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quinta-feira 23 de março de 2006

Puxada por crianças da rede municipal de ensino, marcha de abertura anima o FME e fala de uma cidade interessada em transformar-se pela educação

Ana Trigueiro Sola

Parecia a marcha de abertura mais decidida de um evento que segue o formato dos Fóruns Sociais. Fotógrafos que andavam pela Via Light de Nova Iguaçu para fazer registros da primeira ala da Caminhada pelo Direito à Educação e pela Paz aprenderam depressa como correr de costas, pra não ser atropelados por ela

Era também a ala de frente mais alegre, comparada a outros eventos do gênero: puxada por crianças da rede municipal de ensino de Nova Iguaçu, não faltava energia para vencer os dois quilômetros de percurso entre a área de concentração, em frente à Prefeitura Municipal, até o palco montado para a festa de abertura do FME, em frente ao prédio da Codeni, Coordenadoria de Desenvolvimento de Nova Iguaçu.

Depois que as crianças chegaram ao destino, as cerca de seis mil pessoas que marcharam atrás delas mantiveram-se em performances e manifestações espalhadas pelas Via Light por mais umas duas horas, enquanto outras quatro mil iam chegando de outros cantos da cidade para ver a festa de abertura.

Protestos e afoxé

A marcha trouxe de tudo um pouco - sobre idéias e formas de ver a educação e a cidade educadora - para a grande avenida de Nova Iguaçu. O carro de som dos professores da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro vinha ao fim de tudo, empurrando o cortejo adiante com protestos gravados contra o governo estadual - que há 11 anos não aumenta os salários do professorado - e avisos gritados ao governo municipal para não seguir a mesma receita de Rosinha e Garotinho. Lindberg foi criticado por enfeitar a cidade para o FME, e não fazer tudo que pode pela educação.

Com tambores e danças nordestinas, o grupo Eremin, de Osasco veio mostrar que já faz a sua parte para fazer de uma cidade, educadora. A organização não governamental atua em áreas livres - como são chamadas as áreas ocupadas de forma irregular - com programas de educação realizados nos contra-turnos das escolas públicas, com as crianças, jovens e a comunidade. A música e a dança seguem lado a lado com programas de alfabetização e formação para a cidadania.

Um grupo de estudantes de Ciências Sociais da Fundação Getulio Vargas se encantava com o fato de estar marchando, pela primeira vez, lado a lado, com grupos de trabalhadores do Movimento dos Sem Terra. Empunharam câmeras, cadernos e gravadores para registrar tudo que podiam desse primeiro encontro. “Perguntamos sobre as ocupações, como são feitas e o que eles enfrentam”, disse Juliana, a redatora do grupo. “Aprendemos como os fazendeiros fazem para forçar uma reintegração de posse, e como os trabalhadores se defendem”, explicou seu colega fotógrafo.

A dança também é forma de educação para o grupo de afoxé Maxambomba, de Nova Iguaçu, que se dedica a levar o candomblé para o povo, como forma de levar cultura. E o povo em volta se rendia aos tambores dos Orixás, próximos do palco, enquanto os microfones anunciavam as falas oficiais e o show de abertura.

Após a saudação a todas as organizações, instituições e movimentos de educação presentes, feita por Salete Valesan Camba, da organização do FME, o Grupo Nós do Morro, vindo do Morro do Vidigal, apresentou a “Esquete A Revolução dos Anjos “, uma performance sobre sua vida - a vida em um lugar castigado pelo estigma da violência, drama também de Nova Iguaçu que, dia 31 de Março, relembra a chacina que um ano atrás traumatizou a cidade.

No ato, falou o representante do Conselho Internacional do FME, Pablo Gentile, sobre como a experiência das escolas pode gerar uma proposta de educação contra-hegemônica. Falou Moacir Gadotti, também do CI do FME, sobre como a educação pode tomar as ruas e mudar a história de Nova Iguaçu - e que o FME está sendo feito na cidade e pela para isso mesmo. Falou o prefeito Lindberg Farias, lembrando que dia 31 de Março não vai ficar no esqujecimento, mas será lembrado para mostrar que na cidade não haverá lugar para o crime organizado. E falou o ministro da Educação, Fernando Hadad, sobre as políticas de educação que o Brasil quer mostrar às delegações internacionais e a vontade de conhecer as experiências que estão dando certo fora.

A festa terminou alegre e jovial como começou, com shows de dança e coreografia do grupo Expressão e do Projeto Dança Viva e um jogral de saudação do FME ao povo de Nova Iguaçu.

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