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Um golpe com dias contados

terça-feira 30 de junho de 2009

Ao desconsiderar que o mundo mudou, que a administração em Washington não tem o mesmo vigor intervencionista de um passado recente, as elites golpistas minimizam um adversário poderoso: a opinião pública internacional

Marco Piva

Marco Piva

Não será a reação dos movimentos sociais que reverterá o golpe de estado em Honduras. Por um motivo simples: a sociedade civil hondurenha é pouco organizada e nela prevalecem as elites empresariais que, por sua vez, subordinam os militares e os meios de comunicação. No final da década de 70 e durante a primeira metade dos 80, enquanto países vizinhos da região passavam por fortes disputas armadas, Honduras navegava placidamente na condição de aliado fiel da política externa dos Estados Unidos, servindo como base militar para a ação dos rebeldes anti-sandinistas da Nicarágua. Um incipiente movimento guerrilheiro na época foi desbaratado em questão de semanas.

Honduras não tem movimento social organizado suficiente para reverter sozinho um golpe de estado que se insere numa lógica interna de dominação secular das elites. E talvez esteja exatamente aí a real possibilidade de retorno da estabilidade democrática. Ao desconsiderar que o mundo mudou, que a administração em Washington não tem o mesmo vigor intervencionista de um passado recente, as elites golpistas minimizam um adversário poderoso: a opinião pública internacional.

Hoje em dia ninguém destitui um presidente e o manda embora do país de pijama. Nenhum governo reconheceu ou irá reconhecer a quebra constitucional executada por generais a mando da elite empresarial e com respaldo sob encomenda de setores do Judiciário e do Congresso. A começar da Organização dos Estados Americanos (OEA) cuja última reunião de cúpula foi feita exatamente em Tegucigalpa. A Casa Branca, em coro com outros importantes governos do continente latino-americano, condenou o golpe, apesar da ambigüidade inicial da secretária de Estado, Hillary Clinton, habilmente aproveitada pela imprensa hondurenha (www.laprensahn.com). A condenação diplomática, que começa com a retirada de embaixadores e a suspensão de ajuda econômica, obrigará os golpistas a acenar, mais cedo que tarde, com a possibilidade de uma reconciliação nacional.

Neste momento também será importante a atuação do presidente constitucional Manuel Zelaya, ele mesmo egresso das fileiras da elite política tradicional. Zelaya não conseguiu costurar um consenso mínimo para evitar a crônica triste e sabida da história de golpes na América Latina. Em uma conversão ideológica inusitada para sua biografia política, assustou seus antigos pares ao promover uma agressiva política compensatória para a população empobrecida do país e aderiu à ALBA com o apoio pouco entusiasmado do Congresso, que é unicameral. A partir disso, apostou suas fichas na radicalização de um processo democrático de base como forma de consolidar sua liderança sobre os poderes tradicionais do país. A consulta popular visando o apoio a uma possível reeleição fazia parte do plano e se tornou o estopim da crise.

Zelaya acreditou ter o apoio das “massas” para as quais governava. Mas, as “massas” em Honduras não existem de forma organizada, à exceção de um ou outro setor sindical, de um movimento camponês restrito e de vozes isoladas de classe média. O cenário pós-golpe mostra uma reação pouco articulada (o endereço eletrônico da resistência é um gmail particular...).

Portanto, será a pressão externa, muito mais do que a interna, o fator que poderá diminuir a tensão em Honduras. Governos e organismos internacionais terão um papel muito importante para que os dois lados cheguem a um acordo. Os próximos dias serão cruciais para a busca do entendimento visando tirar o país da crise institucional. Provavelmente haverá um Zelaya com discurso mais cuidadoso e uma elite mais atenta à pressão mundial. Difícil prever se haverá um grupo vitorioso na história. Mas, uma coisa é certa: sem a volta da estabilidade democrática nenhum dos lados terá vencido.

Marco Piva é jornalista especializado em América Central. Autor de “Nicarágua - um povo e sua história” (Edições Paulinas) e mestrando no Programa de Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (Prolam/USP).


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