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Enchentes em Santa Catarina: tragédia natural ou descaso social?

sexta-feira 9 de setembro de 2011, por Michele Torinelli ,

Todos os anos a mesma história se repete: enchentes assolam as cidades do Vale do Itajaí. Mas uma importante questão continua sem resposta: como podemos evitar essas tragédias anuais?

Rio Itajaí-Açu inunda as ruas de Blumenau. Imagem: Fábio Ricardo Oliveira.

Todos os anos a mesma história se repete: enchentes assolam as cidades do Vale do Itajaí. Dessa vez, as águas já deixaram cerca de 50 mil pessoas desabrigadas na região. A imprensa em geral divulga, além das tragédias pessoais, os dados dos impactos e as providências do poder público:

Blumenau sofre pior enchente dos últimos 20 anos

Mais de 48 mil pessoas já deixaram suas casas por conta das chuvas em Santa Catarina

Mas uma importante questão continua sem resposta: como podemos evitar essas tragédias anuais? Não encontrei essa informação na "grande mídia". Por isso reproduzo abaixo trechos de uma reflexão de Caio Floriano, oceanógrafo e mestre em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Sócio Ambiental pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).

Ao assistir repetidamente as imagens e as notícias sobre esta “tragédia” percebo uma ênfase constante na divulgação do número de vítimas, número de pessoas atingidas e casas condenadas, porém, não vi em nenhum momento um debate mais aprofundado sobre as causas que levaram a estes acontecimentos.

Torna-se comum e rotineiro achar que foi apenas uma “catástrofe natural” e que não temos nada a ver com a situação. Não consigo ver uma discussão aprofundada sobre as causas e possíveis soluções para amenizar estas situações.

Fica evidente que estamos sempre esperando que fatos como estes não ocorram ao invés de trabalharmos para evitar/amenizar os mesmos. Ao pararmos para discutir estas catástrofes dois discursos são sempre bem marcantes, que são eles:

“Falta” de Planejamento: especialistas apontam a falta de planejamento como um grande motivo para que as situações de desastres se agravem, colocaria que não se trata da “falta” e sim a forma que planejamos. Esta forma está sempre associada a interesses particulares, desconsiderando quase que por completo os interesses da coletividade e as questões ambientais. E fica evidente que apesar de considerarmos a falta e/ou a forma de planejamento um grande problema não se vê qualquer esforço dos nossos governantes para mudar o mesmo.

Falta de Recurso: quando soluções são apresentadas para se evitar o problema, os nossos governantes têm sempre a resposta na ponta da língua: FALTAM RECURSOS. Porém, quanto perdemos a cada tragédia/catástrofe natural? Assistimos no Brasil o uso inadequado do recurso público e achamos isto normal, mesmo que isto afete a execução de uma obra fundamental para e evitar/amenizar novas tragédias/catástrofes naturais.

Discursos recorrentes e que não possuem mais qualquer coerência sem uma efetiva ação. É necessário mudarmos a situação vigente, mesmo que para isso tenhamos que realizar ações que gerem um desgaste de imagem com alguns setores da sociedade. Não podemos mais desconsiderar os fatos recorrentes como fizeram os líderes mundiais na conferência de Copenhague na Dinamarca.

Mas, ao que tudo indica, vamos ter em breve novos eventos com consequências cada vez maiores. Os recorrentes desastres naturais nos apontam que temos que tomar atitudes urgentes e colocar em voga toda nossa atual relação com o Meio Ambiente - rever a forma como pensamos e trabalhamos a questão ambiental é provavelmente hoje a maior prioridade mundial. Mas para isso o Brasil precisa de políticas ambientais sérias e eficazes, que sejam capazes de compreender os interesses da coletividade.

Na contramão

Apesar da popularização da pauta ambiental, há indícios de que as políticas públicas não amenizam erros cometidos no passado e nem evitam sua perpetuação - pelo contrário, continuam repetindo os mesmos equívocos. Segundo Ali Assumpção, jornalista e professora do Instituto Blumenauense de Ensino Superior (IBES), um dos grandes erros é considerar que o leito do rio é apenas o espaço que ele normalmente ocupa quando esté com uma vazão baixa ou média. "O leito de um rio é muito mais, é todo o espaço que ele tende a ocupar em suas cheias - e nossa cidade foi construída exatamente dentro do leito do rio. A administração pública teima em contrariar a lei federal de ocupação das margens, insiste em dizer que é menor... Até o hospital público, recém ampliado, foi construído em cima do rio. A própria prefeitura está extamente sobre a foz do ribeirão da Velha, onde desemboca no rio Itajaí. E por aí vai", denuncia a jornalista.

Outra questão são as matas ciliares. "O prefeito propôs, após as enchentes de 2008, um projeto para concretar a margem esquerda do rio, ali no centro da cidade, enquanto tudo indica para o replantio da vegetação nas áreas devastadas e em processo de assoreamento", complementa.

Redes sociais

Mas é evidente que além de discutir as causas políticas, ambientais e sociais das enchentes em Santa Catarina, é preciso socorrer aos atingidos. As redes socias estão sendo importantes ferramentas para facilitar o auxílio e a cooperação coletiva.

Além dos tradicionais veículos de comunicação, é possível achar muita informação sobre as enchentes nas redes sociais - basta procurar por #enchente ou #chuvasSC. As comunidades estão se organizando em coletas e mutirões pelo Facebook e Twitter, utilizados também para compartilhar informações de inundações e serviços públicos.

Doações

Mais de 48 mil pessoas deixaram suas casas devido a chuva em Santa Catarina e esse número pode aumentar nas próximas horas. Essas pessoas saem muitas vezes com a roupa do corpo e tem de contar com a solidariedade. Algumas instituições já estão mobilizadas para ajudar as famílias com artigos de necessidade básica como roupas e alimentos.

As doações devem ser de roupas (especialmente agasalhos), água, alimentos não perecíveis, e artigos de higiene e limpeza com : fraldas, shampoo, creme dental e escova de dente. A Cruz Vermelha também disponibilizou uma conta para doações em dinheiro, mas é importante lembrar que pessoas físicas não estão autorizadas a arrecadar dinheiro em nome da entidade.

O material arrecadado será distribuído pelas próprias instituições em abrigos e bairros atingidos. (Fonte: Diário Catarinense)

Saiba como doar

Veja também: histórico das enchentes na região.

Mais notícias sobre as enchentes no Vale do Itajaí:

http://www.clicrbs.com.br/especial/sc/jsc/19,6,3480393,Vale-do-Itajai-vive-pior-enchente-desde-1984.html

http://www.mochileiros.com/enchentes-em-blumenau-e-no-vale-do-itajai-08-09-2011-t59903.html

http://noticias.r7.com/cidades/noticias/moradores-usam-redes-sociais-para-mostrar-situacao-de-cidades-alagadas-em-sc-20110909.html