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Catástrofe dos reatores nucleares no Japão: contagem regressiva

terça-feira 29 de março de 2011, por , C. G. Weeramantry C. G. Weeramantry

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O terremoto no Japão e os consequentes estragos nas centrais nucleares enviaram uma onda de choque e uma mensagem de advertência desesperada à população mundial. Apesar dos riscos evidentes, os reatores nucleares estão proliferando em todo mundo e semeando a poluição e as deformações congenitais para mil gerações futuras (a vida média do plutônio 239, um dos produtos derivados da atividade nuclear é de 24.100 anos).

As gerações que ainda não nasceram são, como nós, parte da humanidade mas elas não podem falar por si próprias. Tiramos proveito disso e as estamos prejudicando de maneira catastrófica através dos abusos que cometemos no meio-ambiente do qual somos apenas os sentinelas e não os proprietários. Cada simples cidadão é um fiduciário do meio-ambiente. Os governos são fiduciários e, nesses sentido, os ministros do meio-ambiente de todo o mundo carregam uma responsabilidade especial. Estamos faltando ao nosso dever se continuamos a tornar isso possível mesmo conhecendo as terríveis consequências. Nossa geração, e sobretudo aquelas que receberam em confiança o cuidado do meio-ambiente, vão ter que responder perante o tribunal da história pelas negligências e abusos dessa confiança. De fato, estamos cometendo o crime mais grave possível contra as gerações vindouras e o fazemos na total consciência do efeito de nossas ações.

Se as populações da Era da Pedra tivessem podido causar estragos ao meio-ambiente e deformações congenitais às nossas gerações, as teríamos condenado como selvagens, brutas, bárbaras. E ainda assim, não poderíamos acusá-los de conhecer os danos irreparáveis às gerações não nascidas. Nós, ao contrário, estamos completamente cientes dos danos catastróficos que causamos a essas gerações, e ainda assim continuamos essas atividades sem dar importância a isso, mesmo sabendo que mais cedo ou mais tarde os perigos serão reais. Continuamos a construir reatores nucleares através de todo o planeta.
Até mesmo uma criança sabe que nenhum poder na terra pode evitar os terremotos, os tsunamis, as guerras, as insurreições, as negligências da gestão política e outros desastres. Tudo isso ocorrerá inevitavelmente no decorrer do tempo e não somente sabemos dessa possibilidade, como sabemos que não é possível evitá-la. Isso nos torna infinitamente mais selvagens, brutos, bárbaros.

Numa época de suposto iluminismo, nós continuamos a construir mais reatores sem nenhum tipo de senso de responsabilidade, perseguindo interesses a curto prazo sem considerar os perigos e danos a longo prazo, para nossa posteridade. A energia solar e outros tipos de fontes duráveis de energia poderiam produzir toda a energia da qual o mundo necessita, mas nós preferimos ignorá-las pois há grandes negócios em jogo para uma minoria que se encontra implicada na indústria da energia atômica, mas para uma maioria e para os que ainda não nasceram, o preço a pagar é inestimável.

Como resultado, somos a geração mais destrutiva de toda a história humana, sem contar que destruimos o direito incontestável de nascer de bilhões de seres humanos para os quais somos os depositários de confiança nos cuidados ao meio-ambiente. Tomo a liberdade de chamar-lhes a atenção a este problema já que há mais de 30 anos faço campanhas contra as armas atômicas, os reatores nucleares e a devastação causada pelo nuclear.

Já em 1985, realizei uma viagem às grandes cidades do Japão, a pedido da Associação dos Cientistas do Japão, dando conferências sobre os riscos terríveis à humanidade que resultariam das armas atômicas, dos reatores nucleares e do lixo atômico. Igualmente, há aproximadamente trintas anos, em The Slumbering Sentinels: Law and Human Right in the Wake of Technology (Penguin, 1983, pp. 139-141) eu previ o perigo, ao referir-me aos possíveis escapes dos reatores e às possibilidades de grandes acidentes que ameaçariam a sobrevivência da humanidade.

Também me referi à possibilidade de medidas obrigatórias nacionais obrigando a esterilização das populações urbanas expostas a graves acidentes nucleares, para prevenir o nascimento de crianças com deformações congênitas, observando que "bastaria um acidente nuclear" para chegarmos a isso. Também observei que os danos materiais e sanitários às populações expostas a isso não poderiam ser estimados a menos de centenas de bilhões de dólares, nenhum tipo de seguro estaria à altura de cobrir. Já em 1982, a Commissão Reguladora do Nuclear (NRC, Nuclear Regulatory Commission) estimou os danos materiais e sanitários a um valor de 300 bilhões de dólares nas áreas a maior densidade populacional.

O escape nuclear de Harrisburg demonstrou, já naquele tempo, como estamos próximos de um acidente nuclear, a probabilidade de um acidente em algum lugar do mundo, estimada em 5 à 10 % nos próximos anos. Mas todas essas previsões de possíveis catástrofes foram cobertas pelas forças políticas combinadas aos interesses econômicos daqueles que defendem a propagação da energia atômica.

