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Crise no Quênia: para além da etnia

sexta-feira 1º de fevereiro de 2008
Agência do Ibase

É preciso atentar para o fato de que a política queniana é marcada por alianças e coalizões entre diversos grupos étnicos, até porque nenhum deles é capaz de impor sozinho seu domínio

Maurício Santoro

A crise política no Quênia despertou a atenção mundial por se tratar de um dos países mais desenvolvidos economicamente da África, fundamental para a estabilidade de toda a costa oriental do continente. Contudo, a classificação de “conflito étnico” para descrever a situação atual é um tanto apressada, pois os embates no Quênia misturam disputas de classe, demandas com relação ao Estado, protestos contra a corrupção e rivalidades entre as etnias que formam o país.

O Quênia tem cerca de 40 etnias, sendo que a principal são os kikuyu, que constituem cerca de 22% da população. Quando o país era colônia britânica, esse povo foi sistematicamente expulso de suas férteis terras para dar lugar a ocupantes europeus. A reação veio na forma da revolta dos Mau Mau, na década de 1950, um dos marcos mais importantes das lutas de libertação colonial na África. A geração de líderes que conquistou a liberdade dos britânicos, em 1963, incluía representantes de diversas etnias: kikuyos, luos, kalenjin. O primeiro presidente foi Jomo Kenyatta, kikuyu, mas o kalenjin Daniel arap Moi foi o político que mais tempo passou à frente do país. Ele governou de 1978 a 2002, num regime marcado por autoritarismo e corrupção.

A ditadura de Moi foi substituída por um sistema multipartidário, liderado pelo presidente Mwai Kibaki, um kikuyu. Inicialmente, ele buscou alianças com os luos, representados por Raila Odinga. Mas as disputas por poder fizeram com que os dois se tornassem inimigos. No governo Kibaki a economia cresceu, impulsionada pelas exportações do agronegócio e pelo turismo - o Quênia é famoso por suas reservas ecológicas, praias e sítios arqueológicos. No entanto, a prosperidade não atingiu a camada mais pobre da população, que se ressente das precárias condições de vida, da corrupção e dos altos índices de desemprego.

Em dezembro de 2007, Odinga disputou a presidência com Kibaki, que tentava a reeleição. As pesquisas indicavam que seria uma corrida acirrada e havia preocupação de que o lado derrotado não aceitasse os resultados. Foi exatamente o que ocorreu, com Odinga acusando Kibaki de ter fraudado as eleições. Os partidários da oposição, revoltados, foram às ruas e os protestos se tornaram violentos, com o ódio canalizado contra a etnia dominante dos kikuyu e concentrado geograficamente nas favelas de Nairobi e no Vale Rift - região onde as disputas fundiárias são mais intensas.

Os acontecimentos mais brutais do confronto, no qual morreram mais de 600 pessoas, lembraram os do genocídio em Ruanda, com grupos armados assassinando pessoas da etnia rival, como na queima de uma igreja na cidade de Eldoret onde se abrigavam pessoas refugiadas. Porém, é preciso atentar para o fato de que a política queniana é marcada por alianças e coalizões entre diversos grupos étnicos, até porque nenhum deles é capaz de impor sozinho seu domínio. Os principais líderes do país trabalharam juntos, em governos que atravessaram as barreiras étnicas. Kibaki e Odinga, por exemplo, foram ministros do ex-presidente Moi. O ódio racial é principalmente uma válvula de escape para tensões econômicas e sociais, como o desemprego, as disputas por terra e a revolta contra a corrupção dos líderes.

Os Estados Unidos e a União Européia investiram muito dinheiro no Quênia e apostaram em Kibaki para a construção da democracia após 25 anos de ditadura de Moi. Embora essa opção tenha se mostrado errada, os países ricos se mostraram relutantes em abandoná-lo e aceitaram sua declaração de vitória eleitoral, pressionando-o apenas para que inclua em seu governo os líderes da oposição, de modo a acalmar o descontentamento e tentar chegar a algum tipo de pacto de governabilidade.

As preocupações internacionais se devem à importância econômica do Quênia para a África oriental. Seus portos e estradas garantem o abastecimento de Uganda, Ruanda, Burundi e partes significativas da República Democrática do Congo. São países marcados por conflitos muito graves, nos quais a escassez de combustíveis ou de produtos industriais pode resultar em novas ondas de violência numa região já bastante conflagrada.

Publicado em 18/1/2008.

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