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Leila Khaled fala à Caros Amigos sobre a luta palestina

quarta-feira 8 de agosto de 2012, por Maura Silva,

Leila ficou conhecida na década de 70 por ser uma das únicas mulheres a militar ativamente pela causa Palestina. Sua trajetória começou aos 15 anos, quando encontrou na luta por meio das armas uma maneira de retornar ao seu lar.

Leila Ali Khaled carrega as marcas e o peso de um conflito que já dura décadas. Aos 68 anos, é uma mulher firme, com o olhar penetrante, que tem no sangue a vontade de lutar pela sua terra e principalmente pela sua história. Considerada ídolo da juventude palestina, viu na luta armada uma maneira de defender a desocupação militar israelense. Um tanto impaciente com o calor e o burburinho de São Paulo, vez ou outra Leila deixa escapar um sorriso. Ela mantém o mesmo olhar que a tornou famosa em todo mundo, “certas coisas não mudam”, como ela mesma diz.

Leila ficou conhecida na década de 70 por ser uma das únicas mulheres a militar ativamente pela causa Palestina. Sua trajetória começou aos 15 anos, quando encontrou na luta por meio das armas uma maneira de retornar ao seu lar, que foi obrigada a abandonar junto com a família, após o massacre que assolou a região em 1948, e meio milhão de palestinos, entre eles seus pais, foram obrigados a fugir do conflito Árabe-Israelense. Leila e sua família foram para o Líbano, onde passaram a viver como refugiados. Já na adolescência, juntou-se ao Movimento Nacionalista Árabe e alguns anos depois mudou-se para o Kuwait, onde conheceu e filiou-se à Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP), que tinha como principal objetivo a construção de um estado palestino em território ocupado pelo exército israelense.

Causa internacional
Pouco tempo depois, Leila se mudou para Jordânia e lá iniciou o seu treinamento com o então co-fundador da FPLP, Waddi Haddad. Foi quando aprendeu, entre outras coisas, a pilotar aviões para que pudesse colocar em prática o mais audacioso plano da organização, que via no sequestro de aeronaves uma maneira de transformar da causa palestina numa questão internacionalmente reconhecida.

Em agosto de 1968, Leila e alguns companheiros tomaram a cabine e desviaram um voo da TWA, antiga companhia aérea estadunidense, o Boeing 707 que saía de Roma e foi forçado a aterrissar em Damasco, capital da Síria. Antes, Leila obrigou o piloto a sobrevoar Haifa, sua cidade natal. Não houve mortos ou feridos na ação, mas o objetivo principal da FPLP foi alcançado. O mundo começou a enxergar a causa palestina, e o fato do sequestro envolver uma mulher árabe ajudou a chamar a atenção da mídia. Àquela altura, Leila já era considerada uma das mais bem treinadas e preparadas combatentes da FPLP, e com o sucesso da primeira ação, a organização preparou mais um sequestro. Dessa vez o alvo seria o avião que levaria o então embaixador de Israel nos Estados Unidos, Yitzhak Rabin. Foram mais de seis meses de preparo, que incluíram operações plásticas com objetivo de modificar o aspecto de Leila, para que assim pudesse passar despercebida pelas forças de segurança israelenses.

Em setembro de 1970, Leila e Patricio José Arguello Ryan, também membro da FPLP, embarcaram com passaportes falsos pela companhia israelense EILA. Após 30 minutos de vôo, ambos sacaram suas armas e invadiram a cabine do piloto. Arguelo teria jogado uma granada - que não explodiu - no corredor, e assim agentes de segurança israelenses que viajavam no mesmo avião dispararam contra ele, que morreu a caminho do hospital. Já Leila, sem poder alcançar as granadas que levava escondidas, foi presa e espancada dentro do avião que fez um pouso forçado no aeroporto de Heathrow, em Londres.

Notoriedade

A prisão de militante aconteceu logo após o pouso. Seu belo rosto estampou diversas capas de jornais e revistas. Seu nome e sua causa passaram a ser reconhecidos internacionalmente. Por diversas vezes, sua beleza ganhou mais notoriedade que sua luta. Era comum ver fotografias de Leila com uma hata (típico lenço palestino), uma Kalashnikov -mais conhecida como H47- em punho e um anel feito com parte de uma granada. Após 21 dias na prisão, Leila foi libertada, graças a negociações secretas com a Frente Popular para a Libertação da Palestina. Alguns dias após o fracasso da missão de Leila, o grupo sequestrou um avião no qual viajavam 56 passageiros britânicos e pediu em troca do passageiros a libertação de Leila. Após o ocorrido, a militante resolveu se afastar das atividades de guerrilha, escreveu um livro contando sua história de vida e, teve um documentário produzido pela TV Sueca. Hoje, é casada e mãe de dois filhos, vive com a família na Jordânia, e é membro da Frente Popular para a Libertação da Palestina e do Conselho Nacional Palestino (Parlamento). Leila se mantém ativa na luta que acredita e continua a representar os mais de quatro milhões de palestinos que vivem fora de sua terra natal.

