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Novas perspectivas no processo FSM?

quarta-feira 1º de fevereiro de 2012, por Chico Whitaker, Chico Whitaker Chico Whitaker

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Nova etapa terá que ser marcada por uma mudança radical no modo de organizarmos nossos eventos e de nos comunicarmos com o mundo.

Chico Whitaker, janeiro de 2012

O “futuro do FSM” - menos dos seus eventos e mais do processo deles nascido - é tema recorrente nos Foruns Sociais Mundiais. A partir de 2004 em todas as suas edições há pelo menos uma oficina em que é debatido. Ele parece se tornar mais aflitivo à medida em que passa o tempo, organizadores se cansam, diminui o número de participantes nos eventos mundiais e nas reuniões de seu Conselho Internacional, diminui o interesse de grandes organizações e movimentos.

Mas o FSM continua vivo. Eventos regionais podem ter se esvaziado, como os Foruns Sociais Europeu e das Américas, mas em outros lugares o processo se reforça, como nos Estados Unidos, e se expande, como no Magreb, em que todo o mundo árabe está sendo atingido. Vimos tambem, na reunião do Conselho Internacional de Dakar, como se multiplicaram os Foruns Sociais temáticos. E uma das mais próximas expressões dessa vitalidade está sendo a grande manifestação que o Forum Social Catalão promove em Barcelona, em janeiro deste ano, nas mesmas datas do Forum Economico Mundial de Davos e em contraposição a este. Este evento marca mais uma vez a oposição de nosso processo aos ditames desse Forum, reforçando a dinâmica inaugurada em janeiro de 2001: o primeiro Forum Social Mundial surgiu para mostrar que existe uma alternativa à dominação da lógica do mercado, discutida pelos “donos do mundo” em Davos.

Não deixa também de ser significativa, nessa vitalidade, a dimensão que ganhou o Forum Social Temático de Porto Alegre em janeiro de 2012 em preparação à Rio + 20. Apesar de ser um Forum Local, da Grande Porto Alegre, atraiu mais de 600 atividades auto-organizadas, com participantes de todo o mundo. E no momento em que escrevo este texto ainda não é possivel saber quantas pessoas reunirá, mas seguramente será um número próximo de um Forum Social Mundial.

Nossos eventos tambem nos permitiram avançar muito, ao criar condições para a superação de muitas das separações que nos dividem e nos enfraquecem. Muitos preconceitos foram superados na relação entre movimentos e entre organizações, muitas novas redes foram criadas em diferentes áreas e situações. Varias dessas redes tem uma dimensão planetária. A fundamental mas dificil união entre os que lutam pela mesmas causas começou a ser construida em vários setores.

Outros objetivos do FSM estão também em curso de realização, embora ainda longe de serem plenamente alcançados. Tal é o caso da expansão de sua mensagem de esperança - “outro mundo é possivel” - a todos os rincões do planeta. O mesmo se passa com a construção de uma nova cultura política, fundada no aprendizado mútuo, na reflexão coletiva, no respeito à diversidade, na horizontalidade das redes, em que se estimula a cooperação e não a competição entre seus participantes, com decisões tomadas por consenso e não por votações que afastam ou excluem as minorias.

Na verdade, esse ambicioso propósito de nos reeducarmos a nós mesmos é extremamente demorado. Ele exige o abandono de práticas moldadas em mais de cem anos de ação politica verticalizada, dentro da propria esquerda, que propugna pela mudança mas aceita o autoritarismo, a violência, o principio dos fins justificando os meios, a instrumentalização dos outros em beneficio dos proprios objetivos. Por isso mesmo no processo do FSM há ainda Foruns que têm “coordenadores” - quando não são “presidentes”... - ou que atuam como entidades permanentes, obviamente com seus “donos”, em vez de serem processos de criação de espaços abertos, como “bens comuns” não passiveis de privatização. Nem falemos de centralizações do poder organizativo que ainda ocorrem...

Mas o esforço por tais mudanças está sendo estimulado por novidades como a chamada “primavera árabe”, os “indignados” na Espanha e o “Ocupemos Wall Street” nos Estados Unidos, entre outras mobilizações que estão surgindo no mundo. Elas são de um tipo novo, mas na verdade muito próximo das intuições dos promotores dos FSM, pela sua abertura, organização horizontal e respeito da diversidade, inexistência de dirigentes, aprendizado mutuo. E tambem pela constatação básica dos limites dos partidos como forma única de participação política e da distância que hoje separa os diferentes tipos de dirigentes - governamentais, sindicais, partidários - da base da sociedade. Por isso mesmo o que começou a ocorrer nas “praças” do mundo está “re-inspirando” experiências do processo FSM a nivel local.

