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Haiti e Rio de Janeiro, na visão do coronel

quarta-feira 24 de outubro de 2007, por Fabíola Ortiz dos Santos,

“Tenho certeza que o complexo de favelas do Alemão é pior do que o Haiti, o ambiente é mais hostil, o armamento das facções criminosas no Rio é muito superior se compararmos às milícias haitianas”, assegura o chefe da Seção de Informação Pública do Centro de Comunicação Social do Exército, coronel Cunha Mattos em palestra sobre conflito armados a estudantes de diversas universidades em São Paulo.*

Há três anos como chefe da Comunicação Social do Exército brasileiro, Cunha Mattos esteve presente em algumas situações de conflito como na fronteira de Uganda e Ruanda na África, quando foi enviado pelas Nações Unidas em missão de observador (agosto de 1993 à agosto de 1994) do conflito étnico que matou cerca de 800 mil pessoas em menos de um mês.

Missão de Paz

Sua mais recente experiência foi como responsável pela Comunicação Social na missão de paz do Exército brasileiro no Haiti (dezembro de 2005 a junho de 2006). E afirma: “Guerra é guerra, não é brincadeira, é uma coisa complicada, é o ato mais violento da humanidade”.

De acordo com o coronel, nem toda guerra é igual. Existe amparo jurídico que torna uma guerra regular onde valem os acordos e convenções de direito internacional humanitário. Mas, há casos de guerra civil em que os acordos não são muitas vezes levados em conta, é o caso do Haiti, ressalta.

A atuação do Brasil na missão de paz no Haiti teve início em 2004. Segundo Cunha Mattos, a presença brasileira em Porto Príncipe, na capital haitiana, conta com quase 80% da aprovação da população local. Ele explica que essa é a quarta missão no Haiti e a “única que está dando certo”. O modelo de manutenção da paz usado pelo Brasil que “não está em manual militar algum, é o jeitinho brasileiro de ser”.

O coronel explica que o brasileiro tem uma facilidade para comunicar que cativa a população. Segundo ele, existe uma identidade cultural do modo de ser do brasileiro com os haitianos. O Exército mobilizou líderes comunitários para envolver os moradores, para ele, o apoio popular foi imprescindível na manutenção da ordem. “Dávamos consciência comunitária para fazer a vida voltar ao normal, criávamos vínculos com a população e estabelecíamos parcerias com organizações humanitárias, é o caso dos médicos sem fronteiras”.

Cunha Mattos garante que o grande segredo do Brasil na missão de paz foi o “jeitinho brasileiro” de trabalhar com a população e criar vínculos de reciprocidade. O Brasil era o único país que dava apoio sistemático à população - recuperava a infraestrutura com obras de engenharia, além de fazer uma ação de cunho cívico e social.

Rio e Haiti

O responsável pela Comunicação Social do Exército faz uma comparação da situação do Rio de Janeiro com o Haiti. Em áreas de conflito, o mandado de segurança e apreensão é permanente e é uma força de intervenção prevista pela legislação da ONU. Aqui no Brasil, compara, falta um amparo jurídico que regulamente a atuação do Exército em caso de intervenção. Segundo o coronel, as forças armadas não têm o poder de polícia, há dificuldades na legislação doméstica que regulamente a ação do Exército aqui no país, principalmente na eventual necessidade de atuar na segurança pública.

Para Cunha Mattos, não há muita diferença de bairros no Haiti para as favelas cariocas. “O Exército teria capacidade para atuar nas favelas do Rio, mais uma vez o que impede é a legislação”.

Como carioca, o coronel do Exército traça um paralelo entre a favela do Rio controlada pelo tráfico e um bairro em Porto Príncipe dominado pelas milícias, Cité Soleil. Para ele, há dois aspectos: os grupos ilegais no Rio são mais bem armados, sua motivação é defender seu território de influência e o seu negócio, o tráfico, que é uma atividade lucrativa. No Haiti, a motivação não era pela defesa do local, e sim, os seqüestros.

“No Rio, a gente encontra armas de ponta de linha que não são nem do inventário das forças armadas. Aqui a polícia apreende grande quantidade de granada. Lá, nunca lançaram granada na gente”.

O coronel explica que para o Exército atuar como polícia, precisa receber um treinamento específico para zonas urbanas, muito parecido à preparação que as tropas têm quando vão para o Haiti. Nesse sentido, ele afirma: “talvez não tenha nenhuma tropa no mundo tão bem treinado como o BOPE no Rio de Janeiro, esse é o exemplo de uma polícia bem treinada”.

Ele explica que o treinamento de uma tropa especial pressupõe rigidez, mas esclarece: “Uma força armada não existe para fazer a guerra, mas sim para evitá-la, se nós não tivermos guerra, então conseguimos cumprir nossos objetivos”. Mas uma vez que há conflitos armados, é preciso saber lidar com eles. “Não adianta achar que não morre gente e que não há feridos”.

Para o coronel, o treinamento não é tortura, mas o cadete passa fome, dorme mal para aprender a ter certos domínios. Em seguida, ainda ressalta que “o adversário tem que ser tratado de forma dura, não adianta pedir calma que ele não vai respeitar acordo nenhum. É preciso dominar o medo, a gente só entende isso quando tem tiro correndo na nossa orelha”.

Segundo Cunha Mattos, é preciso entender a realidade de uma situação para planejar qual será o tipo de intervenção será feita. Quanto à polícia carioca, diz: “A PM no Rio, com todos os problemas que nós sabemos, é muito corajosa”.

Assim como foi o modelo da missão de paz utilizado pelo Exército brasileiro no Haiti, Cunha Mattos sugere: “A força armada [se referindo à polícia militar no Rio] tem que entrar e permanecer por um tempo para garantir as condições de segurança para que o Estado entre com a infraestrutura necessária, como educação e saúde. Se entrar e sair, tudo volta, mas a força também não pode perpetuar-se pois corre o risco de ser afetada pela corrupção”.

*No curso sobre o ‘Jornalismo em situações de conflito armado’, organizado pela Cruz Vermelha Internacional junto com a OBORÉ e a ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).

Por Fabíola Ortiz