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Ele só queria comprar um tênis

segunda-feira 26 de novembro de 2007

O jovem, chorando, dizia que estava tudo tranqüilo, que ele queria apenas sair dali e ir embora. Pouco antes, fora detido por seguranças e agredido fisicamente no banheiro do shopping. Era o Dia Nacional da Consciência Negra.

Tatiany Volker , Wanderson Mansur

Foto: Frineira Rezende, dança afro no 20 de Novembro, SP

Era mais um dia de consumo como tantos outros. Várias pessoas entrando e saindo das lojas, umas com sacolas e outras não, todas maravilhadas com aquele ambiente que lhes prometia realização e felicidade. Não era diferente com W. S. A. e seu amigo que naquele dia resolveram ir ao Shopping Vitória comprar um tênis.

Já com as sacolas em mãos, os dois, aparentemente felizes, se dirigiram para o banheiro, sendo que W. S. A. entrou sozinho, enquanto seu amigo ficou do lado de fora, no bebedouro aguardando-o. O jovem entrou cantando uma música em voz baixa, fazendo um gesto similar como quem está com uma arma em punho e, logo em seguida, dois seguranças entraram.

Neste mesmo instante, um outro jovem esperava sua namorada do lado de fora do banheiro, presenciando assim, o momento que os seguranças seguiam W. S. A. O jovem achou estranho, mas não teve nem tempo de pensar muito no assunto, apenas ouvia vozes altas e sons de esbofeteadas saindo de dentro do banheiro. Foi quando resolveu verificar o que estava acontecendo. Logo na entrada do banheiro teve o desprazer de presenciar uma cena lamentável, um dos seguranças estava agredindo o jovem com tapas no rosto e na cabeça, enquanto seu parceiro assistia a tudo imóvel. A testemunha o questionou sobre seu procedimento, e ele respondeu que W. S. A. tinha feito uma “gracinha” com ele e com seu companheiro.

Seguiram todos para o lado de fora do banheiro, a testemunha, o jovem agredido, o agressor, e o outro segurança que estava na condição de apoio. Do lado de fora estava a namorada da testemunha e o amigo do jovem. Revoltados, a testemunha e sua namorada saíram discutindo sobre o absurdo que se passava, até que na altura do hall central, próximo a praça de alimentação um homem encarregado pela segurança apareceu para “conversar”. O jovem agredido disse que no interior do banheiro o segurança o abordou e perguntou se ele estava armado, ele respondeu que não e levantou a camisa para confirmar. Nesse momento, segundo a vítima, o segurança o prendeu no mictório, impedindo-o de sair. O jovem pediu licença e o segurança não o liberou e começou a agredi-lo.

O jovem, chorando, dizia que estava tudo tranqüilo, que ele queria apenas sair dali e ir embora. A testemunha e sua namorada, ao contrário, começaram a dialogar com ele, sobre a importância de não permitir que fatos como esses ficassem impunes. Naquele momento nem se lembravam que tudo aquilo acontecia exatamente no Dia Nacional da Consciência Negra. A discussão em voz alta no corredor despertou a curiosidade dos consumidores que transitavam pelo local, no entanto, nenhum deles fez mais que ficar olhando de longe o ocorrido. Não se sabia, mas talvez nunca devesse ter passado pela cabeça deles a possibilidade do jovem ser a vítima.

Com o intuito de não macular a imagem do shopping diante de seus queridos consumidores, os envolvidos na agressão foram levados para a sala geral da segurança. O letreiro da porta “entrada permitida apenas às pessoas autorizadas”, causava certo desconforto. De repente, todo o colorido do consumo cedeu lugar ao cinza frio, sombrio, distante, perdido num labirinto quase infinito de corredores. Aquele lugar tinha vida também. Muitas pessoas andavam por ali, carregando baldes, vassouras, caixas e pacotes nas costas. E elas eram bem diferentes daquelas do colorido consumista. Negros e negras. A infra-estrutura, nua e crua estava ali, diante dos olhos dos poucos que um dia puderam passar por aquele lugar.

Após subirem várias escadas entranhadas por portas de acesso restrito, avistaram outros negros. Só que esses, vestidos com gravatas. O som que saía da sala do chefe de segurança era familiar. Parecia uma música evangélica. Em contrapartida, o jovem agredido, mantinha-se calado. Apesar da frieza daquele ambiente, algumas gotas de suor rolavam pelo seu rosto. O chefe de segurança abordou educadamente os envolvidos, e iniciou um diálogo com o jovem. Nesse momento, o jovem voltou novamente a chorar, e a relatar o caso.