É bem evidente no entanto que a luta pela superação do neoliberalismo - objetivo primeiro do FSM - está muito longe de ser vitoriosa, ainda que se multipliquem as análises mostrando as atuais dificuldades - que os mais otimistas consideram terminais - desse gato de sete fôlegos que é o capitalismo. Inclusive porque, tendo perdido os freios invadindo o mundo inteiro depois da queda do muro de Berlim, sua lógica conquistou - constrangedoramente para todos nós - até a China, esse grande reduto “socialista” de mais de um bilhão de pessoas, que hoje assegura, dentro do “mercado” mundial, a continuidade do sistema capitalista, ainda que possa mudar a potência hegemônica dentro dele.

Dentro desse quadro nem falemos dos riscos que corre cada vez mais celeremente a humanidade, do ponto de vista ecológico: as oligarquias do poder dominante não querem de forma alguma parar a poderosa máquina industrial produtivista que - mais alem do complexo industrial-militar - transforma direitos em capacidade aquisitiva, exacerba o consumismo e o desperdicio que o acompanha, e tende a tornar inviável a vida no planeta Terra.

É fundamental portanto discutir e re-discutir continuamente os rumos do processo do FSM e a realizão efetiva de seus diversos objetivos. Menos mal que no seio do seu Conselho Internacional há interesse nisso, pelo que se pode concluir da receptividade dada a uma proposta de reunião informal dos membros desse Conselho que estivessem em Porto Alegre, participando do Forum Social Temático de janeiro de 2012. Estamos seguramente nos aproximando de uma nova etapa no processo FSM.

Como continuar?

Certamente não se trata de modificar a Carta de Principios do FSM, que tem sido o que permitiu os avanços obtidos no processo. Seus preceitos estão sendo adotados pelas novas mobilizações que surgem no mundo, e que são outros tipos de “espaço aberto”. A Carta também se afina com esses novos “espaços” quando afirma que nos Foruns Sociais não há lugar para “lutas pelo poder” ou para “declarações finais” que pretendam sistematizar, de cima para baixo, posições que seriam de todos. O mesmo ocorrre com outras orientações adotadas na prática do processo, como a de abrir nossos espaços preferencialmente para atividades auto-organizadas pelos proprios participantes, ou a de nossos organizadores passarem a se auto-dominar “facilitadores” para evitar confusões com funções de direção.

Em minha opinião no entanto essa nova etapa terá que ser marcada por uma mudança radical no modo de organizarmos nossos eventos e de nos comunicarmos com o mundo.

Uma primeira mudança radical é no objetivo de cada encontro. Temos o maior prazer em participar deles, como o demonstra seu caráter festivo e a alegria que neles reina, construida pela confiança e disposição para a ajuda mutua. Mas são encontros nossos conosco mesmos. Reunem-se pessoas que compartilham profundamente o desejo de mudar o mundo, como grande objetivo final, apesar das naturais diferenças em nossas ações e mesmo interpretações sobre o que fazer. São tipicos de nossos encontros mundiais as efusivas saudações dos primeiros dias, na alegria de reencontrarmos companheiros e companheiras de luta. Saimos reforçados em nossas convicções - aprendemos muita coisa nova - e animados a prosseguir - fazemos novas alianças e novos projetos. Constatamos que somos muitos.

Mas o que estariam pensando aqueles que estão do lado de fora das cercas de nossos espaços “abertos” - vários Foruns Mundiais aconteceram com grades e portões de entrada vigiados e controlados, por questões de segurança... Estamos convencidos do acerto de nossas verdades. Mas o que pensam delas aqueles que não estão participando dos nossos Foruns ou de nossas lutas? Uma coisa é certa: pelo resultado de suas escolhas, nas eleições de nossas pobres democracias representativas, parecem acreditar em outras verdades... Como as maiorias - manipuladas, insatisfeitas ou revoltadas - veem nossas propostas? Têm elas conhecimento do que já tivemos o privilégio de saber sobre os mecanismos que governam o mundo, sobre os meios usados pelos poderosos para explorar os seres humanos e a Mãe Terra, sobre as causas das guerras que matam milhões, sobre as especulações milionárias com o dinheiro e com os proprios alimentos? Etc., etc., etc...

