabalho, não se respeitam os direitos humanos, são contratados em regime temporário, só existe trabalho na época das chuvas”. Com isso, a migração para o meio urbano cresce e também a prostituição, como aumentam as mães solteiras, segundo ela, pois os homens as engravidam e abandonam.

Não bastassem todas as guerras de libertação pelas quais passou o país, a forte entrada do capitalismo no campo degrada ainda mais a vida do povo de Moçambique, que tem 70% de população rural. Os mega projetos implementados fazem com que o PIB do país cresça, mas 50% da população continua abaixo da linha da pobreza.