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Para o povo vivo e livre: Legaliza

sexta-feira 31 de maio de 2019, por Terezinha Vicente ,

A concentração no MASP começa às 14h20 e a marcha sai pontualmente às 4h20, número referência para os maconheiros.

Foto Grown Room

Este é o tema, neste ano, da Marcha da Maconha de São Paulo, que acontece neste sábado, 1º de junho. A concentração no MASP começa às 14h20 e a marcha sai pontualmente às 4h20, número referência para os maconheiros. Legalizar as drogas acabaria com uma hipócrita política de guerra que só serve para nos tornarmos um dos países que mais encarcera e mata negros e pobres em ações realizadas ou acobertadas pelo Estado.

A marcha de SP, na 11ª edição depois de ter sido liberada judicialmente, será um desafio neste ano. “Sua importância histórica e política muito grande, enquanto um ato gigantesco de desobediência civil organizada que, imensa, é também autônoma, não ligada a partidos muito menos a empresas, não recebe patrocínio algum e mesmo assim cresce e se fortalece a cada ano. Na atual conjuntura acho importantíssimo que a marcha aconteça e que seja grande, pois mostra que não tem arrego nem recuo.”, diz Gabriela Moncau, militante do Coletivo DAR, da Marcha da Maconha SP e da Bloc Feminista da MM, uma das alas que compõem a manifestação de SP.

Tem gente que chega bem antes, muitos vêm de bem longe, porque é uma das poucas chances no ano de sentir-se livre. O povo está com vontade de desobedecer a todas as leis injustas. Mas fora da desobediência civil coletiva, pode ser injustamente encarcerado ou até morto porque “reagiu armado”, “foi confundido” e etc. A maioria dos presos fica anos sem julgamento e muitos depois de cumprir a pena.

“Vivemos um momento em que os direitos básicos estão em jogo e quem nos fere é justamente o Estado, que deveria garantir nossos direitos, supostamente”, analisa a psicóloga e educadora social Juliana Paula, militante do coletivo DAR e da Bloc Feminista da Marcha da Maconha de São Paulo. “É muito importante fortalecer uma luta pelo direito individual: o direito ao corpo, as escolhas, ao cuidado em saúde, ao prazer. E fortalecer o individual, nessa leitura, é fortalecer o coletivo também, a Marcha da Maconha de SP não é liberal, não quer lutar pelo meu sem lutar pelo nosso, pelos nossos, pelas vidas que são perdidas na guerra às drogas, pelos corpos que são encarcerados, pelas mães da periferia que seguem sangrando”.

Como diz a arquiteta e urbanista Karen Viegas, mãe e feminista antiproibicionista, da Bloc Feminista e da MM da Zona Leste, “a guerra não é contra as drogas, mas sim contra as pessoas. Números, pesquisas, estatísticas apontam de forma clara e direta. Um exemplo é a última pesquisa realizada pela FIOCRUZ que Osmar Terra quer censurar. Há sim um mecanismo que promove o encarceramento e o genocídio de pessoas negras”. Karen se refere ao ministro das Cidades, ironizando. “Não há epidemia de drogas”, afirmação do ministro. Para ele, a FIOCRUZ “tem um viés ideológico de liberação das drogas”. Gabriela também lembrou do ministro. “Recentemente foi aprovado no Senado um projeto de lei retrógrado do Osmar “Trevas”, que entre outras coisas aumenta a pena mínima para tráfico de drogas, beneficia Comunidades Terapêuticas e a lógica da internação compulsória”.

Ao contrário, está cada vez mais difundido no mundo os benefícios que a cannabis traz para várias doenças e até para o fim da dependência química de drogas mais pesadas. “Eu vou para a Marcha porque depois de conhecer a história de luta da Cidinha Carvalho e sua filha Clarian pela maconha medicinal, não tem como não se emocionar e ver que a maconha é muito mais que fumaça”, conta Marcia Balades, integrante da Liga Brasileira de Lésbicas e da Bloc Feminista da Marcha da Maconha. “Eu vou para a Marcha da Maconha porque não consigo mais conviver com pessoas jovens e pretas de periferia sendo presas pela mesma fumaça que eu solto inocentemente , mas que não vou presa porque sou branca e moro no centro expandido”.

A periferia sangra e até as estatísticas oficiais (sempre incompletas) revelam. Dados divulgados pela mídia comercial anteontem, provenientes de estatística feita pela Polícia Civil de São Paulo, informam que neste ano, de janeiro a abril, foram encarcerados por dia 154 pessoas por tráfico de drogas!! 18.495, só no estado de São Paulo. Foi registrado um aumento de 21% nos últimos dois anos. A maioria dessas pessoas estava com pequenas quantidades; e se não as levam, batem, extorquem, humilham. Se é mulher tem assédio sexual e até estupro para não ir presa.

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“As mesmas pessoas que estão sendo encarceradas em massa, e sofrendo com a guerra ás drogas, são as mesmas que tem seus diretos básicos negados”, conclui Karen. “Elas moram em condições precárias (quando moram), em ocupações e áreas de risco, estão nas filas dos hospitais públicos, são mães nas filas a espera por vagas nas creches. O proibicionismo retroalimenta o estigma e a exclusão social”. Afinal, porque outras drogas que causam mais mal, como o álcool, e todo o veneno dos agrotóxicos e as drogas farmacêuticas, são liberadas e estimuladas culturalmente?

Ao mesmo tempo, como lembra Gabriela, “o STF deve julgar a descriminalização do porte de drogas para consumo pessoal, o que nós do movimento consideramos o mínimo. Claro ocupação dos organizadores neste ano é com a segurança, já que será a primeira Marcha da Maconha na era Bolsonaro/Dória. Mas a disposição continua a mesma, devido a importância da marcha paulista. A Marcha da Maconha se tornou a maior ação direta de desobediência civil em massa que acontece atualmente, continua Gabriela. “É muito relevante que em São Paulo dezenas de milhares de pessoas, cada vez mais jovens e da periferia, ocupem as ruas para desacreditar a proibição e defender o fim da guerra às drogas, que nada mais é do que o nome contemporâneo do que se convencionou chamar a guerra que o Estado faz contra a própria população. E não é contra os homens de terno e gravata que circulam em Brasília e que são donos dos helicópteros que carregam toneladas de cocaína”.

A organização espera que a marcha seja maior que no ano passado e que as pessoas queiram enfrentar a conjuntura política retrógrada e violenta que comanda o país e nosso Estado. Alguns “recados” com ameaças já começaram a chegar. Dizem até que o governador está chamando os policiais do interior, devido às várias manifestações programadas, que começam hoje com o ato pela educação. Mas ninguém deixa de lado os cuidados com a segurança e com a redução de danos. E nem a criatividade, quem lá for verá.

“Se vivemos um momento histórico no Brasil de aumento de uma onda conservadora, cujo grande símbolo é a figura fascista do nosso presidente”, conclui Gabriela. “A Marcha da Maconha SP acontece nesse cenário político, e sem dar nenhum passo atrás, vem para fortalecer a luta de todes aqueles que não baixam a cabeça e que acreditam na construção de um mundo com mais liberdade, dignidade, igualdade e justiça”.