Em artigo que acabo de enviar a pessoas proximas ao Forum Social Norteamericano, sobre o movimento “Ocupy Wall Street”, que lançou a imagem do “somos 99%, vocês 1%”, escrevi o seguinte:

Em primeiro lugar, nós não somos 99% contra 1%. Aqueles que já têm a coragem de falar são muitos, mas talvez não mais do que 1%, contra o 1% que controla e explora o resto do mundo. Vamos comparar números: quando 15 milhões se levantaram em todo o mundo em fevereiro de 2003 contra a guerra e a invasão do Iraque (nossa maior manifestação, "a maior na história da humanidade", de acordo com o Guinness Book, que nos deu a sensação de sermos muito fortes), nós éramos 0,25 da população mundial. Os maiores FSM juntaram 150.000 pessoas: 0,0025 da população mundial ou 0,1 da população brasileira (e não éramos apenas brasileiros em Porto Alegre em 2005 e em Belém em 2009...). Qual é a proporção entre os participantes do United States Social Forum e a população norte-americana? E qual é a soma de todas as pessoas participando de movimentos “occupy” em toda a América do Norte? Seria bom se pudéssemos ter melhores números…

Em segundo lugar, e este é o nosso problema: nós estamos na verdade (no processo FSM e nas lutas Occupy) ainda falando apenas entre nós. Ou seja, estamos falando entre pessoas já convencidas de nossas próprias mensagens.

Este raciocínio leva-me a dizer que precisamos mudar nossa estratégia. Precisamos voltar-nos para o 98% (se aqueles que controlam o mundo são realmente 1% e nós chegamos a ser 1%). Digo isto pensando em nossos fóruns sociais (naturalmente o norte-americano e outros em outros lugares), mas também nos movimentos "occupy" e "indignados".

Se não fizermos isso, esses 98%s continuarão a eleger pessoas não tão boas para nos representarem e continuarão a aceitar o que eles decidirem sobre nossas vidas. Ou continuarão, como carneiros supostamente felizes, a contribuir como consumidores insaciáveis para fazer girar mais rapidamente a máquina de produção industrial (construída em todas as formas e locais possíveis e usando todos os tipos de energia e cada vez menos mão de obra…) para multiplicar o dinheiro que aparecerá nos computadores de Wall Street.

Sabemos que uma boa parte destes 98% está apenas tentando sobreviver e muitos não tem nem mesmo a força física para protestar; outra boa parte está feliz com o progresso tecnológico incrivelmente rápido de seus bens e equipamentos de conforto e de seus gadgets; e uma outra porção (quantos?) está insatisfeita ou preocupada com questões como a justiça social ou o meio-ambiente e com as perspectivas do que está acontecendo no mundo.

Nosso maior desafio é como nos voltarmos pelo menos para esta última parte de nossa sociedade.

Como?

Continuando, procurei responder, nesse texto, à dificil questão do “como”:

Temos de continuar a organizar reuniões bonitas e entusiasmantes onde, de uma forma democrática e autogestionada, dizemos o que estamos fazendo, ficamos sabendo o que outros estão fazendo, decidimos sobre protestos, ações de desobediência social, manifestações. Isto é bom e necessário, e ajuda a nos articularmos para construir a união que nos dará a força que precisamos.

No entanto, o que temos que fazer também, tão urgentemente quanto possível, é tornar a parte insatisfeita e preocupada dos 98% ciente dos mecanismos econômicos e políticos e dos comportamentos que explicam sua insatisfação e suas preocupações. Além disso, temos de levá-los a ter confiança em sua (e nossa) capacidade de mudar o mundo.

Não podemos no entanto fazê-lo através da grande mídia, sempre fechada para nós ou pronta para distorcer o que dizemos. Temos de “falar” diretamente com as pessoas a quem queremos transmitir as informações que nos convenceram de que "um outro mundo é não apenas possível, mas necessário e urgente". Organizar encontros ou outros tipos de ação com esses objectivos exige muita criatividade. Temos agora no entanto a ajuda dos bons ventos vindo dos movimentos “occupy”.