W. S. A e as testemunhas - o jovem e a sua namorada - começaram a remontar todo o fato para o coordenador geral de segurança. A discussão foi sem dúvida nenhuma muito calorosa. Discutir o tema racial e de classe é sempre muito complexo: mais do que ter um conhecimento social e histórico dessa realidade, exige muita, muita sensibilidade. W. S. A. não sabia explicar o que havia acontecido, mas sentia literalmente na pele o que era ser negro no Brasil. O agressor, também negro, jurava de pés juntos que não tinha encostado se quer a mão no jovem, além de evidenciar a todo o momento sua condição de homem, macho e viril. “Você acha que eu sou homem de dar tapinhas? Me respeita!”. De súbito, o jovem levanta a voz e a direciona ao segurança. “Se você é homem, assuma então o que você fez!”. O segurança continuou afirmando que não batia assim em homem, olhando com certa ameaça para a vítima e para as testemunhas. Chegou até a insinuar, junto com os outros seguranças presentes na sala, que as testemunhas estavam correndo o risco de defender um sujeito que já tinha passagem pela polícia. “Vocês vão ver se ele não tem alvará!”. Nesse momento foi acionada a polícia para resolver a situação e, para a possível felicidade dos seguranças, confirmar a criminalidade do jovem.

Os preconceitos iam se acumulando a cada fala pronunciada pela segurança do shopping. “Não somos racistas, nosso chefe de segurança é até negro”. Ainda acrescentou que setenta por cento da equipe de segurança era negra, o que demonstrava sua “consciência racial”, e que não aceitava as acusações de discriminação. Entretanto até admitiu, após longa discussão, que havia preconceito social. “Vocês estão confundindo preconceito racial com o de classe”.

Achando tudo aquilo um absurdo, tanto as insinuações, quanto as investidas diversas para não levarem o caso à diante, as testemunhas e o jovem continuaram firmes, e aguardaram ansiosamente a chegada da polícia militar, que segundo a segurança ia resolver a partir da sua “neutralidade”, como representante do Estado, o impasse que estava ali colocado.

O seguranças e o amigo da vítima - precisava ir trabalhar - se retiraram. Ficaram na sala apenas as testemunhas, W. S. A. e o chefe de segurança. Nesse momento puderam perceber mais atenciosamente e decoração da sala. Havia vários troféus, medalhas, fotografias. O ambiente se apresentava bem intimista. Tudo ali dizia um pouco sobre o chefe de segurança. Até sua monografia do curso de direito, apresentada em julho desse ano, estava ali, como mais um troféu entre os outros. Ele parecia uma boa referência para aquele jovem negro...

Após mais de uma hora e meia de espera, um policial, com um ar de quem veio para resolver o caso, chegou e foi logo sendo recebido pelo chefe da segurança. Ambos trocaram cumprimentos. O policial perguntou o que estava acontecendo, e o chefe da segurança o ambientalizou na situação. Ao direcionar seu olhar para o jovem, o policial imediatamente perguntou se ele já tinha passagem pela polícia. Novamente o jovem estava na mira daquele olhar perverso, rotulador, preconceituoso. Mais uma vez com a voz trêmula, ele se submete e aceita o convite dizendo não.

O caso havia ocorrido perto das 12h e naquele instante já se passava das 13h:30. O jovem, azul de fome, teve de esperar o Boletim de Ocorrência ser confeccionado e de acréscimo o segurança terminar de almoçar, para a partir de então, seguirem até a delegacia. A saga ainda não estava por terminar. As incoerências insistiam em aparecer. Por não caberem todos na viatura, o shopping pagou um táxi para o agressor ir até a delegacia e as testemunhas juntamente com o jovem, de viatura. Para entrar no navio negreiro contemporâneo, não é de se espantar que apenas os negros, ou os visivelmente negros, sejam revistados. Apenas a vítima, apenas a vítima foi revistada!!!. Alegaram que era por motivos de “segurança”.

Quão longo foi o percurso até a Departamento de Polícia. Tiveram que presenciar atos de coação explícitos contra a vítima. “Eu te conheço! Onde você mora? O que você estava fazendo no shopping? Porque você não vai procurar um emprego, ao invés de ficar por aí batendo perna? E vocês não sabem de nada, ficam aí defendendo ele, dão sorte de não serem vítimas dele! Bom isso não vai dar em nada mesmo. Você só vai perder o seu dia com isso.” Diziam os policiais olhando pelo retrovisor.

No Centro Avançado dos Juizados Especiais, parecia que tudo estava de cabeça para baixo, o agressor foi tratado como vítima, e a vítima como agressor. Quando o relator perguntou o que havia acontecido, o policial ao entregar o Boletim de Ocorrência disse na maior tranqüilidade na frente de todos os presentes que não tinha acontecido nada. O policial assistente do relator disse ainda para o jovem que ele teria que ficar preso por não ter sua identidade em mãos. No entanto, no decorrer do depoimento ele se surpreendeu por ter imaginado que o jovem era o agente da infração e não a vítima, e que ao contrário das especulações ele não tinha nenhuma passagem pela polícia.

Com o BO em mãos, seguiram para a Gerência de Políticas de Raça da Capital, a fim de entrar com uma ação judicial contra o shopping vitória, por agressão, danos morais, preconceito de classe e de raça.

