Página inicial > BRASIL > Não ao fechamento do Colégio Odorico Tavares

Não ao fechamento do Colégio Odorico Tavares

quarta-feira 22 de janeiro de 2020, por Cecilia Peixoto,

Fechar uma escola é um crime. É negar o direito de escolha do cidadão. É ignorar os impedimentos impostos pelo crime organizado, que divide os espaços urbanos em territórios com leis próprias, criadas e aplicadas pelo poder paralelo que o próprio Estado não consegue extinguir.

foto: Instituto Hori

Em 1994, o então governador Antônio Carlos Magalhães, inaugura a escola modelo Odorico Tavares, nome dado em homenagem ao pernambucano de nascimento e baiano de coração, Odorico Montenegro Tavares da Silva, escritor, jornalista e poeta, membro da Academia Baiana de Letras.


foto Ludimilla Teixeira

A unidade escolar comporta trinta e uma salas de aula, sala de gestores, professores, biblioteca, duas quadras de esportes, onde apenas uma era coberta, cozinha, laboratórios (Informática e Ciências), sanitários e anfiteatro, destacou-se dos demais colégios públicos até então devido às suas modernas instalações e infraestrutura, segundo a gestão estadual da época, o objetivo era que o mesmo fosse um colégio de referência propiciando aos alunos um ensino público de qualidade, com capacidade para 3.000 (três mil) alunos e, inicialmente, foram ofertados cursos de Processamento de dados e de Formação Geral.

O Colégio Estadual Odorico Tavares fica localizado na Av. Sete de Setembro S/N, Corredor da Vitória, Bairro do Campo Grande, Salvador – Bahia, tendo por vizinhança prédios residenciais luxuosos da classe média alta de Salvador. Neste texto discorreremos de forma sucinta possíveis questões que levaram ao sucateamento desta escola, culminando com a decisão da sua extinção.

O Colégio Odorico Tavares na sua totalidade ocupa uma área de cinco mil metros quadrados, sua localização encontra-se em uma das áreas de maior valorização por metro quadrado para venda da cidade do Salvador – custando R$ 8.604,00 por m2, conforme notícia publicada pelo jornal Correio da Bahia – Economia, em 04.01.2018.
A clientela desta unidade de ensino é composta em sua grande maioria de alunos oriundos de diversos bairros da periferia de Salvador e região metropolitana, o que nunca foi bem visto pela circunvizinhança burguesa do entorno da escola.

Apesar de alguns anos atrás ter sido implementado laboratórios (Física, Química, Biologia), parcerias com a Universidade Federal da Bahia, instituindo-se o PROGRAMA INSTITUCIONAL DE BOLSAS DE INICIAÇÃO À DOCÊNCIA (PIBID), além de outros tantos projetos internos liderados por professores qualificados da própria escola, infelizmente, nos dias atuais, presenciamos uma unidade de ensino que agoniza na tentativa de não ter suas portas cerradas definitivamente, provavelmente por pressões internas de mudanças na própria Secretaria de Educação e mais enfaticamente por pressões externas de especulação imobiliária e dos moradores, que desde sempre demonstraram claramente o desconforto por ter a escola no referido endereço.

O processo de abandono da unidade escolar foi acentuado nos últimos anos, principalmente por falta de manutenção da estrutura física do prédio, haja vista, o desabamento da cobertura da quadra em 2017, infiltrações das mais diversas, reformas elétricas que não foram satisfatórias para sanar os problemas existentes, etc.

Contudo, apesar de tantos problemas, a Secretaria de Educação do Estado da Bahia resolveu implantar o projeto de educação integral, pasmem!

É oportuno evocar o nosso conterrâneo, o educador Anísio Teixeira, grande defensor do ensino integral. Para ele, a educação integral tinha o significado de preparar “integralmente” o sujeito, no sentido de oportunizá-lo para reunir condições completa para a vida extrapolando o conteudismo, a inserção de valores éticos e morais através do conhecimento das artes e culturas, disciplina e, transportando-nos para os dias atuais, uma preparação para o mercado de trabalho.

Ou seja, a contribuição e atuação de Anísio deixa evidente que a Educação Integral deve ser uma prática pensada nos interesses, aptidões, habilidades e realidade social do aluno (indivíduo).

O grande desafio da implantação de uma Educação Integral é a garantia primordial que a escola esteja preparada tanto física como didaticamente. Sobre este prisma, o Colégio Odorico Tavares não reunia condições devido aos problemas de estrutura física citado anteriormente e tantos outros para absorver Educação em Tempo Integral.

Em 2016 foi efetuada uma reunião para que a Educação em tempo integral fosse acolhida pela comunidade escolar, a proposta foi rejeitada na época devido a questões relativas ao deslocamento dos alunos, porque outros trabalhavam no contraturno, em estágio ou no cursinho Universidade para todos.

Todavia, no ano seguinte, o Programa de Educação Integral foi implantado no Colégio e imposto aos professores, sem qualquer comunicação prévia, o que acarretou inclusive, problemas na distribuição da carga horária da escola.

O Plano Nacional de Educação (PNE) desde de 2014 tem como meta aumentar a oferta de Educação em Tempo Integral, sendo um dos principais desafios a existência de espaços físicos adequados e profissionais especializados.

Ocorre que a Secretaria de Educação do Estado não priorizou, sequer, o primeiro dos requisitos, qual seja, espaço físico, pois nem mesas suficientes haviam para os alunos fazer as refeições, sendo estes obrigados a almoçarem sentados no chão e os equipamentos para refeitório chegaram quase um ano depois.

Pelo exposto é nítida a falta de interesse dos órgãos públicos de Educação do Estado na sobrevida do Colégio Odorico Tavares, o constante estado de abandono, não minou apenas a estrutura do prédio, indiretamente reduziu o número da clientela, matriculados 1.790 alunos em 2010, 935 alunos em 2017 e 311 alunos em 2019, porque estrategicamente algumas turmas foram fechadas no sistema de matriculas no ano 2019, ou seja, a redução no quantitativo de alunos foi uma manobra da própria SEC, além de problemas ocorridos no sistema informatizado de matricula, o Nome da Colégio não aparecia, o mesmo só era visualizado, se fosse acrescentado “Tempo Integral”, é evidente que a omissão desta informação reduziu o número de matriculas na referida unidade de ensino.

O Governador da Bahia, Rui Costa, afirmou em diversas mídias que a área onde está edificado o Colégio Odorico Tavares será leiloada, em contrapartida serão construídos outros colégios na periferia de Salvador, reduzindo assim o custo e transtorno para deslocamento dos alunos.

Apesar de sucessivos protestos desde o início de dezembro do ano passado, envolvendo a comunidade escolar (alunos, professores, funcionários), sindicatos e da população soteropolitana, o impasse continua.

Afirmamos que fechar uma escola é um crime, é negar o direito de escolha do cidadão, é ignorar, em muitos casos, os impedimentos impostos pelo crime organizado, que divide os espaços urbanos em territórios com leis próprias, criadas e aplicadas pelo poder paralelo que o próprio Estado não consegue extinguir.

Outros fatores preponderantes e inegáveis para o fechamento da escola são a pressão imobiliária fruto do capitalismo ávido por lucros, assim como a afirmação da supremacia burguesa na medida que, suplanta a vontade do povo, boicota a educação e camufla preconceitos na Roma negra brasileira. Lamentáveis constatações, que a nós homens e mulheres comprometidos com a justiça social, a Educação pública de qualidade e os ideais democráticos uniremos nossas forças para protestar e resistir.

Fonte: Instituto Hori