Se, então, chegarmos a ser efetivamente 1%, seremos, nos numeros de hoje considerando uma metade de adultos, 35 milhões nas ruas; e se formos 10%, 350 milhões de trabalhadores, consumidores, eleitores, cidadãos... Poderiamos mudar o mundo?

Em outro artigo, em que “sonhei” o que poderiam fazer os “indignados” da Espanha, escrevi:

Vi os “indignados” de muitos lugares começarem a levantar acampamento. Não para desistir do que estavam fazendo mas para mudar sua estrategia. Constataram que estavam se isolando do restante da sociedade. Esta tinha dificuldade em compreendê-los. Os meios de comunicação de massa a serviço do poder dominante espalhavam, para toda a população, dúvidas sobre o que estariam realmente pretendendo, e os apresentavam como incapazes de dar respostas aos problemas que levantavam, como se fossem jovens utópicos sem compromisso com a realidade. A partir daí era fácil passar a acusá-los de desocupados e inconsequentes. E, em seguida, de baderneiros e drogados. Os acampados começavam a ser vistos como corpos estranhos e indesejáveis no coração das cidades. Havia até quem empurrasse para dentro dos acampamentos os muitos "sem teto" moradores de rua. Com tudo isso a sociedade passava a aceitar que a repressão procurasse desalojá-los, até com violência.(,,,)

Muitos dos que tinham vindo para as praças começavam a se cansar, mesmo fisicamente, até porque surgiam novas dificuldades como o frio e a chuva. Por mais interessantes que fossem as palestras e discussões que aconteciam, as descobertas que faziam, o aprendizado da autogestão, a solidariedade que crescia, percebiam que era muito difícil manter indefinidamente ou por muito tempo seus acampamentos, quando não era a repressão que os desalojava.

Da praça central à guerilha cívica

Decidiram então começar uma nova fase de luta, que chamaram de “guerrilha cívica”.

Passaram a marcar uma assembleia geral a cada quinze dias, em fins de semana, em diferentes lugares da cidade. (...) Essas assembleias gerais duravam toda uma manhã ou toda uma tarde. Elas criavam em primeiro lugar uma ocasião para reencontrar-se festivamente. Mas o principal era a troca de ideias e informações sobre as praças em que, no fim de semana seguinte, todos iriam desenvolver, ao mesmo tempo mas de forma descentralizada, as atividades que até então ocorriam no acampamento.

No fim de semana seguinte, portanto, eles se distribuiam pela cidade, cada “indignado” ou grupo de "indignados" escolhendo, livremente, a praça em que iria. Assim, eles espalhavam sua presença na cidade, no máximo possível de praças diferentes, em seus bairros centrais e periféricos, o que inclusive dificultava a ação da repressão.

Nessas praças acontecia então algo parecido com os Fóruns Sociais Locais: palestras, oficinas, debates, apresentações teatrais, música, danças, exibição de filmes, cada atividade preparada pelos “indignados” que as propunham, e que levavam ao local os equipamentos necessários para realizá-las. Em muitos lugares havia os que montavam creches para cuidar das crianças e ocupá-las com atividades educativas.

Para preparar essas atividades eles contactavam previamente intelectuais e ativistas que pudessem explicar melhor um bom número de coisas, assim como movimentos, associações e ONGs para contar o que faziam e as novas ideias que estavam propondo e experimentando, quanto à forma de organizar a economia, a politica, a democracia. Convidavam também pessoas que podiam dar testemunhos de vida e de luta, assim como autores de filmes, peças de teatro e canções a virem apresentá-los e debatê-los na praça.

Muitos iam então, durante a semana, ao bairro onde iriam desenvolver essas atividades e visitavam seus moradores. Nessas visitas eles procuravam explicar porque viriam àquela praça do bairro, porque se autodenominavam “indignados”, que utilidade tinha para esses moradores o que aconteceria na praça. Conversavam com eles sobre tudo que estes achavam que não ia bem no seu bairro, no pais, no mundo, nas suas próprias vidas.

Mostrando que se podia mudar as coisas, procuravam acender neles a luz da esperança de que “outro mundo é possível, e mesmo necessário e urgente”. E os convidavam a virem participar do dia na praça, para conhecer e pensar as saídas que existem para os problemas que viviam.(...)

Essa era a grande diferença em relação aos Foruns Locais do FSM: as atividades eram destinadas principalmente aos moradores do bairro e não somente aos companheiros e companheiras de luta.