Depois daquele dia, o colorido do shopping nunca mais foi o mesmo.

Por Wanderson Mansur e Tatiany Volker, testemunhas do ocorrido.


Fórum

  • Ele só queria comprar um tênis
    2 de dezembro de 2007, por dils

    yo! manos, esse mès nos tivemos a famosa FEIRA PRETA, onde tem varios (irmaos mesmo da nossa COR expondo como empresario, seus produtos fantasticos, pó e derrepente esse mano sai do guetto para comprar num dos lugares onde nois negros somos tao discriminados,quale, meu, faça como eu, so compro onde eu me vejo refletido, por isso que até hoje eu nunca fui discriminado, e é claro que tem que denunciar esses racistas, senao onde vai para isso veja o (estatuto da igualdade racial) vai resolver esses e outros obstaculos que os manos na perifa passam, so nao saiu ate agora por que muitos irmaos ainda nao reivindicam seus direitos nesse pais,.ferrez criou uma grife na perifa tambem por causa dessa discriminaçao hipocrita imoral... e isso ai pois quem gosta de nois é nois mesmo... ass. Mano brown .

    God bless you...peace

  • Ele só queria comprar um tênis
    29 de novembro de 2007, por Eudes
  • Ele só queria comprar um tênis
    29 de novembro de 2007, por Leonor Araujo
    "Apesar do pesar" pelo ocorrido e por nossa tão propalada mídia se dizer imparcial, mas não publicar nada que possa ferir a naturalização da discriminação racial nesse país, passo a acreditar mais na juventude desse país. Wanderson e Tatyane são alunos de comunicação na UFES e me orgulho de poder ter convivido com eles por um tempo no Programa Conexões de Saberes. O programa discute a questão racial , tem recorte racial ,e mostra agora, ao vivo e por escrito, que conseguimos formar jovens com consciência social e cientes da discriminação nesse país. Parabéns meus companheiros. Força nessa luta. Professora Leonor Araujo Coordenadora Geral de Diversidade e Inclusão Educacional.
  • Ele só queria comprar um tênis
    29 de novembro de 2007, por Vitor Taveira

    Teceria grandes elogios aos autores por se tratar de um excelente texto sobre a realidade socio-racial do Brasil, tratando de fatores como preconceito, consumo, violencia, conformismo, inconformismo ou outros temas que adoramos discutir na academia.Seria um belo texto desse em defesa da igualdade, contra o racismo, o preconceito social, a sociedade de consumo,etc. Da minha cadeira aplaudiria de pé. Não fossem os personagens cidadãos reais e o palco o chão em que todos nós espectadores pisamos. Seria lindo não fosse o ocorrido a própria realidade.

    É chocante saber que isso acontece justamente no dia da consciência negra. Mais ainda saber que acontece diariamente por tantos cantos, e que são poucas as vezes em que as pessoas ao redor tem a coragem de ir contra o sistema e tomar partido do lado do oprimido. É mais fácil fingir que não viu. E as coisas seguiriam... provavelmente o jovem negro não iria parar na polícia, apenas voltaria pra casa depois de tomar uns sopapos e um sacode do segurança, que deixaria claro que ali, no shopping, obviamente não era lugar para pretos e pobres. Sairia agredido injustamente (e que agressão é justa?), humilhado e com o orgulho ferido. Mas era só um moleque... e o que importa o seu orgulho? Quem se preocupa com o seu futuro? Se nem o governo, porque o centro comercial se importaria?

    São pequenos arranhões quase imperceptíveis aos olhos mais desatentos que sangram aos poucos e vão deixando marcas eternas nos corpos e nas memórias desse todo que se chama Brasil. É difícil superar o ceticismo em relação à justiça e polícia do país, ainda mais para crimes "normais" e "banais" como esse. Mas espero num futuro não muito distante que os mesmos autores pudessem voltar a escrever para esse site com a notícia de que, ao menos dessa vez, a violência e a opressão foram punidas e a dignidade do ser humano restaurada.

    Abraços

  • Ele só queria comprar um tênis
    28 de novembro de 2007, por Eudes
    Esse é o retrado da nossa democracia racial é preço que pagamos por vivermos num país que se diz igualitário. Até quando vamos nos calar diante dessa barbárie!!!
    • Ele só queria comprar um tênis
      28 de novembro de 2007, por MARIA GORETTI AMFARIA
      BASTA SER NEGRO E PASSA A SER SUSPEITO ...DE QUALQUER ATO! TEM O AGRAVANTE DE POLICIAIS E "SEGURANÇAS",NÃO TEREM O PREPARO PARA ESTA ATIVIDADE. NÃO PODEMOS CALAR. TEM QUE IR EM FRENTE E DENUNCIAR. SEGUIR COM O PROCESSO.SÓ ASSIM VAMOS MUDAR A EDUCAÇÃO DOS QUE DEVERIAM FAZER REALMENTE O TRABALHO DE NOS PROTEGER UM POUCO.
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