Na minha Opinião dissentig no caso em que a Corte Internacional de Justiça buscou uma Opinião Consultativa acerca da legalidade das armas atômicas, discuti a possibilidade dos danos dos reatores nucleares e das doses letais de radiação às pessoas expostas num raio de 250 quilômetros e a contaminação do ambiente num raio de 950 quilômetros ou mais. Também discuti a destruição causada em Chernobil, mesmo anos após o acidente, de toda espécie de vida a mais de mil quilômetros quadrados ao redor, de maneira a necessitar de todo o pessoal médico, provisões e equipamento da qual dispunha a ex União Soviética, tornando escassos os recursos até para uma nação tão poderosa. Estados menores seriam completamente arrasados num evento deste tipo, numa penúria de recursos, de meios de sobrevivência, de meios de trabalho e produção que não seriam recuperáveis antes de muitas gerações. Os danos à saúde incluem convulsões, problemas vasculares, ataques cardiovasculares, queloides e câncer.

Tendo discutido todos esses riscos em julgamentos, publicações e conferências através do mundo por tantos anos, fico consternado ao perceber que minhas piores predições estão se tornando realidade, e que o pior do pior poderá vir, se continuarmos a trair a confiança e a dar às costas à responsabilidade que devemos aos nossos filhos e aos filhos de nossos filhos.

Qualquer ação em nome da abolição dos reatores nucleares será incompleta sem a referência ao problema de eliminar o lixo atômico. O lixo atômico acarreta todo tipo de perigo à saúde e ao meio-ambiente e não se conhece uma maneira eficaz de eliminar esses resíduos tóxicos. Que esse lixo seja enterrado nas profundezas do oceano ou da terra ou de leitos salinos, ou qualquer outro lugar, nada garante que ele fique seguro no seu depósito, e nós estaremos infligindo esta fonte de danos físicos e ao meio-ambiente às futuras gerações, de um modo totalmente injustificável à toda moral e lei.

Outro perigo, que por si mesmo já seria suficiente para abolir totalmente os reatores nucleares, é que o lixo atômico de centenas de reatores não pode ser realmente estimado, e que até mesmo a Agência de Energia Atômica (IAEA) não possui uma estimativa total. Esse material é a matéria bruta necessária para a fabricação de armas atômicas e há aqui um convite aberto aos terroristas de todo o mundo a interessar-se nas armas atômicas. Isto é particularmente perigoso num mundo no qual as instruções para construir armas nucleares encontram-se disponíveis na Internet, como me garantiram físicos de grande renome.

Resulta daí uma violação de todo princípio de lei humanitária, de lei internacional, de lei relativa ao meio-ambiente e de lei relativa ao desenvolvimento sustentável. A sabedoria tradicional de povos como os índios americanos costumava ordenar que nenhuma decisão grave relativa à comunidade seria tomada sem considerar o seu impacto às sete gerações posteriores. A sabedoria africana prega que nenhuma decisão de grande importância afetando a comunidade deverá ser tomada sem ter em mente a face tripartite da humanidade: os que vieram antes de nós, os que estão vivos e os que virão.

Nossa civilização, moderna e tecnológica, despreza essas sabedorias tradicionais e ainda por cima despreza um princípio decisivo, segundo o qual devemos avançar cautelosamente sobre a terra, princípio que fundamenta toda lei do meio-ambiente (eu desenvolvi esses aspectos em Tread lightly on the earth: Religion, the Environement and the Human Future, Stamford Lake, 2010).

Não é apenas a sabedoria tradicional que desprezamos mas sim a sabedoria das religiões do mundo, que convergem numa mesma preocupação pelos povos futuros. Jesus Cristo advertiu que mais valeria para aqueles que colocam obstáculos no caminho das crianças ter uma pedra amarrada ao pescoço e afogar-se no oceano. O Corão diz que os verdadeiros seguidores do Todo-poderoso são aqueles que caminham com precaução sobre a terra. O budismo ensina que nem mesmo o soberano é dono da terra, mas apenas o seu fiduciário, e o hinduísmo prescreve em detalhe os deveres do soberano de cuidar e proteger o meio-ambiente de cada região em sua responsabilidade. O judaísmo também, em diversos ensinamentos, eleva em primeiro grau de importância a proteção do meio-ambiente.

Todos esses aspectos deveriam chamar a atenção dos ministros encarregados do meio-ambiente, numa época na qual este se encontra ameaçado como nunca antes, como nunca durante os milhares de anos da existência da humanidade no planeta.

Eu peço urgentemente a vocês, sentinelas do nosso meio-ambiente, que considerem a necessidade imediata de cessar as construções de novos reatores, de explorar outras alternativas energéticas e melhorar aquelas já existentes. As populações de todo mundo devem ser alertadas dos perigos diante dos quais nos deparamos. O fluxo unilateral da informação que insiste nos benefícios da energia nuclear tem que ser revertido.

Falhar nessas medidas resultará num crime contra as gerações futuras e na traição dos deveres que devemos aos nossos filhos, aos filhos de nossos filhos e assim por diante. Vocês estão numa posição em que podem ter um papel fundamental para gerar a crise. Este é um apelo a vocês, enquanto representantes responsáveis pelo nosso planeta, a fazer tudo que esteja em seu poder para evitar a catástrofe que entrevemos.

O tempo corre. Por favor, ajam agora.