Universidade aberta

No meu sonho vi então esses encontros de bairro se multiplicarem, pela cidade afora, com uma variedade enorme de questões e temas levantados. Havia palestras e oficinas sobre o funcionamento perverso da economia globalizada e sobre o uso que hoje se faz de robôs para decidir onde investir nas Bolsas, destruindo irresponsavelmente economias nacionais. Havia peças de teatro denunciando como a especulação imobiliária torna impossível resolver o problema de habitação de todos. Havia debates sobre a forma como o sistema capitalista procura resolver suas crises, sempre fazendo com que os mais pobres as paguem e como, na lógica desse sistema, tudo - até a vida, o corpo, as doenças das pessoas - era transformado em meio de ganhar dinheiro. Havia debates sobre a necessidade de, em eleições, sempre procurar eleger o melhor candidato, e sobre como se reunir com outros para saber qual era o melhor. E sobre a necessidade de, uma vez eleito o candidato escolhido, continuar acompanhando sua atuação e mesmo ajudá-lo, em vez de abandoná-lo no meio dos lobos para que seja comido pelos lobos ou se transforme ele tambem em lobo. Exibiam-se filmes didáticos mostrando como o consumismo e sua exacerbação fazem girar cada vez mais depressa a maquina industrial de produção de coisas cada vez menos duráveis, incentivando o desperdício, consumindo cada vez mais recursos naturais, necessitando cada vez mais energia e poluindo cada vez mais o planeta. E como consumidores conscientes e organizados podem parar essa máquina infernal. Discutia-se porque é preciso respeitar a natureza e viver em harmonia com a Mãe Terra e com os demais seres humanos. Explicava-se o que são os bens comuns da humanidade e porque não podem ser privatizados. Mostrava-se também que é possível ter moedas alternativas como meio de troca, que nos liberem da escravidão em que o dinheiro e a busca do dinheiro nos joga. Havia demonstrações de meios alternativos de locomoção, e apresentação da enorme quantidade de recursos publicos que são enterrados em grandes obras destinadas a facilitar o trânsito de carros, em detrimento do transporte coletivo, ao mesmo tempo em que se joga cada vez mais carros para dentro das cidades. Mostravam-se documentários sobre lutas que tinham ocorrido contra a injustiça e a desigualdade, sobre as condições de vida nos países pobres enquanto se especula com os preços dos alimentos e nos paises ricos se joga no lixo grandes quantidades de alimentos, ou sobre as razões dos países pobres estarem cada vez mais pobres, sobre os dramas vividos pelos imigrantes, sobre os perigos vividos pelos que procuram chegar nos paises ricos e sobre o numero de mortos entre os que tentam fazê-lo. Explicava-se como era possível reagir aos absurdos do sistema econômico dominante, contestando-os pela desobediência civil ou outros tipos de ação de resistência. E porque a geração de energia com reatores nucleares é a forma mais perigosa de esquentar água e produzir vapor que faça turbinas girarem. Explicava-se que tipo de riscos estamos legando para as gerações futuras com o lixo atômico. Discutia-se porque e como a corrupção está cada vez maior, lá no alto das estruturas de poder e de riqueza, assim como a voracidade e a ambição dos poderosos. E contava-se que lutas estavam em curso na cidade, necessitando solidariedade, e quais os objetivos dos movimentos sociais que existem no pais e no mundo. Apresentavam-se as alternativas existentes para que se deixe de medir a riqueza de um país pelo PIB, assim como as armadilhas em que os paises entram quando colocam como objetivo nacional o crescimento puramente econômico, e o que pode ser efetivamente considerado como riqueza. Esses e muitos outros temas de interesse local, nacional ou mundial eram trazidos e debatidos nesses encontros.

Tudo isso acontecia com as pessoas transitando, como ocorre nos Foruns Sociais, entre cartazes, exposições e projeções com fotos, desenhos, textos e testemunhos sobre o que precisamos saber para sermos sujeitos de nossos destinos. Ao mesmo tempo em que grupos menores se reuniam para combinar o lançamento de iniciativas e mobilizações no bairro e na cidade, e para refletir sobre formas de ação que podem melhorar rapidamente as dificuldades do dia a dia das pessoas.

