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Mister Wade

segunda-feira 5 de março de 2012, por Paulo Gomes,

No domingo, 26/02/2012, os senegaleses foram às urnas para definir o presidente do País. O resultado levou ao segundo turno (entre 18 e 25 de março) entre o atual, Abdoulaye Wade, e o ex-primeiro ministro Macky Sall . O texto abaixo foi escrito com base nas minhas experiências na capital senegalesa em fevereiro de 2011.


Mister Wade. É assim que o senegalês Babacar Diop, estudante de Economia e Finanças na Universidade Cheikh Anta Diop, em Dacar, se refere ao atual presidente cada vez que o cita. A utilização do prenome respeitoso causa estranheza, uma vez que as palavras de Babacar são críticas ao presidente Abdoualaye Wade. No decorrer da conversa, no entanto, percebe-se que o jovem o faz com larga ironia, até com certa carga dramática. “Mister Wade”, repete ele vagarosamente, com o olhar fixo em um objeto qualquer e balançando a cabeça negativamente.

Wade é apenas o terceiro presidente do Senegal desde a independência do País, em 1960. Léopold Senghor, uma das figuras responsáveis pela libertação do domínio francês, foi o primeiro. É comum encontrar construções importantes e que levam o nome de Senghor na capital, do aeroporto ao estádio de futebol. Esteve no comando por 20 anos, sempre se reelegendo. Seu sucessor, Abdou Diof, seguiu a receita e ficou no poder por 19 anos, até falhar na tentativa do quarto mandato, quando perdeu a eleição para Wade. O presidente atual tenta sua terceira eleição, mas passa por um momento de grande contestação no Senegal.

“Não gosto dele, ele mudou as leis para se reeleger”, conta Babacar. “Só quer gastar o nosso dinheiro em grandes casas e belos carros”, acusa o estudante. A desigualdade social é realmente um dos problemas do país do oeste africano e a opulência demonstrada pelo governo não é difícil de se constatar ao caminhar pelo bairro de Fann, onde estão muitas das casas de políticos – todas luxuosas – ou ao ver a comitiva de Wade passar, com carrões exageradamente luxuosos.

Em discurso no Fórum Social Mundial de 2011, sediado na capital senegalesa, o presidente disse que em seus anos de governo o país superou em duas vezes e meia a linha da pobreza. “O Senegal é hoje auto-suficiente alimentar, exportamos arroz e amendoim para a China”, declarou. “Passamos de dependentes a exportadores”, disse Wade.

Babacar refuta a afirmação. “Não é verdade. Se você vai a algum lugar e pede arroz senegalês, não encontra, enquanto o arroz estrangeiro é encontrado com facilidade”. Fui às ruas tirar a prova. Nas pequenas mercearias de bairro, principal local onde os cidadãos fazem suas compras existe apenas arroz proveniente do Paquistão e Tailândia. Nos supermercados, frequentados pelas classes mais altas, existe arroz do Senegal, ao lado dos estrangeiros.

“As estradas são boas hoje. Mas antes de estradas e monumentos [referência ao Monumento do Renascimento Africano] precisamos de documentos. Ontem vi no noticiário que uma casa pegou fogo por cinco horas seguidas porque nós não temos bombeiros”, reclama Babacar.

Segundo o estudante, para um país que sofre com apagões diários é curioso que se gaste tanto com a própria família. O nepotismo no governo é escancarado: o filho de Wade, Karim, acumula cinco ministérios – Cooperação Internacional, Desenvolvimento Regional, Transporte Aéreo, Infraestrutura e Energia.

“Ele passou a vida toda no exterior e de repente ganhou um monte de cargos de alto escalão. Se alguém fala algo contra ele, é preso”, conta. “Mister Wade…”, continua Babacar, “se Mister Wade ganhar as eleições, o que houve em Túnis e no Cairo pode muito bem acontecer aqui”, define, em tom profético.

Quando ouvi essa frase, duvidei de meu entrevistado. O Senegal é um País com histórico pacífico, onde o exército nunca tomou o poder. Apesar de sucessivas reeleições poderem levantar alguma dúvida, o processo democrático eleitoral sempre se fez valer no País. A recente onda de protestos em Dacar contra a reeleição de Wade – que culminou em seis mortes – mostra que o estudante estava certo.


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