Em visita ao Brasil, no final de 2011, Leila recebeu Caros Amigos e respondeu às perguntas a seguir.

Caros Amigos - Como teve início sua vida política na juventude?

Leila Khaled - Minha vida política começou a partir do meu sofrimento e do povo palestino, dos que se tornaram refugiados como eu e que são refugiados até hoje. Lembro-me das injustiças que vi e vivenciei ao longo do tempo. Na escola, via as crianças ganhando livros e cada um tinha o seu. E eu ganhava um que deveria ser compartilhado com os meus irmãos. Eu questionava a minha mãe e ela me dizia que era porque éramos palestinos, e que só teríamos inteiro quando voltássemos à Palestina. Aquilo ficou na minha cabeça e eu cresci com essa ideia. E quando começou a revolução, eu estava lá.

CA - Qual a sua opinião sobre a criação do Estado Palestino?

LK - Defendo um estado que seja compartilhado por judeus, palestinos, muçulmanos e cristãos. Um estado laico, para todas as pessoas, sem distinção, não vejo a expulsão de israelenses como uma solução para o conflito. Acredito numa solução assim, democrática, mas Israel não está disposto a concordar ou aceitar isso, o que dificulta e muito as nossas relações.

CA - O que pensa sobre os acordos entre Hamas e Fatah?

LK - Não podemos ignorar o Hamas e o Fatah, pois são integrantes desse cenário, por isso devemos pressionar os dois lados para uma negociação e para começar a desenhar um futuro, um futuro que esteja de acordo com o bem comum do povo palestino, acredito que os dois lados devam ser pressionados a agir com esse intuito.

CA - A senhora acredita que uma Terceira Intifada está próxima?

LK - Não acredito que a Terceira Intifada aconteça num futuro próximo, pois estamos em fase de diálogos nacionais e ainda há uma divisão política a ser resolvida, a entrada na ONU e o processo de democratização. Isso afasta de nós uma Terceira Intifada, as anteriores ocorreram em um cenário político bem diferente do que temos hoje.

CA - E quanto ao direito de retorno?

LK - Temos uma terra de direito, Israel convoca judeus de todo o mundo a retornar às suas terras, por que não fazem o mesmo com os palestinos?

Com a Primavera Árabe, milhares de pessoas têm saído às ruas para reclamarem os seus direitos. Levante que muitas vezes leva a população a um embate violento com as forças repressoras. No caso da Palestina, a senhora acredita em revolução sem luta armada?
Vinte anos de conversa não nos levaram a nada. A Carta da ONU prevê como direito de um povo resistir à ocupação, que é em si um ato terrorista. O povo árabe e os palestinos lutam contra sua expulsão, contra prisões arbitrárias, contra bloqueios, ofensivas que matam milhares sem que haja nenhuma punição. As pessoas lutam pelo direito de ir e vir, que é cerceado por soldados que decidem quando abrir os portões. Por que acha que o povo palestino deveria suportar tudo isso sem reagir?

CA - A senhora acredita que os levantes árabes têm hoje o mesmo impacto midiático que o sequestro dos aviões em 70?

LK - Os palestinos eram conhecidos somente como refugiados. O mundo não sabia que tínhamos uma causa, uma terra ocupada. É por isso que nós tocamos o sino do mundo, o chamado, que avisava que os palestinos não são somente refugiados, que eles também são um povo que está defendendo sua humanidade, seu país, e que quer libertá-lo. Então, nós utilizamos uma determinada tática, para que o mundo nos enxergasse. Antes dessa tática, ninguém sabia de nosso sofrimento. Quando você usa poder, quando você usa força, o mundo passa a te dar atenção. Foi assim que descobriram que o povo palestino tinha uma luta. Hoje, não é mais necessário o sequestro de aviões. A revolução nos dará a resposta. Nós queríamos que o mundo soubesse quem são os palestinos. E os sequestros não nos deram respostas, eles deixaram a pergunta. A revolução nos dá a resposta.

CA - E quanto ao Brasil, o que a senhora acha das relações cada vez mais estreitas que o país mantém com Israel?

LK - O governo brasileiro deveria cortar todas as relações com Israel, incluindo as relações diplomáticas. Mas, se isso é pedir muito, deveria ao menos cortar as relações militares. Porque o governo brasileiro diz apoiar a nossa luta, mas se ele está do nosso lado, deve cortar laços com o outro lado. Por isso é importante que se realizem grandes campanhas de BDS (Boicotes, Desinvestimentos e Sanções). Muitos comitês e movimentos estão trabalhando com o BDS, boicotando produtos e serviços israelenses, aplicando desinvestimentos em assentamentos na Palestina ocupada, e pressionando os governos a promover sanções contra Israel.


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