Era tanta a riqueza de informação transmitida que a noticia desses encontros começou a se espalhar e os moradores dos diferentes bairros começaram a participar de encontros em bairros vizinhos, e a pedir aos “indignados” que promovessem encontros daquele tipo nos seus bairros. E começaram até a acolher os que organizavam esses encontros, oferecendo-lhes o que comer, agasalhos e espaços para atender a necessidades de higiene, ou abrindo suas garagens para atividades de menor porte. Pouco a pouco também as associações, movimentos e ONGs locais e nacionais também começaram a procurar os “indignados”, pedindo-lhes uma oportunidade de apresentar a mais gente o que estavam fazendo e as inovações que estavam procurando introduzir na vida da cidade para melhorar a vida das pessoas.

Em pouco tempo vi quase todas as praças das cidades se transformarem, a cada 15 dias, em universidades abertas onde todos que o desejavam podiam vir, para aprender e ensinar, e para procurar entender o que estava acontecendo no mundo e nas suas cidades, e reencontrar o sentido de suas vidas. Era como uma forte onda que ia cobrindo todos os recantos, num ambiente de grande alegria. E vi começar a acontecer uma aproximação entre “militantes” e moradores em geral, passando por cima de preconceitos e instituições desvirtuadas e fazendo desaparecer a separação entre a atividade politica e a vida cotidiana.

O que vi acontecer nessas praças era evidentemente um sonho. Mas a mudança realmente radical em nossos métodos, que a continuidade, a expansão e o enraizamento do processo do Forum Social Mundial está exigindo, talvez nos peça que sonhemos.

O desafio da comunicação

Outras mudanças decorrerão dessa nova maneira de ver nossos encontros a todos os niveis. Por exemplo quanto à comunicação, temos que deixar de nos angustiar com a dificuldade em romper o cerco dos grandes meios de comunicação de massa, como tambem não podemos nos satisfazer com a mobilização da nossa midia alternativa. Se passarmos a querer “falar” com o resto da sociedade, temos que passar a usar de uma maneira muito mais sistemática os instrumentos que hoje existem para a intercomunicação horizontal livre. Temos tambem que começar a utilizar mais intensamente e mais amplamente outros meios como cinema, radio, teatro, música, artes plasticas, publicações.

Temos que pensar diferentemente até nas marchas com que tradicionalmene iniciamos nossos Foruns. Elas tem tido em geral o carater de demonstração de nossa força, das posições que afirmamos, das mudanças que queremos. É quase uma auto-afirmação para nós mesmos, para marcarmos posição. Possibilitando até uma pequena competição entre nós quanto à originalidade de cada um e à força que somos capazes de mostrar. A maioria dos que tem a oportunidade de nos ver, das janelas de suas casas ao longo de nosso percurso, nem sempre fica sabendo - muito menos entendendo - o que de fato queremos. Ou se o sabem, não sabem porque o queremos. Muitos preferem fechar suas janelas, porque chegamos a ser muito barulhentos... E pouco ou nada muda na consciência mesmo dos que não as fecham...

Uma última provocação

Se me permitem eu faria mais uma provocação - já que este texto pode vir a ser considerado como uma simples provocação... Na discussão do futuro do FSM, como assegurar a continuidade dos Foruns Mundiais, quanto ao trabalho de seus “facilitadores” ou pelo menos “animadores”? Esse papel coube durante um certo tempo aos brasileiros que iniciaram o processo. Ao sair do Brasil, os FSM começaram a ser “organizados” pelos “facilitadores” dos paises em que se realizaram. Mas havia sempre uma presença de “brasileiros” dando algum tipo de apoio, que muitos entendiam como desejo de manter um suposto poder mas que resultavam de solicitações dos “facilitadores” locais.

Na sua primeira fase o FSM resultou de um tandem Brasil-França, que se esgarçou com o tempo. Por outro lado, os “brasileiros” estão colhendo os frutos das articulações nascidas no processo do FSM e se ocupando mais intensamente delas, o que lhes dificulta a continuidade de uma tarefa de animação que deve se espalhar agora em terras bem distantes de suas fronteiras, o que justificaria que lhes fosse dado um tempo de descanso...

Não seria a hora de criar um novo tandem, com energias novas, por exemplo entre o Magreb e o Canada, o primeiro numa area em expansão do processo e próxima das diferentes versões de indignados, e o segundo num país onde se realizaram Foruns Sociais bem sucedidos e que é vizinho ao país do Occupy e de um Forum Social nacional com grande base social?