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Bogotá tinge-se de lilás

quinta-feira 24 de novembro de 2011, por Terezinha Vicente ,

A rica diversidade do nosso continente está plenamente representada pelas 1.200 mulheres participantes do 12º Encontro Feminista Latino Americano e do Caribe, que acontece em Bogotá, Colômbia.

O som dos tamborzinhos típicos colombianos, entregues às mulheres na entrada do grande salão do hotel, aliado a cantos históricos do feminismo, mostrava a alegria e a disposição de luta das latinoamericanas (e algumas de outros continentes) presentes para o encontro que ia começar. Fizeram-me ter esperança de quebrarmos o militarismo presente neste país, visto nas ruas onde circulam muitos políciais e militares, e sobretudo no hotel Tequendama, onde ocorre o encontro. A organização do hotel expõe, na maneira de organizar os serviços de que necessitamos, a cultura militar vigente por aqui, o que tem gerado alguns protestos.

Polifonia dissidente

É grande o número de colombianas, de todas as regiões, participando desta histórica reunião feminista, que comemora trinta anos do 1º Encontro, realizado também em Bogotá. Um vídeo relembrando o movimento desde os anos 60, mas especialmente detendo-se nas décadas a partir dos 80, quando começou este processo, emociona muitas das presentes. A criatividade das mulheres continua no microfone que anda pela plenária, por mãos de organizadoras deste 12º Encontro, que nos dão as boas vindas, nominando algumas, simbolizando todas.

Feministas históricas nos Encontros

"30 anos de Feminismo Latino-americano e do Caribe: desatar, despir e reatar" é a proposta a ser desenvolvida neste encontro. Olhar o caminho percorrido nestas tres décadas, "com o objetivo de desatar os nós que fomos amarrando, reatar os debates e diálogos fechados, desnudando os corpos, as consciências e as apostas politicas por uma vida digna, livre e autônoma para as mulheres". A palavra é para circular no encontro, como na abertura, a polifonia de vozes foi a metodologia escolhida, "para que soem todas as diferentes vozes que aqui estão".

Polifonia histórica

Mirar os nós, os problemas com que o feminismo se depara hoje, começou com "histórias antigas das feministas neste continente". Participantes ativas na organização dos outros Encontros Feministas foram convidadas pela organização a recordar outras décadas, dizendo-nos das propostas, da incidência na sua subjetividade e no significado para a emancipação das mulheres.

Tivemos desde a "hippie" colombiana e educadora, "com orgulho", Main Suasa, que nos contou desde a década de 70, quando a contradição no movimento feminista era posta pela "ditadura do proletariado", defendida pelos partidos de esquerda. Para ela, e para outras (e muitas estão aqui desde o 1º Encontro), o feminismo venceu quando se deu a polarização entre este e a política partidarizada. "Ser feminista é o que permite hoje, aos 63 anos, que eu não seja uma mulher amarga".

"Todas começamos um pouco transgressoras", falou Gina Vargas, do Peru. A feminista lembrou que a sua geração toda militou em partidos de esquerda, pois a América Latina vivia grande opressão política. "As feministas são flores sem regar", frase ouvida por Gina foi um dos motivos que a fez tornar-se feminista e uma das organizadoras já no segundo encontro. A brasileira Amália Fischer escolheu homenagear todas as mulheres que a levaram ao feminismo, a começar da sua dentista da época, que lhe emprestou o dinheiro para que ela pudesse vir a Bogotá para o primeiro encontro. "Faz-me falta aquele tempo em que éramos capazes de parar um encontro se houvesse um problema entre nós".

desatar os nós...

Pela história deste hotel, historicamente ligado aos militares, ele foi “ressignificado”, chamando-se nestes dias Hotel Maria Cano. As salas para os debates, em torno de 14 provocações que foram lançadas, foram batizadas com nomes de notórias feministas que fizeram história. Infelizmente, isto não impediu a circulação de militares e policiais pelo hotel, que cumprem suas tarefas de “segurança”. Mas dificilmente este espaço tenha recebido um evento tão alegremente barulhento – boa parte das brasileiras reuniu-se hoje, num dos intervalos, e animaram o saguão do hotel cantando algumas músicas referencia para o movimento de mulheres.

Encontros no Encontro

Os temas pelos quais se dividiram as mulheres a partir de hoje, constam de provocações e neste momento trata-se de desatar os nós e desnudar os problemas, em relação à: Violências; Feminismos, postfeminismos; Direitos humanos das mulheres: reforma legal feminista; Corpos políticos: sexualidade, direitos sexuais e direitos reprodutivos; Mulher, poder e política; Pluriculturalismo e multi-identidades; Autonomia e feminismo; Autocuidado, proteção e feminismo; Estados laicos; Redistribuição, reconhecimento e justiça; Divisão sexual do trabalho; Dos onze encontros: a coisa em si; A guerra e as violências; Arte, cultura e feminismo.

as argentinas trouxeram a campanha pela legalização do aborto

Além desses grupos de debate, haverá ao final das tardes diversas atividades propostas por organizações ou pessoas, parte do Encontro que se chamou “Encontros no Encontro”: lançamentos de livros e campanhas, oficinas, painéis e mesas de discussão, além de exposições e eventos culturais fora do espaço do encontro. As 1.200 mulheres aqui reunidas participarão amanhã, dia 25 de novembro – Dia Latino Americano de Luta contra a Violência à Mulher, de ato político e concerto no centro de Bogotá.

Seguindo a tradição milenar das mulheres, a abertura do 12º Encontro não poderia prescindir de um ritual. Nem de uma atividade cultural, que foi realizada no Teatro Municipal (rebatizado Débora Arango), após a abertura política. Iniciado com uma percussão maravilhosa, acompanhada pelo som de todos os tamborzinhos (coisa linda), continuou com uma cerimonia de enredar-se, desatar nós, construindo uma mandala coletiva, numa dança de corpos celebrando 30 anos de feminismo.

Reatar laços e ações, construir para o futuro